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Século Diário
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Revista Século
de julho nas bancas
Na capa, o maior predador de árvores do planeta, o capixaba Rainor Grecco, beija um exemplar jovem de jacarandá. Com sua morte, ocorrida no mês passado, fica o rastro da destruição que promoveu não só aqui, no Estado, mas em todos os lugares do país onde havia uma floresta. E até no exterior - Rainor devastou matas até nos países do chamado bloco socialista.
Com o jacarandá, ele amealhou fortunas. Gastou tudo em viagens. Conheceu 75 países. Deu sua primeira entrevista a Rogério Medeiros, que o encontrou na mata, ao lado de um exército de serradores. Rainor foi uma figura polêmica que também se sobressaiu pela inteligência, como conta Rogério em dez páginas de um texto emocionado, fartamente ilustrado com fotos da época em que o predador se encontrava em franca atividade.
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Texto Rogério Medeiros
Foto Rogério Medeiros
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Esta reportagem de Rogério Medeiros resgata um episódio marcante da luta indígena pela posse da terra, o encontro de duas lideranças - dos tupiniquins e guaranis - às margens do rio Piraqê-açu. O encontro marcou o início da retomada das terras indígenas, na década de 70, daí sua importância para a melhor compreensão do drama vivido por nossos índios.
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Nas Margens do Piraquê-Açu (O Encontro das Tribos Guarani e Tupiniquim) |
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No dia 25 de janeiro de 1977, dois homens se encontram na margem esquerda do rio Piraquê-açu. Discutem assuntos de sua gente e tomam decisões quanto ao destino de duas raças.
Paulo Venite e Alexandre Cizenanda: os caciques dos últimos guaranis e tupiniquins. Paulo, o que fala pelos guaranis, arrasta um português duro e difícil. Seu povo ainda se comunica em tupi-guarani. O tupiniquim Alexandre tem todo o desembaraço de um mal integrado na civilização branca.
Eles conversam sobre dois troncos, pequeno ancoradouro de canoas, perto da vila de Caieiras Velhas, município de Aracruz, Espírito Santo. Ali vivem os últimos tupiniquins. Sua única ocupação é a venda de caranguejos e ostras que retiram do rio.
Nesse lugar, há dez anos, viviam também os guaranis, que ali chegaram em busca da "Terra sem Males". Eram hóspedes dos tupiniquins num tempo em que os índios possuíam 40 mil hectares de terras, agora perdidas para o reflorestamento da multinacional Aracruz Celulose.
Os guaranis, que depois foram levados pela Funai para Minas Gerais, querem voltar para as terras dos tupiniquins. Estes temem perder as poucas terras que ainda possuem, diante de uma ameaça do governo do Espírito Santo em transferí-los para a região de Comboios.
Assim os caciques parlamentam:
Guarani - Porã
Tupiniquim - Como vai o senhor?
Guarani - Não vai muito bem. Nóis veio aqui conversar com tupiniquim amigo. Meu povo pediu eu vir aqui dizer todo mundo não acostuma Fazenda Guarani. Terra não é boa, muito frio. O segundo capitão morreu lá, cascavel mordeu ele. Ele está em Ianderu (com Deus). Tudo lá pediu eu vir falar irmão tupiniquim. Tudo muito ruim...
Tupiniquim - Meus companheiros andaram não querendo vocês. Mas eu disse: "São índios. São iguais a nóis. Nóis precisamos de gente. O sangue é um só, eu disse.
Guarani - Tupiniquim muito bom. Não é igual a Krenaque. Krenaque diz que lá não é nosso lugar. Eles roubar animal, depois dizer que é guarani. Eles quase matar meu irmão João, dar pontapé nele. Krenaque não gosta de nóis. Dizer que fazenda é deles. Para eles tem tudo. Mesa, cama, casa bonitinha. Para nóis casa de pau-a-pique. Coronel não quer que ajudem guarani.
Tupiniquim - A Funai esteve aqui fazendo levantamento grande. Depois foram embora dizendo que nóis vamos para Comboios. Não perguntaram o que a gente pensa. Nóis não vamos, ficamos aqui. Aqui tem peixe, tem ostra, muito caranguejo. Resolver problema de tupiniquim era colocar luz em Caieiras e fazer frigorífico para guardar peixe e ostra da gente.
Guarani - Quando Tatu (Itatuitin Ruas, ex-sertanista da Funai) nos pegou em Guarapari (cidade balneária do Espírito Santo) para levar índio Fazenda Guarani, nóis choramos. Lembramos do pai. Ele foi o grande cacique guarani. Cacique Miguel Venite. Não queria nóis fosse posto indígena. Pai dizia: "Não fiquem no posto. Maltratam índio."
'Pai trouxe nóis tudo do Rio Grande do Sul inté São Sebastião, São Paulo. Nasci em São Borja. Nasceu também Getúlio (Getúlio Vargas). Eu menino pensava em ser presidente. Botava bandeira aqui (mostra o peito) e óculos escuro. (Abre um sorriso para o cacique tupiniquim).
Tupiniquim - Nóis não temos mais terra aqui em Caieiras Velhas. A companhia (Aracruz Celulose, que reflorestou 70% das terras do município com eucaliptos) ficou com tudo. Só sobrou um pedacinho aqui perto do rio. O primo Bitti (prefeito de Aracruz) já estava até cercando quando chegou a Funai. Da Funai só ficou isso. O susto no Primo e o resta da terra para nóis plantar uma coisinha.
Guarani - Nóis pensa ir tudo para Comboios. Guarani quer uma terrinha para plantar muita mandioca. Muito feijão, muito milho. Fazer casinha. Nóis quer tupiniquim deixa guarani ficar lá.
Tupiniquim - Mas lá não tem mais mata. Nem tatuzinho para pegar. Mandar índio para lá e ficar na pior terra. O terreno bom já levaram tudo.
Guarani - Nóis quer assim mesmo. Cacique Paulo (ele) e guarani passou muita fome. Muito maltrato. Branco dizendo: "índio vagabundo". Prefeito querendo botar tanguinha índio (o prefeito de Guarapari quis vestí-los de tanga e cocar e exibí-los aos turistas). Eu vai juntar pessoal e trazer tribo aqui. Quero Comboios. Ficar longe de tudo Nóis não acredita mais ninguém. Funai só diz "paciência índio, nóis resolve caso de vocês". Nóis agora é só deusista. Povo meu triste. João não canta mais música.
Tupiniquim - Deusista?
Guarani - Só acredita Deus. Índio não acredita mais no branco. Cacique Paulo tem 38 anos. Cacique só foi feliz um pouquinho. Quando índio ficou em Parati e em Caieiras Velhas. Mas sempre apareceu branco, botou índio na estrada. Mulher cacique Paulo morreu doente. Filho cacique Paulo, branco pegou. Roubou. E cacique veio agora buscar no Resplendor (em Minas Gerais).
Um civilizado de nome Adão Viana Filho passou na Fazenda Guarani, em Minas, achou bonito o filho do cacique Paulo e raptou o menino.
Durante oito meses o cacique procurou o menino e o encontrou em Resplendor. No seu encontro com cacique tupiniquim, o membro Luiz estava na companhia do cacique guarani. Maltrapilho, mas contente junto ao pai.
Tupiniquim - Nóis temos dois rios cheios de peixes, de ostra e caranguejo. O Piraquê-açu e Piraquê-mirim. Quando eu era menino só ia nele para se divertir. Não tirava ostra nem pegava caranguejo. Ficava tudo perto, não é como agora que vamos longe para chegar no rio. Nóis tínhamos muita terra, plantava por tudo aí. Andava pela mata matando bicho. Macaco a gente comia muito.
Guarani - Nós vai rezar para não morrer os peixinhos dos irmãos tupiniquim.
Tupiniquim - Agora o negócio de igreja está danado. Já tem pentecoste e Assembléia de Deus. Antigamente só tinha a nossa dança do Congo e os macumbeiros. Benedito Fumaço e velho Jô.
Guarani - Na Fazenda Guarani nóis não vai mais na igreja. Os nossos filhinhos não têm escola. Esse ano nóis plantou milho sem ajuda de ninguém. Deu bicho. Eu vou com a mão e tiro. Plantei feijão, não deu. Índio só faiz flechinha para vender branco. O povo de Carmézia (município vizinho da Fazenda Guarani, em Minas Gerais) falava: "Vocês ficam com fome?" Não sei, respondia. Deus é quem sabe. Tudo nóis faiz a custa de nóis. Funai não dá nada.
Tupiniquim - Irmão pode vir. Vocês podem ficar com a gente aqui. Ajeita lugar para guarani. Agora, a gente pensa que não tem mais terra para índio viver. Essa companhia dos eucaliptos não vai deixar índio viver.
Nosso rio dá muita coisa. Vendemos um quilo de ostra sem casco por 16 cruzeiros. Dá para apanhar seis dúzias de caranguejo todos os dias. Não tem para onde guardar ostra e caranguejo, não tem gelo. Eles estragam. Então nóis só pegamos por encomenda. Acabamos pescando um dia por semana só. Vem de Santa Cruz o pedido e nóis vamos para o rio.
Guarani - Vou buscar meu pessoal. Se não tem jeito Comboios, Funai não tirar pedaço dela para índio, nóis vai para Pataxó, na Bahia. Lá tem muita mandioca e peixe. Nóis querer terra. Nóis não sabe pescar. Nóis tem medo da água.
Tupiniquim - Nóis temos 12 canoas. Dá para a gente pescar todos os dias. É muito bom ir no rio.
Guarani - Não. Guarani não quer. Guarani fica na terra.
Tupiniquim - Nóis ouvimos do "alagoano" (o barqueiro que faz a travessia do pessoal na baía de Santa Cruz) que a fábrica dos eucaliptos vai envenenar a ostra e acabar com os caranguejos. Vão botar coisa ruim na natureza. De que vamos viver então? No caso das terras nóis ficamos de olhos fechados, o branco vendeu as nossas terras. Agora querem acabar com o mangue. Os homens são os mesmos...
(um longo silêncio)
Tupiniquim - Vou preparar o congo para receber vocês. Vamos dançar juntos. Quanto mais índio aqui melhor.
Guarani - Deus fica com o irmão. Deus vai com o guarani. Guarani já volta para junto tupiniquim. Porã.
Tupiniquim - Adeus.
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