Nos últimos dias, as notícias sobre o falecimento do filósofo italiano Norberto Bobbio, conjugadas com uma entrevista do senador José Sarney (PMDB-AP) ao jornal O GLOBO, nos trouxeram bons fragmentos de sabedoria política. Vale registrar.
Bobbio, como se sabe, tem uma extensa obra, como um dos grandes pensadores do século 20. Combatia os extremos. Era de esquerda. Mas sabia dialogar e ser plural. Dizia que a esquerda enfatiza a igualdade, que a direita e a esquerda democrática apostam na liberdade, e que os extremos - a direita e a esquerda - não prezam a liberdade.
Combateu o fascismo. Considerava os comunistas adversários, mas dialogava com eles sobre temas como a liberdade, a justiça social, a democracia. Sobretudo, era um defensor ferrenho da democracia, que definia como um sistema de regras que permitem a convivência dos contrários. Para ele, como bem assinalou Rubens Ricupero, "direitos humanos, democracia e paz são três momentos do movimento histórico: sem direitos humanos reconhecidos e protegidos não há democracia; sem democracia não existem condições mínimas para a solução pacífica dos conflitos sociais" (Folha de São Paulo, 10/01/04).
São mais de 50 livros, inclusive um Dicionário de Política. É lapidar a frase com a qual Bobbio resume o seu legado de sabedoria: "Aprendi a respeitar as idéias alheias, a deter-me diante do segredo de cada consciência, a compreender antes de discutir, a discutir antes de condenar. E já que estou em veia de confidências, faço uma ainda, talvez supérflua: detesto os fanáticos com toda a alma" (FSP, 10/01/04). Maravilha, não ?
Já a entrevista do senador Sarney contém algumas observações que nos convidam à reflexão sobre a atual práxis política brasileira.
Para ele, a chegada de Lula ao poder tem o significado de uma revolução pacífica. Nesta direção, a da construção de um novo projeto de hegemonia, o senador defende a necessidade de alianças estratégicas de curto, médio e longo prazos. Sabe que, no mosaico político brasileiro, não há possibilidade de projeto de hegemonia sem alianças estratégicas. Insere, aí, o seu PMDB, com sua enorme capilaridade. Puro artesanato político, como muita sintonia fina.
Sarney não vê, hoje, outro líder capaz de enfrentar o presidente Lula. Daí a necessidade de aliança para preservar a estabilidade política necessária à promoção das mudanças que o país precisa. Artesanato político. Sintonia fina.
Defende o desenvolvimento. Defende as mudanças. Inclusive as mudanças do próprio PT. Com perspicácia e inteligência política, leva o PT à reflexão: "O PT, que era um partido socialista, teve o problema de chegar ao governo quando o socialismo já tinha acabado. Hoje, quem é socialista, é quem tem uma visão social, quem vê a sociedade não apenas do ponto de vista dos resultados econômicos, mas também da redistribuição de renda, da melhoria da qualidade de vida das pessoas. Esse é o compromisso maior que o PT tem. A economia é um instrumento para esse objetivo" ( O GLOBO , 28/12/03 ).
Enfim, lições teóricas e práticas de sabedoria política. Do pensamento em forma de sintonia fina. Do entendimento do contraditório na existência humana. Bom para iniciar o ano. Ainda mais um ano político.
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