Duas Turbulências




Antônio Carlos Medeiros
é administrador e cientista político

Em poucos dias, presenciamos duas turbulências , além das decorrentes das chuvas que assolam o país e estão causando enormes problemas . Uma turbulência de caráter nacional. E outra regional. De naturezas distintas. Mas que causaram preocupações. E tiveram prontas respostas.

A turbulência nacional , que ainda não passou de todo , foi causada por sinalizações desencontradas sobre eventuais mudanças de rumo na condução da política econômica. Isto, combinado com os sintomas do aumento dos juros americanos e com a aumento ( cíclico ? ) da inflação brasileira, causou um início de reversão de expectativas.

De pronto, o Ministro Palocci convocou entrevista coletiva para garantir que não há divergências no governo e que não haverá mudanças, apesar das sinalizações desencontradas. O chamado mercado acalmou. Mas ainda não de todo.

Assim, o debate vai continuar. O que torna importante assinalar que o risco de reversão da melhoria nos fundamentos macroeconômicos do país ainda existe. Para entrar em novo ciclo de crescimento sustentado - que é o que todo mundo deseja -, ainda há muito chão a percorrer. Em linhas gerais , apesar dos avanços , permanecem as vulnerabilidades externas e internas do país. Ainda não há, portanto, um ambiente seguro para o retorno do investimento privado aos níveis desejados.

O essencial, no debate , é evitar dogmatismos de ambos os lados. E tentar encontrar o "ponto" correto na preparação da "massa" da política econômica.

Por um lado, é preciso entender que a consolidação fiscal é condição necessária , mas não suficiente , para promover o crescimento sustentado. Déficits orçamentários permanentes são ruins , é claro. Mas, como afirma Robert Solow, "o ponto é não ser dogmático em relação ao orçamento , adotando políticas expansionistas quando houver excesso de capacidade produtiva e contracionistas quando a economia estiver próxima do pleno emprego" (EXAME , 15/01/04).

Dito de outra forma : a estabilidade fiscal de longo prazo precisa ser compatível com atuações contracíclicas dos governos. É disto que se trata o debate.
Neste momento , se o governo continuar com a adoção das doses corretas , o país poderá aproveitar-se do cenário internacional positivo para voltar a crescer. Sabendo-se que o Brasil , assim como a Rússia , a Índia e a China , está em boas condições para encurtar a distância em relação ao Primeiro Mundo ( como fizeram , por exemplo , a Espanha , a Coréia e a Irlanda ). Mas não se pode "errar a mão" .

Aqui no Espírito Santo , a turbulência foi de outra natureza, completamente distinta. Refiro-me aos problemas de saúde - já superados - do governador Paulo Hartung.

Além da presteza e competência no atendimento médico do governador , foi importante a decisão de manter a população capixaba informada. Ou seja, a política de comunicação sobre o quadro de saúde do governador - transparente , objetiva e precisa - , foi fundamental. Contribuiu para a manutenção do quadro de estabilidade político-institucional do estado.

Agora, com o retorno em breve do governador Paulo Hartung , o desafio vai ser manter a estabilidade institucional e avançar na melhoria dos serviços públicos e na garantia dos investimentos públicos e privados.

Mais, talvez, do que o Brasil como um todo , o estado do Espírito Santo parece estar pronto para continuar , agora com mais intensidade , a sua trajetória de crescimento sustentado.