O Pedido





Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA

Menara vivia uma vida simples e honesta. Fazia o bem quando algum necessitado cruzava seu caminho e nunca fez ou desejou mal a ninguém. Menara, no entanto, nunca rezava, na premissa de que todos os deuses, sendo onipotentes, conhecem as nossas necessidades, não havendo razão para pedir-lhes alguma coisa.

Um raciocínio tão simples chamou a atenção de Deus. Um anjo a visitou em sonhos e disse - "Tens sido boa e honrada e vou retribuir sua virtude. Faça um pedido, um só, que seja pessoal e intransferível, e atenderei." Menara pôs-se pensativa - que tipo de pedido faria?

O que pode um ser humano pedir que seja a suprema graça divina, o presente tão perfeito que englobe todos os desejos, e nada mais seja necessário desejar? Riqueza? Menara conhecia muitas pessoas ricas que tinham tudo, e no entanto não eram mais felizes que ela, que tinha tão pouco.

Felicidade? Mas o que é a felicidade senão viver em harmonia com o que temos?
Menara conhecia pessoas felizes, apesar dos pesares que a vida lhes impunha. Saúde, então? Mas ter saúde não implica necessariamente em ser feliz, e como não vivemos eternamente, a doença é também parte da vida, e deve ser aceita.

Podia pedir paz na terra e tolerância entre os homens... mas o anjo lembrou-lhe que o presente era pessoal e intransferível. "Nem eu tenho tantos poderes. A humanidade se desgoverna sozinha, Deus não interfere."

Amor? Menara vivia um casamento longo e tranqüilo, os filhos que bem educou eram unidos entre si e a tratavam com carinho e respeito. Não é isso que chamamos amor? O que pediria então? Talvez uma mente brilhante, capaz de um grande invento que beneficiasse a humanidade? Mas os grandes inventos que trouxeram progressos para o mundo realmente beneficiaram a humanidade?

O anjo voltou noites e noites aos sonhos de Menara, esperando que ela decidisse que pedido faria. Por fim cansou-se e não mais voltou. Menara se deu por satisfeita. Não tinha nada a pedir nem tinha nada a agradecer, porque seria presunção reconhecer que tinha tudo.