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Rogério Medeiros

Índios, Negros e Portugueses

Traições, seqüestros e crueldades



Ao aceitar o conselho de Teófilo Otoni, Giporok selou seu destino: morreu junto com seus principais guerreiros. O branco Sales, famoso facínora, trazido pelo conde de Linhares, assassinou Giporok e outros 14 botocudos. Traiçoeiramente, de emboscada, os índios perderam um de seus mais importantes líderes, pois Giporok vivia denunciando as atrocidades dos portugueses, os roubos dos kurukas (crianças indígenas) e das mulheres, além da prisão de índios para servirem de escravos nas fazendas. A morte de Giporok criou para Teófilo Otoni a oportunidade de negociar a paz com seus inimigos, sobretudo com os de Todos os Santos, os naknenuks, que formavam uma espécie de confederação na luta permanente contra ele. Os botocudos lutavam muito entre si. A cumplicidade de Teófilo Otoni, no caso da morte de Giporok, ficou tão evidente, que coube a ele fazer parte de uma reunião de chefes indígenas onde foi dividido o território do líder botocudo assassinado.

Desse encontro participaram os caciques Ninkate, Timóteo, Pote, Poton, Krakatan, Inhome e Nereré. A princípio não foi fácil o entendimento por causa da oposição de Ninkate diante da pretensão de Teófilo Otoni em ficar também com uma parte do território de Giporok: "Os portugueses não se contentam com a terra que nos roubaram", teria dito a ele a Teófilo Otoni nesse encontro.

Mas Teófilo Otoni já havia preparado um bom trabalho junto ao cacique Timóteo, ao convence-lo a divulgar junto aos demais líderes botocudos as qualidades do chefe Pogirun, que era nada mais nada menos do que o próprio Teófilo Otoni. Pouco tempo depois era contemplado com o território que desejava para a Companhia do Mucuri. Ele só veio a conhecer a ira dos botocudos quando começou a abrir estradas em território indígena. O cacique Imã levantou seus guerreiros contra ele, recebendo a adesão de outros chefes. Não queriam permitir o acesso de civilizados às suas terras. Para surpresa deles, Teófilo Otoni foi defendido pelo cacique Timóteo e, assim, pôde dar curso livremente a suas intenções de penetrar em terreno botocudo, até então inacessível aos civilizados.

Pojichás usavam técnicas de guerrilha

Os pojichás eram índios agigantados, robustos, usavam arcos imensamente grandes, eram destemidos. Destacavam-se dos demais botocudos por serem exímios flecheiros. Dormiam na terra e alimentavam-se de frutas e caça. Tinham preferência por comidas cruas. Sua luta era de emboscada, numa apurada técnica guerrilheira. Andavam sempre em pequenos grupos, razão, sobretudo, do seu grande sucesso nas lutas, que lhes garantiu uma longa existência. Preparavam tocaias dentro da floresta, através de brechas entre o maciço cipoal, Ficavam por trás delas em forma circular. Guerreiros se posicionavam junto a uma forquilha de estaca, sobre a qual o índio da frente apoiava sua flecha, o seu imediato apoiava outra flecha no ombro do da frente, vindo um terceiro atrás dele. Isso proporcionava que daquele ponto partissem, pela mesma seteira, três flechas ao mesmo tempo. Ao passar o emboscado pela primeira tocaia, nada lhe acontecia. O primeiro grupo era formado de índios batedores, incumbidos apenas de avisar os companheiros das trincheiras, através de pios de animais, principalmente da jacutinga.

O "Flagelo do Mucuri"

- "Jak-Jamenuk! Jak-Jamenuk!" - gritavam exaustivamente os homens chamados "línguas" (índios aculturados). Insistiram muitas vezes, até que uma voz enérgica saiu de dentro da mata; "Português, quando vem à minha casa, é para matar". Mas o "língua" retrucou que vinha da parte de Pogirun e que ninguém desejava tomar suas terras, mas apenas permissão para passar a estrada. "Se vocês são desse capitão não precisam de armas. Larguem aí", tornou a falar o índio.

A escolta de Teófilo Otoni obedeceu, depondo as armas. À frente de seus guerreiros surgiu o cacique Pojichá, jogando no chão o seu arco e suas flechas. Gesto imediatamente imitado pelos companheiros. Teófilo Otoni estava, finalmente, diante do mais temido chefe dos botocudos. Era conhecido como "o Flagelo do Mucuri", apesar de originário de São Mateus. Esse ramo botocudo nunca deu sossego às frentes de penetração. A última refrega deles, antes de se encontrarem com Teófilo Otoni, havia sido justamente com os trabalhadores da Companhia do Mucuri. Ele admitiu a passagem da estrada no seu território, mas recusou aliança de paz.



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