Foto: Apoena
|
|
|
|
Eles fazem parte da primeira leva de agentes florestais do Espírito Santo. Transformaram em profissão o ofício de proteger a natureza da ganância e ignorância do homem na década de 60, época em que no Brasil ainda não se falava em desenvolvimento sustentável, efeito estufa, seca, extinção de espécies.
As dificuldades eram muitas, mas eles cumpriram seu papel. Pois é graças ao trabalho de pessoas como eles que hoje ainda existe um pouco de mata e bichos, restritos às reservas florestais, as grandes esponjas de retenção de água doce.
Severino Joaquim Soares e Alberto Hoffmann, que faleceu no dia 24 de janeiro deste ano, são heróis anônimos na defesa das matas capixabas. Mesmo depois de aposentados, continuaram atentos. Sem poupar críticas ao governo e aos colegas de profissão da atualidade que não possuem a mesma garra exigida naqueles tempos. Nesta entrevista à SÉCULO, relembraram histórias alegres e tristes do início da profissão, falaram das saudades do naturalista e companheiro Augusto Ruschi, com quem tanto aprenderam. E, principalmente, deixaram seu relato de força e coragem, de amor e fé na proteção da natureza.
É fato. Preservar a Amazônia, a restinga, as baleias, as tartarugas... nada disso é consenso mundial. Apesar das décadas de campanhas ambientais e da constatação de que já sofremos com as conseqüências dos desmandos contra a natureza, ainda há um batalhão de pessoas que não reconhece a importância de se preservar as vegetações nativas e os animais selvagens. Isso em pleno terceiro milênio. Imagine há 40 anos.
Pois foi nessa época que o pernambucano Severino Joaquim Soares (foto), 71 anos, inesperadamente apaixonou-se pelo trabalho de agente florestal que se iniciava em Linhares, na Reserva Biológica de Sooretama, a única reserva em boas condições da mata atlântica dos tabuleiros.
Foto: Apoena
|
|
|
|
Ele havia saído de sua cidade natal, Orobó, incrustada nas serras de Pernambuco, em busca de emprego e melhores condições de vida. Rumou para o Sul do País, mais precisamente para o Rio de Janeiro, onde imediatamente conseguiu bom trabalho em uma grande empresa de construção civil. O mérito não fora do estudo formal, que só alcançava o quarto ano primário, mas de seu empenho e inteligência.
O emprego o fazia viajar muito. Conheceu e morou em vários estados e dezenas de cidades, levando o progresso e a urbanização. Em Vitória, trabalhou na construção de prédios como o 13 de Maio, Ouro Verde, Palácio do Café, Caixa Econômica da Esplanada, entre outros, no Centro da cidade.
Em seguida, participou do boom de construção de estradas, que começavam a tirar o interior do Espírito Santo do isolamento rural. Em 1968, o regime militar fez com que as obras da ponte de Barra Seca, na RR-101, onde trabalhava, fossem interrompidas. Severino recebeu ordem para continuar no local, tomando conta do maquinário, até que a situação se resolvesse.
Ao seu lado, porém, começava a se formar um burburinho que muito lhe atraiu. A recém-criada Divisão de Caça e Pesca do Ministério da Agricultura estava recrutando homens para aumentar a primeira equipe de guardas florestais da região. A missão era proteger Sooretama, reserva biológica altamente cobiçada por caçadores e pesquisadores, devido à sua riqueza faunística. "Até hoje tem muita onça lá dentro", revela Severino, orgulhoso.
Mas no início ... "Preservar a floresta? Para quê?" Era o que pensava, fazendo coro com todo o povo das redondezas. "De que serve esse monte de mato se a gente não puder caçar nem derrubar o palmito, as madeiras de lei?" Era a pergunta corrente, o argumento violentamente defendido, na base da espingarda. "Era comum os homens andarem armados por todo o canto. Entrava no boteco, deixava a espingarda de lado e ia andar pela cidade. Quando voltava, pegava a arma de volta e ia para casa", relembra.
Foto: Apoena
|
|
|
|
Pois Severino, guiado pela curiosidade em torno da novidade que na época era a preservação ambiental, e principalmente pela vontade de realizar o sonho antigo de se tornar funcionário público, resolveu assuntar. "Por curiosidade, comecei a perguntar por que tinha a reserva, qual a finalidade". E não foi preciso muito esforço para se convencer. "Entendi rápido a explicação dos guardas florestais, porque só fui conhecer mata e bicho aqui no Espírito Santo. No Nordeste não tinha nada disso, nem tanta água. Aí vi que, se lá já tinha acabado, aqui podia acabar também", resume.
Dito e feito. Está acabando aqui também. A água, os bichos, a mata. Naquela época, conta Severino, chovia demais. "Hoje é sertão", compara. "Se tivesse que fazer alguma coisa, tinha que ser na chuva e a pé. Chovia direto", relembra.
Os bichos e a mata, nem se fala. Cada vez mais raros. Essa tristeza só lhe traz a certeza de que fez muito bem o seu papel. "Se não fosse o trabalho da gente, não teríamos nem essas reservas. Hoje só se vê mata densa e animais selvagens nas reservas", lamenta Severino.
E cumprir bem com o papel de agente florestal, naquela época, era coisa quase heróica. Se hoje já é difícil, imagine há quarenta anos. Em maio, a revista "Veja" publicou matéria destacando o alto índice de divórcios entre os fiscais do Ibama - 86%. Além de outros índices negativos, como: 90% deles já receberam ameaças de morte, seqüestro ou agressão; 70% já contraíram malária, entre outros. Nos tempos de Severino, a infra-estrutura para o trabalho era ainda mais difícil que hoje. "Consertei eu mesmo o único jipe que tínhamos para trabalhar. Morei muitos anos dentro da mata, em casa de marimbondo. Ia levar minha filha para a escola e cruzava com onça no meio do caminho".
Leia mais:
|