Vender medicamentos de forma aleatória, sem a devida prescrição médica, é algo que até já se transformou num hábito. Médicos abominam a questão, comerciantes fogem do assunto e farmacêuticos condenam - mas acabam consentindo. Os comerciários - os mais frágeis na cadeia do consumo da auto-medicação - é que beiram o perigo: serão os primeiros investigados pela Policia Federal.
Vender um remédio com tarja vermelha sem a receita é completamente normal na realidade do País. No Estado do Espírito Santo, são 80% de farmácias que utilizam esse procedimento tão prejudicial à saúde. Isto também ocorre porque, na verdade, elas não são encaradas como "casas de saúde", mas como simples estabelecimentos comerciais.
Simples, mas entre os primeiros contribuintes mais fortes dentro da Receita Estadual. Por outro lado, chegam a dever quase R$ 60 mil à Previdência. Estão na mira da PF há tempos, mas se envolvem em casos de difícil resolução, já que toda a cadeia se torna participante de um negócio encarado como "tráfico de entorpecentes".
Pouco esclarecido sobre os malefícios que a auto-medicação representa, o consumidor costuma convencer o balconista. Esta repórter, por exemplo, na semana passada, não teve a menor dificuldade em levar para casa remédios como Cataflan, Neosaldina e Tylenol. Todos "proibidos" da venda sem a autorização médica.
Cada farmácia tem sua história. Alguns balconistas ganham muito bem por comissão. Algo parecido com lojas de calçados, confecções ou eletrodomésticos. Se vendem mais, faturam mais, é claro. Não querem saber se estão vendendo remédios com tarja vermelha, preta ou azul. Estes últimos, considerados os mais graves do tráfico, também podem ser obtidos se o cliente tiver um bom nível de argumentação com o vendedor.
Outros balconistas ganham o salário da categoria, R$ 365. São orientados para vender com discrição. Caso não o façam, podem ser demitidos. A lei é vender. Outros exemplos são direcionados aos que são desinformados mesmo. Nem imaginam os efeitos negativos.
E os farmacêuticos, brigando por melhores salários, muitas vezes fazem o papel do médico. Eles mesmos liberam sem precisar de o cliente ter passado por uma imensa fila de atendimento num hospital público ou enfrentado uma sala de espera numa clínica lotada.
Ou, ainda, sem precisar pagar quase R$ 2 mil anuais por um plano de saúde.
"Infelizmente, é a nossa realidade. Não posso falar muito porque sou obrigado a vender", afirma, com temor da represália do seu chefe, Andrey Fernando, balconista de uma farmácia no Centro de Vila Velha.
Antibióticos, anti-inflamatórios, anti-alérgicos estão no topo da facilidade da compra. Mas nenhum dos medicamentos escapa. Por último, estão os psicotrópicos. Os primeiros parecem mais "leves" para o consumidor que não sabe do risco que corre.
É o típico caso de que o medicamento foi bom para o vizinho e que está na hora de experimentar. O teste é que pode sair muito caro, incluindo graves problemas tratados até por vários meses. Os efeitos colaterais são os vilões desse mercado paralelo, mas que ainda está distante de ser exterminado.
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