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Rogério Medeiros

Índios, Negros e Portugueses

Os verdadeiros donos da terra


Os pintores da corte portuguesa esmeraram-se em retratar
os botocudos, encantados com a estranheza de suas figuras
e de seus costumes


Quando os portugueses chegaram ao Espírito Santo, encontraram um verdadeiro "melting pot" de culturas indígenas, que sobreviviam através de caça, pesca, coleta e pequena agricultura de subsistência. Dentre as culturas existentes na região, a que ocupava mais territórios e mais resistências ofereceu ao colonizador branco foi a dos botocudos. Uma luta que, começada no século XVI, só se encerraria no século XIX, o que, para alguns, torna a terra em que viveram, uma distinta área cultural no Brasil.

As primeiras notícias que temos sobre os botocudos remontam ao século XV. Gabriel Soares de Souza, em sua relação das costas do Brasil, fornece-nos descrição dos aimorés (nome então dado aos botocudos), sua vida e seus costumes, considerando-os descendentes dos tapuias, o que estudos posteriores não confirmaram.

O nome botocudo, como se sabe, deriva do uso, pelos membros da tribo de botoques (uma espécie de enfeite com a forma de um pires preso ao lábio inferior). A mesma denominação se dá também a índios de Santa Catarina e Paraná, que nada têm a ver com os daqui.

Os botocudos (alguns davam a si mesmos o nome de "engerakmung") habitavam as costas brasileiras, e no período de seu máximo desenvolvimento, dominavam entre as latitudes sul de 13 graus a 23 graus. Já no início do século XIX, contudo, estavam confinados entre os Rio Doce e Pardo (15 graus a 20 graus de latitude sul).

A simples menção do seu nome e a conotação de que seus botoques "lhes desfiguravam o rosto" sempre despertaram, na mente do colonizador, imagem de fealdade, ou mais além, "de inimizade a todo o gênero humano". Esses estereótipos não coincidem com as descrições que deles nos restam. Já no século XVI, eram considerados maiores e mais robustos que os outros índios. Outros estudiosos, em épocas posteriores não concordam em suas descrições sobre os botocudos, ora apresentados como fortes, ora como musculosos, ora como bem conformados, geralmente baixos, ora como possuidores de caixa toráxica larga e achatada na parte anterior, tronco alongado, mãos e pés pequenos, pernas finas e pescoço curto. O crânio do homem apresentava "uma fronte baixa e às vezes bastante inclinada para trás, o occiptal deprimido e as têmporas ligeiramente conexas".

Historiadores divergem sobre os botocudos

Observou-se também que sua altura era mediana e não baixa, como se dizia anteriormente, o que parece mais conforme com a realidade, em vista de maior número de informações de diversos autores. Maximiliano os acha "mais belos que os demais" e Saint-Hilaire afirma que se esquece sua feiúra "por uma fisionomia mais franca" (que a dos índios das outras tribos) e um "ar de alegria". Têm pés delicados, mãos fortes e são, de regra, espadaúdos. Não há acordo, também, quanto à cor dos botocudos. Uns os declararam canela-claro; outros, amarelo para o pardo, em virtude do "sol e da sujeira". As orelhas e os lábios inferiores são deformados pelos botoques, discos brancos feitos, em geral, de madeira leve da barriguda (Bombax ventricosa), secados ao fogo, de tamanho variado, chegando até 12 centímetros. Andam geralmente nus, sendo que alguns homens usam estojo peniano de folhas trançadas de "issara" a que dão o nome de "gincann".

As casas, devido às constantes caminhadas dos membros da tribo, eram de rápida feitura, em geral folhas de palmeiras encostadas aos pares, visórias, onde os poucos utensílios domésticos (vasilhas de taquaraçu para água ou cachaça), ficavam ao chão, onde também dormiam.

Costumes, armas e meios de transporte

Do ponto de vista econômico, até meados do século XIX os botocudos foram exclusivamente caçadores, competindo a pesca e a coleta às mulheres e às crianças. Porém, já no século XVI, eram famosos como "salteadores" de roças dos neobrasileiros. A caça era feita ora isoladamente, ora em grupo. Cada grupo tinha sua área especial de caça. O arco e a flecha eram os instrumentos usados para a caça, e havia-os de três tipos, conforme seu tamanho: guerreiro, farpado e para caçar animais pequenos. Não usavam embarcações, que desconheciam, o que é estranho em região, ao contrário do dito por Métraux, ponteada de rios. Devem ter aprendido a nadar com o branco, ou com outros índios, pois causava espécie a Gabriel Soares de Souza que eles não o soubessem, ao passo que Maximiliano os declarara nadadores e trepadores de árvores.

A família era poligâmica. O casamento resultava da vontade dos cônjuges e de seus pais, independentemente de qualquer cerimônia. Dissolvia-se facilmente o casamento. As mulheres e os filhos trabalhavam arduamente e obedeciam ao marido e ao pai. Além da coleta e da pesca, competia à mulher a construção da choça e o transporte de volumes, inclusive os filhos pequenos, carregados às costas ou pelas mãos.

Quanto à religião, não há muitos registros sobre os seus sistemas de crenças. Havia entre eles um exorcismo para afastar dos mortos os demônios (pequenos e grandes) com fogueiras acesas perto do túmulo, geralmente por parentes. A lua era venerada como Iam.

Os botocudos sempre foram vizinhos temidos. Antes do descobrimento do Brasil, haviam os botocudos desalojado os tupiniquins de seus territórios, ao sul da Bahia. O contato com os brancos nem sempre lhes foi vantajoso. Aprenderam, por exemplo, a lavrar a terra, mas também aprenderam a fumar e tornaram-se bebedores habituais de aguardente.



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