Foto: Carlito Medeiros
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O quilombola Berto Nascimento (foto), o Betinho Feliciano, é do tempo da fartura: palmito à vontade; água para beber em todos os córregos, sem tratamento; peixe com fartura; mata abundante, e caça. E terra para trabalhar, também à vontade.
Na sua juventude, Berto Nascimento não podia sequer imaginar que surgiria uma empresa que destruiria as matas de onde os quilombolas tiravam seu sustento, e lhe tomariam as terras. E que, além de destruir o Meio Ambiente, destruiria os sonhos da maioria dos quilombolas do Espírito Santo.
Berto Nascimento tem 58 anos, é trabalhador rural, semi-analfabeto, tem quatro filhos, e é separado da esposa. Descendente de escravos, mora no Córrego Santana, em São Mateus. O quilombola só enxerga de um olho, o que não o impede de trabalhar duro, na roça, quando encontra trabalho. Vive com parentes, e dá duro, muito duro, para chegar a um salário mínimo por mês. Quando chega.
Quando não tem trabalho, ou para variar o cardápio da família com quem vive, Berto Nascimento, como a maioria dos quilombolas do norte sempre fizeram, vai ao mato e corta palmito para comer.
No ano passado, já no final do ano, ele foi a uma região próxima onde mora, para cortar palmito amargoso. Tinha cortado dez cabeças de palmito, o que quer dizer que tinha tirado dez árvores da mata.
A milícia da Aracruz Celulose, a Visel, deu um flagrante em Berto Nascimento. De armas em punho, engatilhadas, rendeu o quilombola. Tiraram seu facão e seu machado; tomaram sua bicicleta.
É com a violência que age a milícia da Aracruz Celulose. Denúncias dessa violência foram feitas até à Presidência da República, no início do ano passado. Mas a violência se repete, enquanto não vem ação federal para coibir o abuso.
Berto Nascimento foi conduzido à Delegacia de Polícia de São Mateus, onde ficou detido. Não foi conduzido em viatura da Polícia Militar ou Civil, mas em carro da própria Visel.
Foto: Carlito Medeiros
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Na Delegacia foi feita a festa. À Polícia Ambiental coube lavrar um flagrante, circunstanciado, afirmando que Berto Nascimento cortou dez árvores de palmito, "sem autorização", em área de preservação permanente. E faz a descrição de que o material foi apreendido, "na área 365, talhão 06, da Aracruz Celulose, em São Jorge".
O Ibama também fez sua parte: aplicou o auto de infração, de R$ 1.500, no quilombola.
E o processo seguiu, célere, para a Justiça. Lá, a tramitação também foi rápida. Já no dia primeiro de março deste ano o processo estava pronto para a sentença.
A Justiça condenou Berto Nascimento. Durante dois anos, uma vez por mês, ele terá que se apresentar à Justiça, ou se apresentar quando for convocado; terá que dormir em horário determinado, no máximo às 22 horas; não pode se ausentar da comarca, sem comunicar ao Juiz.
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