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Rogério Medeiros

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Uma grande epidemia, causada por roupas
impregnadas de vírus, matou centenas de índios




Como os demais aldeados em Itambacuri, eles interessaram-se pelas roupas dos civilizados. Os homens passaram a usar calças e blusas e as mulheres, vestidos. De preferência de tecido sempre colorido. Recebiam essas roupas dos religiosos. Mas num determinado momento começaram a encontra-las dentro das matas que freqüentavam na reserva indígena. As roupas estavam contaminadas pelo vírus do sarampo ou da varíola, o que causou uma grande epidemia entre os pojichás, e alcançou também os demais botocudos aldeados nas missões dos capuchinhos.

O número de índios doentes chegou a quase um terço dos que viviam no aldeamento, obrigando os religiosos a improvisar um hospital para poder tratar de todos. As maiores vítimas, evidentemente, foram as crianças. Quirino Grande, famoso chefe botocudo, aldeado havia mais de 20 anos, atribuiu a epidemia a envenenamento patrocinado pelos religiosos. Com o auxílio de outro antigo chefe que como ele submeteu-se al aldeamento dos capuchinhos, de nome Manuel Pequeno, organizou uma rebelião. Mas, para surpresa deles, não contaram com a adesão dos pojichás. Antes de eclodir o movimento, abandonaram a missão, voltando à floresta. Antes, porém, seu chefe foi ao encontro do frei Serafim Gorízio e o abraçou chorando. Sem, contudo, pronunciar uma única palavra.

Ao amanhecer, Quirino Grande, liderando 700 botocudos, iniciou a revolta atacando a casa dos religiosos. Frei Ângelo caiu atingido por uma flecha, enquanto que outro religioso atirava constantemente para o alto com a sua carabina, com a intenção de ser ouvido na cidade de Filadélfia. Os índios queimaram todas as dependências da missão, destroçando praticamente tudo que haviam construído com suas próprias mãos nos 20 anos que estiveram com os capuchinhos. Logo chegou para socorre-los um verdadeiro exército de brancos sob o comando do coronel Onório. Os índios seguiram para a floresta destruindo o que encontravam pela frente: pontes, casas e plantações.

Durante vários meses, poderosos grupos armados caçaram os botocudos pelas florestas, abençoados com o ódio dos capuchinhos da missão de Itambacuri. Foi avassalador o massacre. De imediato, os guerreiros brancos de frei Serafim, como se intitulavam na missão, mataram cerca de 300 índios. Mas os religiosos haviam exigido que os cabeças da revolta fossem preservados. Desejavam que fossem usados depois como exemplo para revoltosos que espontaneamente regressassem à missão. Realmente, tal situação veio a ocorrer com Quirino Grande e Manuel Pequeno, que vieram a falecer muitos anos depois, no cárcere. A explicação que ofereceram para a rebelião não convenceu os religiosos: a revolta, disseram, foi uma represália ao envenenamento dos índios.

Índios usavam táticas guerrilheiras

Apesar de tudo que ocorreu, OS RELIGIOSOS NÃO DESISTIRAM DE ALDEAR OS POJICHÁS. Prepararam novas expedições com índios fiéis, na esperança de atender às exigências do Império, que desejava ver esses índios pacificados. Queriam, como medida inicial, celebrar com eles um compromisso de paz. Mas o cacique Vakman Pojichá não deixou nenhum grupo de extermínio passar para o lado do rio São Mateus. Utilizando-se de táticas guerrilheiras, escorou a maioria dos grupos, acabando com parte deles. Levou os religiosos a mudarem de tática, retirando suas expedições da área. Alguns dos índios fiéis que conseguiram regressar à missão disseram que era impossível bater os pojichás. Eles se movimentavam com incrível rapidez, indo de uma extremidade a outra da floresta com grande facilidade, correndo e atacando com enorme eficiência. Não deixavam sequer vestígios de sua presença. Eram praticamente invisíveis nessa hora.

A todo momento chegavam ao conhecimento do governo ataques dos pojichás ora a trabalhadores da estrada de Minas Gerais-Bahia, ora a frente de penetração dos brancos que tinham o objetivo de liquidar esses últimos remanescentes da nação botocuda. O cerco ocorreu em toda a extensão do seu habitat no Rio São Mateus.

Nessa guerra, centenas de crianças e mulheres foram aprisionadas e dezenas delas trucidadas da forma mais cruel possível. Mas nenhum guerreiro foi aprisionado, como desejavam os homens do mato contratados pelo governo.. Eles achavam que podiam saber deles as táticas de guerrilhas que tantas baixas também promoviam junto a seus homens. Esse exército de especialistas do mato acabou desistindo do combate. Durante muitos anos os pojichás desapareceram inteiramente dessa área. Voltaram a ela somente em 1909, quando trucidaram uma família de fazendeiros.

Até aquele momento, todo o interesse das frentes de penetração estava voltado para a pacificação do capitão Nazareth, na região de Linhares. Vários ataques estavam dizimando, aos poucos, esse solitário grupo botocudo do Rio Doce. A chamada civilização já ocupava praticamente todas as antigas áreas deles. Várias estradas já estavam abertas e duas ferrovias eram construídas por dentro de seu antigo território: Minas-Bahia e Vitória-Minas. Restavam, na verdade, acuados e sem área própria para viver, o cacique Nazareth e os pojichás.

Mais protegidos, no entanto, estavam os pojichás, sobretudo por continuarem sendo muito temidos. Pouco depois o cacique Nazareth aceitou instalar-se em Pancas, no Norte do estado, num aldeamento preparado pelo marechal Rondon. Por lá ficou dez anos, até que, nos anos 20, uma epidemia de sarampo acabou com ele e mais 200 índios que o acompanhavam. As terras de Pancas, consideradas das melhores do Espírito Santo, foram, logo em seguida, entregues a fazendeiros que vieram a se constituir, com o tempo, como os mais prósperos do Estado.

A versão do sarampo é até hoje contestada por indigenistas, mais propensos a acreditar em envenenamento. É que nesse mesmo aldeamento também foram vítimas de uma epidemia de sarampo índios guaranis transferidos do Sul do país. Os guaranis sobreviventes, no entanto, sempre contestaram a versão oficial e garantem que foram envenenados ao tomarem água do rio Pancas.

Uma raça que jamais se entregou ou foi vencida

Um pouco antes de Nazareth render-se, frei Serafim tentou a sua última cartada em cima dos policiais, utilizando-se de alguns deles que ficaram para trás por ocasião da revolta dos índios de Itambacuri. Eram crianças índias que estavam na enfermaria quando os pojichás abandonaram a missão. Entre os que ficaram encontrava-se Lúcio, filho do chefe Paulo Pojichá, que havia sido criado pelos religiosos e preparado para essa missão de catequizar seus irmãos. Seguiu à frente de uma expedição com o propósito de leva-los de volta para Itambacuri. Ele estava aculturado, tinha estudado e havia, inclusive, contraído matrimônio com uma civilizada. A princípio, o encontro foi difícil. Mas a dificuldade durou o tempo necessário para o pai reconhecer o filho, que havia deixado criança na missão. Paulo Pojichá era um dos mais temidos chefes de sua nação, e conhecido pelos demais botocudos como Hu-Hen. Mas ele já estava muito velho e alquebrado. Na sua companhia, havia apenas outro líder importante, que era Vakman Pojichá. Lúcio retornou de sua missão apenas com a promessa de seu pai de que não guerrearia mais. Dias depois de sua partida, Hu-Hen morreria com a dignidade de um grande guerreiro: rolou de uma serra escarpada onde fora buscar frutas.

De Vakman, Lúcio não extraiu qualquer compromisso. Deixou, no entanto, bastante satisfeitas as autoridades ao contar que o grupo pojichá estava reduzido a menos de 50 guerreiros. Tal informação animou os homens do mato a seguirem para a região onde eles estavam vivendo, numa área ainda florestada de São Mateus. Foram massacrados em um ataque de surpresa, mas morreram lutando o bastante para escreverem com sangue a sua existência. Deixaram o registro histórico de que sua raça nunca se entregou nem foi vencida, e sim trucidada.



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