Vitória (ES), edição de fim se semana
 
Espírito Santo: um caso de enamoramento & amor





Jeanne Bilich

"No futuro próximo, estaremos todos trabalhando para uma empresa chamada EU S/A"
Cláudio Lachini


Jornalista e escritor, Cláudio Lachini, 62 anos, deixou o Espírito Santo, sua terra natal, nos idos dos anos 60. Seu talento, reconhecido em concurso nacional, levou-o para São Paulo onde estreou na chamada 'grande imprensa' na edição nº 1 da revista "Veja". Antes de partir, o jovem Lachini, nascido em São João de Alfredo Chaves e, dois anos mais tarde, radicado na região de Patrimônio do Dário - atual Moacyr Avidos, município de Governador Lindemberg - em Colatina, cumpriu 'cum laude' os famosos versos cantados por Betânia: "É minha lei, é minha questão, virar este mundo, cravar este chão." Virou mesmo o mundo capixaba da época e cravou este chão. Sua marca permanece viva em solo capixaba. Essa curiosa simbiose terra natal/homem evoluiu para um caso de enamoramento e amor entre Lachini e o Espírito Santo. Cultuado e cultivado há décadas e agora manifesto na explícita forma de um livro: o relato da saga de 100 anos da imigração italiana ao Estado, localizado no período de 1878 a 1978. Já os leitores de Seculodiario.com terão a oportunidade de conferir a partir deste domingo (28) a arte desse jornalista-escritor com a publicação semanal de capítulos de "Memórias do Começo do Mundo".

Segundo definição do próprio autor, "são crônicas, lembranças da infância e da adolescência" tendo como cenário "o rio Moacyr Avidos e adjacências e depois Colatina". Para conhecermos melhor a rica trajetória profissional de Cláudio Lachini, Seculodiario.com conversou com ele em São Paulo, onde atualmente reside:

Século: No início da década de 60 - período pré-golpe de 64 - um grupo de intelectuais capixabas representou a vanguarda do pensamento político, social e artístico no Espírito Santo. Por favor, fale um pouco dessa época, seus integrantes e manifestações mais marcantes.

Foto: Isaumir Nascimento
  
Lachini: - Cheguei a Vitória no começo de 1962 para fazer o curso de Direito na UFES. Carlos Chenier de Magalhães e Zélia Maluza Stein eram meus amigos de Colatina. Mudamos de cidade na mesma época e nos integramos ao meio universitário. Estávamos interessados em Literatura e na universidade da vida, como havia chamado Máximo Gorki ao aprendizado da juventude. Encontramos personalidades marcantes como as de Xerxes Gusmão Neto, Domingos Azevedo, Mario Mainardi, Jeová Barros, Stélio Dias, Ronaldo Alves e outras que foram chegando. Lutamos contra o marasmo da província. A manifestação mais marcante e de conhecimento público ocorrida antes de 1964 foi a I Semana dos Novos. A imprensa deu cobertura importante a todo aquele movimento que procurava inserir o Espírito Santo na efervescência cultural daquela época. Nós trocávamos livros e experiências, escrevíamos e, sobretudo, conversávamos. Logo depois de 1964 fizemos o Suplemento Literário de "A Gazeta" e foi criado o Grupo Geração, este liderado pelo Antonio Carlos Neves. Creio que lançamos algumas sementes que germinaram nos anos subseqüentes. Enfim, vivemos a 'nossa universidade'.

Século: O que o motivou a deixar o Espírito Santo e domiciliar-se em São Paulo?

Lachini: Em 1964 fui preso como "subversivo". Éramos três estudantes em meio a duas dezenas de prisioneiros políticos: Jaime Lanna Marinho, Roberto Pinheiro Côrtes e eu. Respondi a cinco inquéritos policiais-militares e fui banido da imprensa (publicava alguma coisa sob pseudônimo). Em 1966, formei-me em Direito e fui o orador da turma, escolhido em concurso do qual participaram como jurados uma dezena de professores e colegas da Faculdade. Naquele discurso, dizia que vivíamos uma época verdadeiramente revolucionária no sentido universal, mas não no sentido que lhe davam os militares brasileiros. Transcrevo do discurso: "Uma revolução que não modifica e não renova idéias, métodos e sistemas, não passa de uma modificação de homens no poder... Revolução é superação..." O resultado foi mais uma prisão e a intervenção do professor Alaor de Queiroz Araújo e sua equipe chefiada pelo Rômulo Augusto Penina, que me livraram dos IPMs infernais e me concederam espaço na Reitoria da UFES, onde criei a Revista de Cultura. Digamos que estava muito bem, recém casado com Margarida Del Caro e encaminhado na vida, mas seria uma vida limitada pela conquista das conveniências da província. Eu continuava sonhando em me tornar escritor.

Foto: Isaumir Nascimento
  
Século: Sua carreira jornalística teve início em São Paulo. Por que? Qual foi o veículo de comunicação em que estreou?

Lachini: No final de 1967 a Editora Abril lançou um concurso nacional para recrutar jornalistas em todo o Brasil e que trabalhariam em uma nova publicação a ser editada em 1968. Candidatei-me, fui selecionado pelo jornalista Pompeu de Souza, depois senador da República. Ficamos três meses em São Paulo, submetidos a um treinamento intensivo e a testes permanentes. Éramos l00 jovens de todo o país - sobramos 40 e eu tive o privilégio de ser classificado entre os 10 primeiros. A publicação era a VEJA, dirigida pelo Mino Carta, uma personalidade forte e caráter marcante. Trabalhei inicialmente com o Leo Gilson Ribeiro, na área de literatura, e depois com Raimundo Pereira e Luiz Fernando Mercadante, como repórter de capa.

Século: O jornalismo econômico foi uma escolha consciente representando uma preferência pessoal ou fruto de uma oportunidade profissional?

Foto: Isaumir Nascimento
  
Lachini: Em 1969 havia nascido André, meu primeiro filho e, dois anos depois, Luciana. Minhas responsabilidades, portanto, haviam aumentado. Assim, indicado por Roberto Duailibi (DPZ) fui trabalhar com Cândido Mota Neto na Nacional de Propaganda, agência que atendia ao governo do Estado de São Paulo. Naquela época, os publicitários ganhavam muito bem. Em 1972, a mudança de governo significou a perda da conta publicitária e fiquei desempregado. Fiz um projeto editorial na área de economia para a mesma revista VEJA, o resultado foi elogiado e logo estaria empregado, a convite do Roberto Muller Filho, que havia sido meu colega na VEJA. Fui para a Revista EXPANSÃO como secretário de Redação e, em companhia do Osvaldo Oleari, fiz uma revista de varejo. Lá ganhamos o "Prêmio Esso de Maior Contribuição ao Desenvolvimento da Imprensa Brasileira". EXPANSÃO era uma revista de negócios e depois foi incorporada pela EXAME. Portanto, retomando a pergunta, o jornalismo econômico foi fruto da uma oportunidade profissional.