 |
Século Diário
|
 |
|
 |
|
| Rogério Medeiros
|
|
Índios, Negros e Portugueses
|
|
Indígenas mantinham vigilância 24 horas por dia, na floresta, aguardando os ataques dos brancos
Os pojichás viviam nos lugares sombrios e planos das florestas, distantes taticamente das cachoeiras a fim de não serem surpreendidos pelos seus inimigos. Dessa forma, também podiam ouvir, com maior clareza, o movimento das feras, principalmente das que atacavam à noite, de surpresa. Apesar de seus cuidados, sempre dormiram mal, pois a preocupação com os inimigos era constante entre eles. Uma folha seca que tombava, um galho que desprendia da árvore, eram com atenção observados. Os índios mais velhos, já alijados dos embates, incumbiam-se da vigilância noturna. Sobre eles era jogada a responsabilidade de qualquer surpresa. O índio mais jovem não podia ser guarda noturno, pois a principal atividade do dia lhe pertencia e o cansaço podia perfeitamente vencer a sua capacidade auditiva.
Longe do grupo pojichá, cuja distância ele sempre preferiu prudentemente manter, Teófilo Otoni completou, com relativo êxito, seu propósito de instalar a estrada de ferro da Companhia do Mucuri. Ao final da sua jornada, comemorou o feito junto aos demais caciques, que conquistou com sua simpatia, auxiliada por constantes presentes. Havia, no entanto, aberto o caminho para outras expedições, muitas das quais surgiram logo em seguida, aumentando o volume de luta na área dos botocudos.
Para ajudar na conquista do território botocudo, o governo trouxe dois frades capuchinhos, para aldeá-los o máximo possível, segundo recomendação do ministro da Agricultura, barão de Itaúna. Visavam sobretudo à tribo pojichá. Eles chegaram por volta de 1872 e instalaram-se em Filadélfia (hoje, Teófilo Otoni). Em poucos dias, testemunharam um ataque dos pojichás a trabalhadores da estrada Santa Clara-Filadélfia, que atravessava território indígena. Nessa investida, mataram o engenheiro Roberto Schlobach e massacraram a família do fazendeiro Antonio Dias de Araújo.
Frades capuchinhos organizaram primeiro aldeamento botocudo
Logo os capuchinhos haviam de ficar sabendo que a missão de aldear os botocudos, principalmente os pojichás, era, por vários motivos, extremamente árdua e perigosa. O principal deles era o grande número de índios, perto de dois mil. Eles possuíam uma organização eficiente: eram divididos em seis grupos, tendo cada um seu chefe, e ainda existiam hordas com chefes auxiliares. Mas todos obedeciam a um chefe supremo, o cacique Pojichá. Os grupos sempre agiam isoladamente. Só quando a luta exigia é que se reuniam todos sob um mesmo comando. Nas raras vezes em que isso acontecia, o comando ficava em poder do cacique.
Mesmo com esse quadro de dificuldades à sua frente, os capuchinhos não esmoreceram. Em pouco tempo, até com relativo êxito, eles prepararam, em Itambacuri, em território mineiro, o primeiro aldeamento para os índios botocudos, que freqüentavam mais a faixa do rio Doce no Espírito Santo do que propriamente Minas Gerais. Aldearam imediatamente perto de mil botocudos. Mas Pojichá, que era o seu principal objetivo, permaneceu, nessa fase, inalcançável.
O chefe guerreiro não arredava pé do teatro de guerra, impedindo a penetração do branco. Oito anos depois da chegada dos capuchinhos (1880), eles haviam perdido o seu chefe supremo, que inclusive deu o nome ao grupo: Pojichá.
Na luta permanente contra o invasor iam desaparecendo a cada ano os seus principais guerreiros. E quando os combates recrudesciam demais, retiravam-se do rio Doce para São Mateus e Cotaxé, em busca de um período de descanço e reabastecimento de energias.
|
|
|
|