And the winner is… Manoelzinho!





Tavares Dias


Você é daqueles que têm um sonho? Não falo de casa própria, viagem ao exterior, doutorado na Sorbonne, essas coisas que só são classificadas como sonhos num país ingrato como o nosso. Falo de sonho mesmo, o puro onirismo, o quase-delírio, aquele que você tem dificuldade de contar até mesmo para si. Pois é, gente boa, você ainda não viu nada. Precisa conhecer a história do Manoelzinho.

O servente de pedreiro Manoel Loreno, o Manoelzinho, 45, vive em Mantenópolis, pequena cidade localizada na borda oeste do Espírito Santo, quasinho nas Minas Gerais. Com a mulher e dois filhos. Numa casa de alvenaria, ainda inacabada. A mobília de sua sala é composta apenas por um banco de madeira e pela mesinha que sustenta a tevê em preto e branco.
Mas Manoelzinho já produziu 23 filmes.

"Ah", torcerá o invejoso nariz o americanófilo urbanóide biguibrodilizado cidadão, "mas são filmes de bangue-bangue e de tragédia, filmados em VHS ao custo de R$ 500 cada, com atores amadores de Mantenópolis - lavradores, vaqueiros, donas-de-casa, estudantes e crianças. E não há roteiro escrito. E os tiros são bombinhas juninas. E a trilha sonora é produzida simultaneamente à gravação, por meio de um rádio-gravador portátil. Assim até eu".

Ah, é? Tá bom, mas o fato é que Manoelzinho foi a grande sensação desta semana no programa "Mais Você", da TV Globo, comandado pela apresentadora Ana Maria Braga, depois de ter sido descoberto pela repórter Sabrina Oliveira, da capixaba TV Gazeta Norte. Em busca de imagens para a série Belezas do Norte, a repórter perguntou a moradores de Mantenópolis a respeito de possíveis coisas interessantes do local: "Tem um maluco aqui com mania de cineasta", alguém ironizou. E Manoelzinho acabou estourando na tevê um dia depois da cerimônia de entrega do Oscar em que o neozelandês "O senhor dos anéis - O retorno do rei" fez cabelo, barba e bigode na Academia.

E veja você que a fama já começa a cobrar seu preço. Manoelzinho, que vive do salário de servo de pedro, antes contava com a ajuda de comerciantes (os mesmos que lhe arranjaram algum para levar no bolso durante a viagem que o faria famoso) e da prefeitura de sua cidade para pagar à cinegrafista que filmava suas obras, das quais a mais famosa é "A vingança de um apaixonado". Mas agora o cineasta capixaba, que interpreta também o papel principal de todos os seus filmes, já começa a se sentir pressionado por alguns dos atores, que teimam em exigir diárias que chegam a até R$ 20.

Em Mantenópolis, o Manoelzinho excêntrico virou herói, colocou a cidade no mapa do Brasil. No dia da entrevista, a cidade parou, o comércio fechou, as escolas não funcionaram, e as respostas simplórias do mais famoso filho daquela terra provocaram gargalhadas e lágrimas em seus conterrâneos e em pessoas de todo o Brasil.

Manoelzinho é mesmo um simplório, como simplórias são as histórias que ele concebe e transforma em filmes. Mas ser vitorioso é, na prática, o resultado da relação entre o que alguém recebe da vida e o que consegue produzir com aquilo que recebeu, verdade? E então, por está óptica, talvez não seja delírio dizer que Manoelzinho é tão vitorioso, ou mais, do que, por exemplo, Peter Jackson, o grande vencedor do Oscar deste ano. Manoelzinho é um homem feliz.

E tanta gente por aí, com medo do ridículo, da crítica, da falta de dinheiro, de incentivo oficial, da concorrência predatória e de outros fantasmas, reais ou inventados, mantém o sonho na gaveta, sem perceber que murcha a cada dia, que o sorriso vai encurtando, as costas se dobrando, a alegria se esvaindo, a depressão tomando conta, o tesão diminuindo, os olhos tornando-se baços.

Se você é um desses, gente boa, você precisa ver, urgentemente, como brilham os olhos de Manoelzinho, na sua felicidade menina. E talvez eles sejam o seu remédio.

Nunca e demais lembrar a lição de Oswald de Andrade: "A alegria é a prova dos nove".