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Século Diário
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| Rogério Medeiros
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Holandeses
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Uma aventura na terra prometida
Entre os anos de 1858 e 1862, transferiram-se da Holanda para o Brasil, atraídos pela oferta de terra em Santa Leopoldina, cerca de 215 lavradores. Era uma região que havia sido descrita para eles como uma terra prometida. Na verdade era uma aventura tropical.
Haviam deixado o Sul do seu país onde as condições de trabalho já se encontravam bastante desfavoráveis. Foram trazidos também com a promessa de receberem, durante um tempo, ajuda financeira para desenvolver suas propriedades, o que ocorreu de forma irregular e precária. Aliás, isso já havia acontecido com outras correntes migratórias vindas da Europa para a Colônia Imperial Leopoldina.
Aos holandeses foram destinados os terrenos próximos aos dos tiroleses, mas ainda cobertos de mata virgem. Para formar suas propriedades eles adotaram um modelo em círculo: montavam suas casas na confluência do círculo, numa tentativa de fazer uma família ficar bem próxima da outra, protegendo-se, dessa maneira, dos animais da floresta, inteiramente desconhecida para eles. Também em círculos faziam suas derrubadas, de maneira que elas obedecessem ao mesmo ritmo, permitindo que as propriedades fossem abertas de forma igual. Para obter esse resultado utilizavam-se do sistema de mutirão. Todos participavam da tarefa.
Mas a formação de suas propriedades atrasou-se bastante por causa da falta de recursos prometidos pela direção da Colônia de Santa Leopoldina. Os holandeses foram então obrigados a aceitar serviços nas fazendas escravocratas de Cariacica. Viajavam a pé a metade de um dia, passavam nessas fazendas cinco dias e reservavam o sábado e o domingo para cuidar de suas propriedades.
Dialeto foi um dos principais obstáculos
A viagem era sempre feita por dentro de matas, através de picadas onde, com certa frequência, ocorriam surpresas desagradáveis. Deparar-se com uma onça pintada era a pior delas. Eles lidavam com outro obstáculo, que também incomodou as demais correntes migratórias européias: o idioma. Esses holandeses falavam um dialeto da sua região, diferente inclusive da língua oficial do seu país. O dialeto é a fusão do idioma dos Kelts (navegadores ingleses que frequentavam a sua região) com o francês e o próprio holandês.
Além do dialeto, que prejudicou consideravelmente a integração com os vizinhos, sua religião atrapalhou muito. Muito embora na Holanda o cristianismo fosse predominante, eles vieram de uma região em que todos eram calvinistas. Sendo a religião o traço de unidade e de integração de todas as demais etnias trazidas pela política de colonização de Santa Leopoldina, é de se supor a situação a que foram submetidos, inicialmente, esses holandeses, sem perspectiva de contar com a sua própria igreja. Tanto para eles como para os demais grupos vindos da Europa, a religião, além do culto que atraía a todos, tinha, ainda, a função educacional (as escolas foram criadas por igrejas).
Diante dessa influência da religião, os holandeses fizeram de tudo para conseguir um pastor calvinista. Pressionaram os dirigentes da colônia, escreveram cartas para a Holanda. Mas todos os esforços foram em vão. Acabaram adotando a religião predominante em Santa Leopoldina, o luteranismo. Foram atendidos também na exigência de que os cultos com eles fossem realizados sem a presença da cruz e das velas. Em contrapartida, os holandeses abdicaram da roupa escura com a qual frequentavam os templos. Viraram luteranos a seu modo.
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