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Rogério Medeiros

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Um frade capuchinho e sua missão


Animado com o êxito do seu aldeamento de botocudos e com o prestígio que passou a desfrutar junto aos demais índios, frei Serafim Gorízio resolveu procurar um grupo de pojichás que freqüentemente era visto na fazenda Planície, nas imediações da divisa do Espírito Santo com Minas Gerais. Eles haviam atacado essa fazenda e acabaram matando o seu proprietário, de nome Veloso. Acompanhado de alguns "línguas" (botocudo aldeado), o frei conseguiu parlamentar com o chefe Pojichá, que esteve à frente da investida. A conversa a sós com ele foi o suficiente para convencê-lo a aldear-se também. Aceito o convite, o líder botocudo assoviou e saíram da mata cerca de 300 índios. À frente do grupo pojichá, frei Serafim Garízio entrou triunfante em Filadélfia, exibindo os mais temidos botocudos de toda sua existência.

A cidade alvoroçou-se. Afinal era dela que partiam as expedições para combater os índios. Viviam nela muitos dos capitães-de-mato deslocados pelo governo para auxiliar na ocupação do território indígena. Frei Serafim acomodou os índios no pátio de uma escola para pernoitar. O instinto do cacique Pojichá, no entanto, captou um ataque noturno. E antes que ele ocorresse, ele e seu grupo escalaram o muro da escola e retornaram floresta. Frei Serafim eximiu-se de culpa, muito embora tenha escolhido um local para os índios pernoitarem em pleno centro de Filadélfia. Mostrou-se revoltado com os brancos.

Mas na fuga os pojichás deixaram para trás uma criança pequena. Frei Serafim utilizou-se dela para ir novamente ao encontro dos índios, mas não foi bem recebido. Ouviu de Pojichá que ele era um soldado disfarçado em padre, para melhor atrair os índios a uma cilada. Quando esse diálogo áspero ocorria entre os dois, frei Serafim foi surpreendido com seus "línguas" a chorar copiosamente. Eles haviam pressentido que seriam mortos. Fugiram para a casa principal da Fazenda Veloso, levando frei Serafim.

Emboscadas, uma rotina contra os índios

Ao romper o dia, os pojichás foram à fazenda indagar do frei por que ele tinha sumido à noite. Ele respondeu que os índios queriam mata-lo. Mesmo com todo esse estado de pânico, frei Serafim arriscou um novo encontro com eles, próximo de uma cachoeira. Aconselhou-os, contudo, naquele momento, a regressar a seus esconderijos na região de São Mateus. Meses depois, incumbiu seu companheiro de catequese, frei Ângelo, de ir ao encontro dos pojichás em São Mateus. Mas ele desistiu no meio do caminho, deixando a missão por conta de seus "línguas". Hospedou-se o frei na fazenda de José Teodoro. Os pojichás apareceram e foram atraídos pelo fazendeiro para servirem-se de suas bananas, junto a uma grande plantação. Emboscados no local, os jagunços dos fazendeiros surpreenderam os índios, matando dois. Os índios contra-atacaram, mas não lograram êxito como das vezes anteriores. Na saída, os pojichás trucidaram oito "línguas".

Outro grupo Pojichá, que também se dirigiu ao aldeamento de Itambacuri, foi emboscado na Fazenda Liberdade, de propriedade de Leonardo Otoni. Depois do embate, 32 guerreiros mortos, inclusive quatro importantes chefes. Os que sobraram voltaram a seu território e prepararam, junto com outros índios, novos ataques às fazendas, sobretudo àquela onde haviam perdidos seus guerreiros.

Apesar de todos esses perigosos episódios, frei Serafim não desistiu de aldear os pojichás. Ele mesmo, à frente de uma expedição, foi às matas de São Mateus busca-los e acabou finalmente convencendo um grupo a seguir com ele para Itambacuri. Viajaram em sua companhia 200 índios. Na cabeça da marcha, toda ela feita por dentro de matas, iam guerreiros pintados de vermelho, com tintas extraídas das sementes do urucum, com seus poderosos arcos e flechas. Só que dessa vez foram eles próprios que escolheram o caminho. Durante cinco anos, eles ficaram aldeados com os religiosos, mas distantes dos outros índios. Foram instalados num lugar chamado Santo Antônio. Embora não tenham sido molestados pelos civilizados, eles foram durante todo esse tempo vigiados e hostilizados pelos brancos, que não deixaram um só dia de observar seus hábitos de vida.



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