Vitória (ES), edição de 09 de janeiro de 2004
 
"A Igreja tem que pensar no homem de forma
integral e deve lutar por mais justiça social"




  

  
Irmã Ângela a meu lado num dos eventos que organizei para o Colégio São José: uma amiga, irmã mais velha, orientadora e grande educadora.
Ponto de vista

A frase do título é de Irmã Ângela, uma grande mulher, uma alma boníssima, uma figura humana ímpar. No Colégio São José, onde fiz meus estudos preparatórios para a formação acadêmica e onde trabalho como professora de Educação Física e coreógrafa desde 1985, fiz e conservo grandes amizades. Uma delas, muito especial, é com a ex-diretora do colégio e figura importante das instituições de ensino vicentinas: Irmã Ângela, nascida Ângela Maria Miranda Magalhães, na cidade histórica de Minas Gerais chamada Cerro, de uma família numerosa - 9 irmãos, dos quais apenas ela optou pela vida religiosa.

A família Miranda Magalhães é por tradição muito religiosa, professando o credo católico, que vem transmitindo de geração para geração. Para mim, é sempre motivo de grande emoção encontrar Irmã Ângela, sob as ordens de quem trabalhei durante muitos anos no São José. Hoje ela está servindo a outra instituição vicentina, no Rio de Janeiro, mas sempre que pode vem a Vila Velha para rever as pessoas que a querem e estimam muito.

Vibrei, ainda na primeira metade de dezembro, quando soube que Irmã Ângela havia chegado. E logo pensei em mostrar aos meus leitores o quanto ela é especial e o quanto foi importante na minha vida e na vida de todos os alunos e mestres do São José, além de ser também uma figura relevante na vida da comunidade, que a teve como ponto de apoio em diversas jornadas.

Para dar um cunho essencialmente profissional ao depoimento de Irmã Ângela - já que em sua companhia me deixo sempre levar pela emoção -, pedi ao meu supervisor editorial, Stenka do Amaral Calado, que a entrevistasse e expusesse na coluna o seu perfil e suas opiniões. Estou certa de que todos vocês vão gostar desse contato com ela.


Na infância e juventude, uma vida normal de menina
e moça do interior; depois, o ingresso na vida consagrada


Stenka do Amaral Calado

Irmã Ângela teve uma infância como qualquer criança de família numerosa. Brincou de boneca, de roda, pulou corda - enfim, foi uma menina alegre e descontraída. A vocação para a vida religiosa só surgiu quando estava chegando aos 20 anos de idade. Ela conta:

"Tive uma vida normal, como qualquer moça, até que meu interesse se voltou para a vida consagrada. Aqui em Vila Velha eu assumi a direção do Colégio São José em 1990 e fiquei no cargo até este ano (2003). Tive a felicidade de contar com uma equipe muito boa, muito interessada no trabalho educacional e sempre buscando atualização. Hoje a gente vê o retorno desse esforço no reconhecimento da qualidade do colégio".

Peço-lhe que cite alguns episódios marcantes de sua vitoriosa trajetória por Vila Velha, e ela não se furta:

"Eu sou filha da caridade de São Vicente de Paula. Essa nossa congregação foi fundada para servir aos pobres. Então, toda a nossa vida é dedicada às pessoas carentes. Trabalhamos com educação, saúde, com idosos, tudo de acordo com o desejo de quem serve à congregação. Como o meu desejo sempre foi servir à educação, em minha passagem por aqui eu tive muitos momentos de alegria, de compensações. Até porque, para mim, educação é um desafio. É uma coisa que não é estática, está sempre em evolução, é um processo dinâmico. Assim, tudo o que acontece no dia-a-dia da escola são momentos fortes, de muita alegria. Mas existem momentos que me marcaram por serem mais gratificantes..."

Peço-lhe que enumere alguns desses momentos. Suas palavras:

"É quando a gente percebe mudanças no comportamento de alguns alunos, no maior envolvimento com os estudos. E também quando vemos as famílias se envolvendo com a escola, dando mais apoio. Quando a gente sente isso, vive momentos de alegria. Uma coisa muito forte é também o bom relacionamento com os professores e funcionários. Aqui eu fiz e deixei grandes amizades. Eu brinco com elas dizendo que deixei aqui meu coração e levei o coração de todos. Foi também muito marcante o trabalho que fizemos com crianças carentes, no bairro Primeiro de Maio, onde tivemos oportunidade de construir um prédio e lá abrigar meninos e meninas que viviam nas ruas. O prédio foi inaugurado em 2000 e continua em pleno funcionamento. As crianças que estudam em escolas públicas pela manhã freqüentam a obra de tarde e as que vão à escola à tarde vão para lá de manhã. Aos sábados também há atividades - trabalhos manuais, de formação cristã. O objetivo da obra é tirar as crianças da rua naqueles momentos em que elas não estão na escola".

Motivo de grande satisfação para Irmã Ângela foi a integração da comunidade ao esforço da ordem religiosa. "Tem muita gente que visitou o local e resolveu ajudar, fazendo um trabalho voluntário de apoio. A obra atende entre 80 e 100 crianças, dos bairros Primeiro de Maio, Santa Rita e Alecrim".

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