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Foto: Gustavo Louzada
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| Cyara está de volta melhor do que nunca
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Assim apresentou-se a cantora Cyara, ao encontrá-la no Cais do Hidroavião, em Santo Antônio, Vitória, para esta entrevista. Com 28 anos de carreira, prêmios, vanguardismo, fã-clube e disco lançado, a sambista que grava músicas de Aldir Blanc, Mauro Diniz e Monarco prepara-se para retomar a carreira após uma parada para cuidar da saúde.
Tratamento este que ela prontamente interrompeu com a chegada do carnaval. "Eu venho dos blocos. Este ano puxei o 'Rival', de Santa Cruz; o 'Alegria, Alegria', do Alagoanos e também fui convidada para estrear no 'Fora de Hora'. Aí falei: vou parar com o remédio e depois eu volto! Se tiver que morrer, vou morrer de qualquer jeito!", confessa as estripulias da folia.
A volta ao trabalho, após o 'aquecimento' no reinado de Momo, começa pela gravação do novo disco. Serão 12 faixas - a exemplo do primeiro, 'O melhor prazer do amor' - compostas por sambistas do quilate de Arlindo Cruz, Sombrinha e Monarco. Cyara pretende lançá-lo no final deste ano.
"A gente tem que alcançar o que o povo quer ouvir. É difícil trabalhar o samba nas rádios capixabas. O samba não tem o espaço que o reggae, o rock e o pop", lamenta. E coberta de razão. Fica uma lição dos sambistas para os jovens músicos: todos, sem exceção, reverenciam os artistas do passado. Para ser bamba - no conceito da turma do samba - o músico deve ser acima de tudo pesquisador.
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Foto: Gustavo Louzada
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| O novo CD tem 12 faixas
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Cyara dá um exemplo. Ela grava, para seu segundo CD, a música 'Dama do meu samba', homenagem a Dona Ivone Lara, composta por seu cavaquinista Carlos Caetano.
O respeito à tradição, diz ela, vem de sua família. "Canto desde os 15. Meu irmão Tagildo do Pandeiro já tocava samba. Outro irmão, 'Kid', canta em baile e está gravando seu disco".
Na família que constituiu com seu esposo Luís Carlos Laeber, não é diferente. As filhas - Lorena e Luana, a primeira jornalista e a segunda estudante - participam ativamente em sua carreira. Lorena é 'backing vocal' e assessora de imprensa. Acompanhou a mãe, inclusive, nesta entrevista para o Caderno Atrações. Luana toca percussão para a mãe e para o grupo '40 graus'. "O samba vai passando, vai contaminando", completa.
A base familiar contribui com a forma que Cyara - aliás, Jucyara dos Santos Laeber - encara a vida. Ela faz questão de manter a simplicidade. "Tenho os pés no chão. Acho que o sucesso aparece como resultado. Essa garotada de hoje em dia grava um CD, entra na Topic e sai de nariz empinado. Não é por aí. Faço samba porque gosto. Quero deixar algo legal para meus amigos, minha família", ensina.
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Foto: Gustavo Louzada
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| Cyara reclama da falta de espaço nas rádios para o samba capixaba
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O despojamento rende à sambista de Caratoíra momentos emocionantes. Os amigos do Morro do Quadro, Santa Tereza e Jardim da Penha criaram o 'Fã-clube Força Total'. Exemplo mais forte é o que Cyara viveu com os alunos da escola municipal Mauro Braga, no Morro do Quadro, onde estudou quando criança.
Eles participavam de um projeto que consistia em fazer releituras, através de pinturas, textos e colagens da vida e obra de artistas que lá estudaram. "Foi emocionante ver aquelas cartinhas de carinho, as pinturas alegres que as crianças fizeram. É um carinho tão grande que me marcou muito", emociona-se.
Mesmo antes de gravar seu primeiro disco, Cyara viveu momentos de extrema felicidade graças ao samba. Como na juventude, quando participava da escola de samba 'Império Serrano'. "Havia uma espécie de 'Clube do Bolinha' e mulher não podia cantar samba de enredo", conta a sambista.
"Aí aconteceu um concurso de samba de quadra para escolher quem ia entrar num disco que a escola estava para gravar. Fui lá participar com apoio de Tonico do cavaco e Fernando Monteiro. Defendi o samba 'Lição de vida' composto por eles e fiquei em primeiro lugar. Saí de lá com a música escolhida para ser a primeira faixa do disco", recorda.
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Foto: Gustavo Louzada
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| O tratamento médico não impediu a cantora de brincar o carnaval
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Outros prêmios a aguardavam. Agora, graças ao talento e vanguarda. Cyara foi a primeira mulher a puxar na avenida o samba da Unidos de Jucutuquara, no carnaval de 1999. "Ganhei o troféu de melhor intérprete, superando aquela expectativa que a imprensa criou, todos eles falando nisto, foi difícil, mas depois que a gente vai para a avenida...", suspira, sem completar a frase.
A vida imita a arte?
É comum aos grandes sambistas, em determinados momentos de suas vidas, confundirem-se com seus personagens. Situações antes apenas imaginadas pelos compositores muitas vezes tornam-se reais.
Não vamos chegar ao extremo do que aconteceu ao gênio Cartola, que alternou momentos brilhantes ao compor e cantar com o quase total abandono quando por exemplo, mesmo após lançar sambas imortais, precisou vender picolés pelas ruas do Rio de Janeiro para sobreviver.
Mas Cyara protagonizou momentos difíceis e outros hilariantes após descobrir, em agosto do ano passado, que sofria de hipertensão intracraniana. "O médico mandou suspender imediatamente minhas atividades", conta. Bamba que só ela, a cantora 'segurou a onda' e ficou 'no sapatinho', sem extrapolar.
Até chegar o carnaval, claro. Aí não há tratamento que segure quem cresceu vivendo o samba, o carnaval, os blocos. Como se menina ainda fosse, enganou médico, levou no bico familiares e partiu para a felicidade indescritível de brincar o carnaval como sempre fez: cantando.
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