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Rogério Medeiros

Alemães

Os inimigos enterrados no porão hoje são
fantasmas que assustam a atual moradora


Uma das filhas de dona Marta

É também célebre o porão que tinha debaixo da casa, onde mantinha encarcerados desafetos ou devedores. Para os parentes de dona Marta, ela "agia dessa maneira porque era uma mulher que gostava de tudo direito". O porão hoje assusta, vez por outra, a atual moradora da casa, a professora Marise Casotti Ferrari. Uma parte dele encontra-se atualmente lacrada e suspeita-se que ali dona Marta enterrou alguns desafetos, o que costuma povoar de horror a cabeça da professora.

A família de dona Marta está hoje dispersa pelo estado. Quem ficou em Vinte e Cinco de Julho, no caso a neta Lídia e a bisneta Emalina, ocupa hoje apenas uma parte da antiga fazenda. O restante das terras foi tomado pelo comerciante José Jerônimo Vervloet, conhecido como "chefe Vervloet", a quem ela ficou devendo uma expressiva quantia por ocasião da queda do café, nos anos 30. Só que, prudentemente, o comerciante esperou ela morrer para receber na Justiça a dívida. Dona Marta deixou seis filhos: Germano, Franz, Roberto, Mathilda, Ana e Vitória Olga.

Apesar de já ter ouvido muita gente falar dos assassinatos realizados por encomenda da bisavó, que tinha seus capangas chefiados por Emílio Louredo e Américo Freitas, Emalina prefere manter a respeito disso uma atitude de dúvida. "Não posso dizer que é verdade. Também não posso dizer que é mentira, pois meu pai nunca tocou nesse assunto com os filhos", diz. No entanto, um dos chefes dos matadores, Emílio, tinha uma intimidade tão grande com a família, que se tornou parte dela ao se casar com Ana, filha de dona Marta.

Até na sua morte dona Marta pareceu triunfar sobre os vivos. Como se fosse um personagem das histórias de Gabriel García Márquez, ela encerrou sua passagem pela Terra sem deixar lágrimas. Não houve velas, nem orações e muito menos roupas escuras nos funerais, conforme recomendações da velha alemã aos seus capangas, pois queria partir sem qualquer sinal de tristeza.

Ao tomar conhecimento de sua morte, contam os moradores de Vinte e Cinco de Julho, alguém correu à igrejinha para repicar o sino. O sino caiu. Tentaram então tocar o sino de outra igreja, mas a corda arrebentou. Como desejava a velha e poderosa senhora, mesmo depois de morta a sua vontade ainda continuava respeitada na região que dominou com o trabuco e a carabina de papo amarelo. Seu caixão subiu o morro do cemitério conduzido pelos fiéis capangas, com a banda de música tocando os dobrados de sua preferência, o que deixou frustradas pessoas como o italiano Miguel Zurlo, que queriam segurar a alça "para conhecer o peso de sua maldade".

Passados tantos anos de sua morte, dona Marta continua viva na memória dos mais antigos e na fantasia dos mais novos moradores de Vinte e Cinco de Julho, muito embora descanse numa simples e abandonada sepultura da localidade, onde existe apenas uma discreta anotação: Marta Emalina Adelaida Wolkartt (29/9/8 50 a 1/7/933).


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