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  Anna Karina Netto
   Fotos: Gustavo Louzada
  03/01/2003


Cineastas afirmam: Capixaba tem identidade cultural sim


Marcos Valério diz que a pesquisa
não retrata a realidade
O produtor cultural, cineasta e cineclubista Marcos Valério Guimarães, o cineasta Orlando Bonfim e o ator, jornalista, diretor de cinema e teatro e presidente da Associação Brasileira de Documentarista e de Curtametragista Luiz Tadeu Teixeira, expressam suas opiniões contraria à matéria do jornal A Gazeta Capixaba não tem identidade cultural, do dia 15 de dezembro.

Os três cineastas foram categóricos na hora de afirmar que a matéria estava equivocada. Dizem que capixaba tem identidade cultural sim, que a metodologia usada não foi a correta e que nós somos o retrato do Brasil: Um grande caldeirão étnico.

Produtor cultural, cineasta e cineclubista Marcos Valério Guimarães acredita que a matéria não está retratando a realidade, e que o Espírito Santo tem valores e costumes de identidade. "O equívoco está no momento em que a pesquisa não deixa claro aonde ela foi buscar, e com quem ela foi buscar estas informações, para basear esta conclusão".

Para Marcos Valério a identidade cultural capixaba é muito presente. Pois o congo se mantém há mais de 100 anos nas festas folclóricas capixabas. E segundo ele as próprias bandas de rock que tocam congo são a prova de que a identidade cultural do capixaba é forte.

"Eu acredito que temos identidade cultural sim, e que ela é muito presente. O congo está dentro da nossa cultura, do nosso Estado há vários anos e se mantém na tradição folclórica. A festa de São Benedito, e as comemorações de congo, como o grande encontro na Serra, trazem milhares de pessoas. Não acho de forma nenhuma que as bandas de rock têm divulgado o congo, mas as próprias bandas sofreram influência da identidade folclórica. Esses meninos, na hora que começaram as suas bandas, incorporaram a influência cultural capixaba, que eles conhecem desde que se soltaram no mundo. Então as próprias bandas de rock, que tocam congo já são a prova de como a identidade cultural capixaba é forte, e presente. A conclusão desta pesquisa é absolutamente errada, e a matéria lamentável".

Colocar Bumba meu Boi e Vital na pesquisa foi de um desconhecimento total do assunto sobre manifestação folclórica, disse Valério. Para ele Vital não tem relação com manifestação folclórica, pois o que é folclórico é do povo, não entra comercialização, afirma. "Vital não é manifestação cultural, é um fenômeno da indústria cultural de massa. Você ouve uma musica baiana industrializada empacotada, arrumadinha, bonitinha, pronta vender e ganhar muito dinheiro. Isto acontece em todas as capitais do País, mas não tem absolutamente nada a ver com folclore capixaba. O folclore envolve povo, e o Vital dinheiro. Sobre Bumba meu boi eu não vou nem comentar. Não posso falar de uma festa do nordeste, eu moro no Espírito Santo. Estou decepcionado com esta pesquisa".

O cineasta Orlando Bonfim, acredita que os erros cometidos pela pesquisa e pela matéria foram vários, mas que em primeiro lugar houve um erro científico. "Parece que não houve uma configuração de metodologia que correspondesse à pesquisa e ao que se proponha a pesquisa. Por isto os dados não foram corretos. A Prefeitura Municipal Vitória publicou um livro chamado: 'Identidade capixaba', com mais de 200 páginas. As pessoas que escreveram neste livro são as mais notáveis do Estado. E todos estão falando sobre identidade cultural capixaba. Este é um assunto recorrente no Espírito Santo há muitos anos. Há décadas se estuda esta questão da identidade cultural capixaba, e o curioso é que se chega sempre ao mesmo resultado. Então você falar de falta de identidade cultural capixaba é um equívoco".

Orlando Bonfim diz que identidade é o conjunto de histórias comuns. É que o Espírito Santo é formado por influências do País interiro. "O Rio de Janeiro, por exemplo, é como o nosso Estado, é formado por elementos de todo o Brasil. Se você chegar em um lugar e contar as pessoas, em uma roda de dez elementos você vai encontra seis ou sete que não são do Rio, mas que já incorporaram a cultura local, estas pessoas têm o mesmo comportamento dos cariocas. E o Espírito Santo também tem esta questão"

E diz mais, "Onde você vê, por exemplo, a panela de barro espalhada no Brasil inteiro, associado à moqueca capixaba, que é uma coisa totalmente indissolúvel. Aqui você vê a manifestação do Congo que reúne 100 mil pessoas. Então você não pode querer passar por cima da questão da identidade cultural, você não pode desfigurar um fato maior que é a questão da identidade, que é formada por histórias comuns. Acredito que faltou uma metodologia mais definida para se chegar ao resultado da identidade cultural capixaba".

Segundo Bonfim quando fez um filme documentário em 1975, sobre a imigração italiana no Espírito Santo, encontrou uma banda de Congo entre eles. O que para ele prova que a cultura capixaba estava presente entre eles. E diz que uma pesquisa feita na Grande Vitória, não pode representar todo o Estado. "Naquele tempo a imigração italiana já reconhecia o congo como manifestação folclórica capixaba. A região da Grande Vitória tem hoje um contingente muito grande de pessoas que chegaram recentemente ao Espírito Santo. Então o que temos na Grande Vitória é um volume muito grande de gente que veio muito recentemente para cá, e evidentemente tem no seu subconsciente uma outra relação com esta história e com o Espírito Santo. Então não podemos analisar uma pesquisa que não percorreu todo Estado e usou uma metodologia que foi mal construída".

O capixaba é uma síntese do povo
brasileiro, afirma Teixeira
O ator, jornalista, diretor de cinema e teatro, presidente da Associação Brasileira de Documentarista e Curtametragista Luiz Tadeu Teixeira, diz que a afirmação do jornal A Gazeta é uma grande estupidez. e que o Espírito Santo é o Brasil. "Qual a identidade do Brasil? Negro? Índio? Branco? Não. O Brasil é tudo isto. E o Espírito Santo e a síntese do Brasil em todos os aspectos, tanto geográfico, étnico e cultural. O Espírito Santo tem quase tudo que tem no Brasil, os alemães, os negros, os libaneses e até japoneses, enfim temos este caldeirão étnico que é a cultura capixaba e brasileira".

Como ator Luiz Tadeu foi premiado no festival de teatro do Paraná e conta uma historia interessante sobre identidade capixaba em seu relato. "Vou contar um fato que me deixou mais feliz que ter ganhado o próprio prêmio. Na época um dos jurados levantou e falou que ficou muito satisfeito com a peça, e que o que mais o deixou satisfeito foi ter ouvido a língua brasileira mais bem falada de todos os estados que ele já havia passado. E disse que o sotaque mais gostoso de ouvir era o nosso, o capixaba. Que não tinha nada de parecido com o sotaque baiano, carioca, paulista, mineiro ou qualquer outro, era o capixaba que segundo o jurado era o mais gostoso de ouvir. Conto isto com orgulho porque nós capixabas temos uma maneira especial de falar. Nós não temos um sotaque carregado. A nossa linguagem, o nosso falar capixaba era o que menos incomodava as pessoas. Isto tudo é identidade".

Para Tadeu é inadmissível falar ou colocar em qualquer lugar que Vital e Bumba meu boi sejam manifestações folclóricas capixabas. Que se começarmos a procurar a pureza da raça brasileira, entraremos na cultura nazista. "Vital é um evento comercial, feito para faturar e não tem identidade nenhuma. O Vital é uma importação do carnaval fora de época, que acontece por uma questão puramente comercial. Bumba meu boi não é capixaba, é do Maranhão, do nordeste. Não adianta quer buscar a pureza da raça brasileira, ela não existe, nós somos um caldeirão étnico, temos um pouco de tudo no Brasil. Temos que entender que toda cultura é feita da soma de outras culturas. É até meio nazista você quere a pureza da cultura capixaba, da cultura baiana e das outras. Isto é um absurdo. O que caracteriza o Espírito Santo é multiplicidade de formações que resulta, neste caldeirão étnico".


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