 |
Século Diário
|
 |
|
 |
|
| Rogério Medeiros
|
|
Alemães
|
|
Aterrorizados pela floresta tropical, hunsrucklers foram os
primeiros imigrantes a chegar à serra capixaba
Uma rua de Santa Isabel, região conquistada à
floresta que logo se tornou rica e próspera
"Naa, mir sein ka deitsche, mir sein hunsruckler (não, não somos alemães, somos hunsrucklers)".
Pela resposta acima do teuto-brasileiro, podemos bem avaliar a balbúrdia radical que tomou conta do Espírito Santo logo na chegada dos primeiros imigrantes europeus. A sua porta de entrada foi, no século passado, a região montanhosa de Domingos Martins. Foi em 1847 que os hunsrucklers fundaram a colônia de Santa Isabel.
Da mesma forma que os pomeranos que iriam chegar depois deles esses primeiros germanos não se consideravam alemães. Falavam e continuam falando o hunsruck, dialeto de um reino independente da região alta da Alemanha. Na verdade, a diferenciação racial feita pela primeira corrente de imigrantes europeus que povoou os vales do Espírito Santo não passa de uma questão semântica, pois a maioria dos historiadores capixabas considera alemães tanto o pomerano como o hunsbucklers.
Contudo, a distinção reivindicada por eles chega a fazer sentido, sobretudo quando se nota que, subtraindo os pomeranos e os hunsrucklers do grupo de teuto-brasileiros, vão sobrar poucos alemães propriamente ditos no estado. Para sentir essa realidade hoje, basta percorrer as regiões habitadas por eles para perceber que o que se fala mesmo é o "pomerod" e o hunsruck. A chamada língua alta, que é o idioma oficial da Alemanha, ouve-se muito pouco, a não ser na maioria dos cultos das igrejas luteranas.
Dúvidas à parte, os hunsrucklers são detentores da primazia de serem os primeiros imigrantes europeus a subir a serra no Espírito Santo. Eles vieram num grupo de 163 pessoas, distribuídas por 39 famílias, com apenas um rapaz solteiro. Eram 26 famílias católicas e 13 luteranas que venceram muitos obstáculos para chegar ao seu destino final: Santa Isabel.
Da Alemanha ao Brasil levaram 70 dias num precário navio a vela, ficando alojados mais 60 dias num galpão no Rio de Janeiro. A expectativa deles era seguir para o sul do país e fixar-se em regiões compatíveis com o clima de montanha em que viviam na Europa. O imperador Pedro II, no entanto, os enviou para o Espírito Santo alegando que iriam viver numa região de clima semelhante ao do Sul.
A viagem até a região reservada para eles foi, também, outra via crucis: foram inicialmente levados a Viana, onde já existia uma colônia de açorianos católicos. Lá ficaram alguns dias em cabanas, recuperando as energias para prosseguir a viagem. Dali em diante, o caminho teria que ser aberto por eles próprios na floresta desconhecida. Os homens foram a pé por dentro da mata, enquanto as mulheres viajaram de canoa pelo rio Jucu.
A chegada a Santa Isabel foi mais uma surpresa entre tantas que tiveram ao longo da viagem, pois o único civilizado que encontraram foi um servidor do governo, que trabalhava como intérprete junto aos índios botocudos. Afinal, acabaram se tornando hóspedes dos índios na sua primeira noite na região que iriam, com o tempo, ocupar totalmente. Uma noite inesquecível para eles. Ficaram quase loucos de pavor, aterrorizados pelo mistério da mata virgem e pelo rugido das onças. Ao amanhecer, quase todos ameaçaram retornar.
O tempo, no entanto, foi o melhor conselheiro desse grupo vindo da região montanhosa do Hunsruck, na Prússia Renana, especialmente das cidades de Koblenz, Lotzbeuren e Traben-Trabach. Eles haviam deixado a Europa devido às guerras naponelônicas.
|
|
|
|