Fernanda Aboul Hosn Mozine
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Adeus, a-a-a-a-adeus,
meu pandeiro de samba,
tamborim de bamba,
já é de madrugada.
Vou-me embora chorando,
com meu coração sorrindo.
E vou deixar todo mundo
valorizando a batucada.
(Sinval Silva - Adeus, Batucada).
Era madrugada da última sexta-feira, 27, quando me sentei diante do computador para redigir meu último texto para a coluna. Enquanto pensava, com a tela branca à minha frente e uma grande tristeza invadindo meu coração, veio-me à lembrança um clipe que ganhei de presente recentemente. Nele, eu havia assistido a uma das cenas mais lindas do período que ficou conhecido em nossa história como "anos de chumbo" - período que, felizmente, eu não vivenciara.
A cena aconteceu no Programa do Chacrinha, final dos anos 60. Eu devia ter, na época, 5 anos de idade. Com ar sisudo - que nunca fora a sua marca -, o Velho Guerreiro aproxima o rosto da câmera e simplesmente anuncia (contrariando mais uma vez seu estilo verborrágico): "Caetano Veloso". O então jovem gênio da MPB, cabelos curtos, violão à mão, entra sério no palco, senta-se num banquinho sem dizer uma palavra, dedilha uma introdução belíssima, e com aquela vozinha doce e quente que Deus lhe deu, canta "Adeus, Batucada", sucesso de Sinval Silva imortalizado por Carmem Miranda.
A lembrança de agora me provocou a mesma sensação de quando vi o clipe pela primeira vez e, em seguida, ouvi a história de bastidores daquela cena inusitada do Programa do Chacrinha. Caetano - contestador do regime ditatorial então vigente no país, ao lado de Chico Buarque e outros monstros sagrados das artes brasileiras -, que chocava o sistema com suas roupas de plástico colorido, cabelos longos encaracolados, maquiagem pesada e canções de poesia enigmática feitas para confundir os censores, saíra da prisão meses antes e se preparava para o exílio forçado em Londres.
A sociedade brasileira queria saber o que a ditadura havia feito com aquele rapaz franzinho, de voz e gestos delicados, talento incomensurável, preso arbitrariamente, como perigoso subversivo, com seu parceiro e amigo Gilberto Gil. De São Paulo, onde se encontravam, os dois artistas foram metidos num avião militar e jogados numa masmorra do Exército, na Vila Militar, sem processo ou qualquer outro procedimento regular. Sob a pressão surda de várias personalidades, a ditadura os libertou com a condição de que deixassem o país. A mídia não podia sequer citar seus nomes. Ao Chacrinha, foi permitido apenas anunciar o nome do artista, sem os adjetivos que o Velho Guerreiro adorava.
Canta, Caetano:
Em criança, com samba eu vivia sonhando.
Acordava, estava tristonho, chorando.
Jóia que se perde no mar só se encontra no fundo.
Sambai, mocidade,
sambando se goza neste mundo.
Chorei, claro, mais uma vez com esta lembrança. Sou assim mesmo. E vendo e ouvindo Caetano hoje, são e salvo, sorrio. Ele sobreviveu, mas muitos outros "subversivos" como ele não tiveram a mesma sorte. A estes, rendo minha homenagem nesta despedida de Século Diário. Não estou partindo para o exílio, forçado ou voluntário. Estou simplesmente me ausentando das páginas deste veículo que tanto me ensinou nestes cem dias de presença como colunista, para descobrir novas paisagens, novas paragens, novos amigos. Deixo os daqui com o coração sangrando, como Caetano cantou naquele domingo memorável:
E do meu grande amor sempre me despedi sambando.
Mas da batucada agora me despeço chorando.
Guardo no lenço esta lágrima sentida.
Adeus, batucada,
adeus, batucada querida.
Adeus, amigos. Muito obrigada por tudo o que vocês me proporcionaram nesta curta mas rica temporada de trabalho.
Cláudia Bouchabki