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O futuro das águas em verso e prosa
Penha Emerick
A edição de outubro da revista SÉCULO começava a circular em Vitória quando teve início o III Encontro dos Recursos Hídricos e das Adversidades Climáticas, promovido pela Sociedade Espirito-Santense dos Engenheiros Agrônomos (SEEA), Secretaria de Agricultura e Conselho Regional de Arquitetura e Agronomia (CREA/ES). O evento aconteceu no auditório do CREA, mobilizando profissionais de áreas diversas e de vários municípios do Estado. A revista tinha como matéria principal o texto O futuro das águas: vidas secas.
A reportagem, ocupando 13 páginas fartamente ilustradas, abordava justamente um dos temas debatidos no Encontro: a situação da água no Estado e o seu gerenciamento.
A importância do Encontro é indiscutível: seus promotores merecem aplausos por manterem as discussões em alto nível e com diversidade de pontos de vista, o que possibilitou a apropriação de novos conhecimentos e novas interpretações sobre os fenômenos climáticos.
SÉCULO apresenta alguns dos temas enfocados que suscitaram discussões extremamente positivas:
Gilmar G. Dadalto, presidente da SEEA, salientou a grande importância de tais eventos. A seu ver, eles geram discussões que extrapolam as salas em que são realizados, gerando desdobramentos operacionais, como, por exemplo, a utilização dos anais de encontros anteriores por parlamentares capixabas para justificar o ingresso do norte do Estado na Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste). Como ação resultante de tal inserção, em 1998 o governo federal ( Sudene), a Cesan e a CPRM (Companhia de Pesquisas de Recursos Minerais) perfuraram 130 poços no norte do ES e, destes, 70% encontram-se em condições satisfatórias, como afirmou o pesquisador da CPRM José do Espírito Santo Sampaio. A palestra, bastante específica, de Maria Antonieta Alcântara (também pesquisadora da CPRM ), mostrou dados fisicoquímicos preliminares das condições de uso dos poços do norte do ES, demonstrando que existem muitas limitações nas formas de utilização destes poços, principalmente para o consumo humano.
Os princípios da Lei 5.818 foram abordados pelo secretário para Assuntos de Meio Ambiente do Estado, Almir Bressan: a água é um bem de domínio público; a água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico, e a gestão dos recursos hídricos deve proporcionar o uso múltiplo das águas. Tal gestão deve ser descentralizada e gerenciada pelo poder público, com a participação dos usuários e da comunidade.
O evento evidenciou que são muitas as interrogações e contradições sobre os temas água e clima. Uma das razões para isso, segundo o pesquisador Paulo Santana, é que a hidrologia possui duas correntes distintas. Uma, conhecida como experimental, que, resumidamente, é caracterizada por observações dos fenômenos em campo, sem a preocupação de explicações mais profundas de tais fenômenos isoladamente; a outra linha é a modelagem, que faz previsões baseadas em uma série de variáveis e estudos dos processos isolados e interligados, como vazão hídrica, precipitação, evapotranspiração (perda combinada de água de uma dada área por evaporação através da superfície do solo e da transpiração dos organismos), infiltração, interceptação, radiação solar, uso da terra, dentre outros. Com base em tais variáveis, são traçados paralelos para fazer as previsões. Santana afirmou que as pesquisas em Hidrologia Florestal ainda podem ser consideradas incipientes no Brasil, e quase que totalmente no Espírito Santo.
É impossível fazer previsões além de 7 dias para as regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, por limitações da Ciência, afirmou Gilvan Sampaio de Oliveira (pesquisador CPETEC - INPE - SP ). E isso deve-se às grandes variáveis que influenciam o clima de algumas regiões sul-americanas. Todavia, é possível uma previsibilidade de no máximo 4 meses para as regiões Leste-norte da Amazônia e para o Nordeste. Os fenômenos conhecidos como El Niño e La Niña produzem mudanças nas circulações tropicais, são capazes de promover alterações climáticas, mas não em toda a América do Sul, o que dificulta a previsibilidade para o Sudeste e o Centro-Oeste, por exemplo.
O sistema climático é composto por diversas variáveis, tais como: a radiação solar, os oceanos, as geleiras, a biomassa (somatório da massa orgânica viva existente num determinado espaço, num dado instante), a influência do homem, a topografia, os aerosóis (partículas em suspensão na atmosfera ), os gases, as nuvens, os rios e lagos. Portanto, é um sistema muito complexo e qualquer alteração de uma dessas variáveis pode impactar o clima, pois tudo está interligado. Por exemplo, queimadas isoladas no Matogrosso podem estar afetando o clima em uma outra região distante.
É verdadeira a afirmação de que o clima está mudando? Os estudos sobre o clima do Sudeste brasileiro vêm demonstrando uma ligeira queda do total de chuva anual, desde os anos 60, fenômeno que pode ser caracterizado como mudança do ciclo da estação chuvosa, seja com antecipação ou retardamento da estação chuvosa mais abundante. Observou-se também um menor número de episódios de massa de ar frio de inverno, quando comparado o período de 1975 a 1984 ao de 1986 a 1999. Observa-se também uma maior tendência de ventos menos severos associados a frentes frias, o que pode ser atribuído ao aquecimento global ou aquecimento do Oceano Atlântico na costa Sul e Sudeste do Brasil. Portanto, está caracterizada a existência de um aquecimento regional, o que pode ser atribuído ao homem - devido ao desmatamento, ao aumento da liberação de CO2, aumento da queima de combustíveis fósseis e também da biomassa. Porém, não está descartada a possibilidade de estar ocorrendo uma mudança natural das condições climáticas, uma vez que a Terra passou por várias mudanças climáticas drásticas em sua história.
Os rios e os lagos são os excedentes da natureza. Portanto, a humanidade sobrevive com a água que sobra.
Sobre a Produção e Consumo de Água em Bacias Hidrográficas falou o professor Santana, que suscitou muitas reflexões e discussões devido a afirmações que, muitas vezes, fogem ao senso comum e, em muitos momentos, parecem desagradar a gregos e troianos. Como exemplos, podem ser citadas as seguinte colocações:
- A última década hidrológica internacional não reconhece que a alteração ou a substituição de uma floresta por pastagem ou por outro cultivo agrícola vá afetar significativamente a precipitação local. Porém, ele ressalva que as grandes extensões florestais aumentam as precipitações, mesmo que essas ocorram em uma outra área.
- O importante é termos a arte e a técnica de combinarmos desbastes, desramas, corte seletivo, parcelas alternadas para não expor o solo, pois se a evapotranspiração for menor que a capacidade de infiltração da chuva no solo, e se a floresta for cortada, a vazão das nascentes e dos demais cursos de água vai aumentar. Mas se a evapotranspiração for maior que a infiltração, as nascentes secarão. Portanto, a evapotranspiração funciona como uma espécie de bomba que retira água do solo, jogando-a para a atmosfera na forma de vapor. O importante é manter a capacidade de absorção de água pelo solo. Mas, professor, não seriam as florestas tropicais as maiores "esponjas" de absorção da água para o solo?
- Eu não seria um louco em afirmar que em bacias montanhosas ou bacias de cabeceira, onde existem solos instáveis, é possível cortar as florestas. Isso causaria lixiviação (remoção de nutrientes do solo, pela água que nele se infiltra) e a erosão. As florestas das bacias de cabeceira são coletoras, redistribuidoras da precipitação para oferecer água aos rios, que são os excedentes de água da natureza.
- As florestas de eucaliptos e as florestas de coníferas evapotranspiram mais que as florestas nativas tropicais, por cm/ano. Muitas espécies de eucalipto retiram com maior eficiência a água acumulada no solo encharcado, evapotranspirando mais que outras árvores. Assim, dificultam a infiltração da água até os lençóis subterrâneos, pois funcionam como uma bomba que retira a água acumulada nos estratos superiores do solo.
- Quanto ao plantio de matas ciliares (aquelas ao redor dos recursos hídricos), vai depender da magnitude dos rios, cada caso é um caso em Hidrologia. Mas, a verdade é que, quanto mais subimos para as nascentes dos rios, mais frágeis ficam os sistemas. Se as precipitações forem suficientes para manterem os lençóis abastecidos, e a evapotranspiração não for maior que a infiltração da água no solo, por que não plantar? O importante é deter a arte do equilíbrio!
| Jader Moreira Rafael - produtor rural, compôs estes versos após assistir a uma palestra do professor Santana |
O cientista e a natureza
É um mistério profundo
Compreender a natureza
Seus segredos, sua grandeza
A coisa mais linda do mundo:
nossa mãe, nosso escudo
São coisas que a Ciência
Em poucos anos de estudo
Não tem certeza de tudo
Nem explica com transparência.
Diante da insegurança
Que nos revela a Ciência
Devemos ter paciência
E em Deus ter confiança
O doutor nos disse uma beleza:
"vamos ler a natureza,
aquilo que ela nos diz",
porém não devemos pôr o nariz
sem antes termos certeza.
Bem entendo que o senhor
Com seu estudo e sua função
Tem sua tese e tem razão
E tem diploma de doutor.
E, como pesquisador,
orienta a quem ignora
na relação nascente/homem:
Se se planta - a água some
Se se corta - ela aflora...
O homem criou o telefone
Fez o computador e a televisão
E, com sua imaginação,
fez da ovelha um clone,
pela força da Ciência.
Agora sentindo essa grandeza
Vem com gráficos e equações
Explicar nobres razões
Pra se intervir na natureza.
Eu respeito o senhor
Mas não devo aceitar
Como é que eu posso cortar
A mata que Deus deixou?
A nossa vida dela provém,
E vivem nela também,
As plantas, os insetos e outros bichos
E o cientista por capricho
Manda cortar o que tem!
Desculpe se do meu posto
respondo como produtor
Embora eu respeite o senhor
Não escondo o meu desgosto.
Eu afirmo e tenho certeza
Que os rios, a terra e o mar
São obras da Criação
E se não temos convicçäo
O melhor é não cortar ! |
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