Como é sabido, os escravos também faziam parte de inventários quando seus donos morriam. A posse do escravo era regulamentada pela Lei 4.835, de 1/12/1871. Exigia do seu dono que contasse na sua relação de bens o nome do escravo, o estado, a naturalidade, a filiação, a aptidão para o trabalho e profissão de cada um. Os preços variavam de 200 mil réis a 800 mil réis. Em 1878, o juízo municipal de Cachoeiro de Itapemirim registrou interessante ação de liberdade. A escrava Benta requereu sua libertação da viúva Ana Luiza Soares Hausman. Ela alegou que pertenceu ao finado marido dela, de nome Antônio Hausman, mas que constava no inventário da outra. Para resolver a questão, o juiz municipal, tenente João Gomes Leal, nomeou depositário da escrava o indivíduo Luiz Jorge Vidal, sob a alegação de que "a alforria não pode ser revogada ainda que por motivo de ingratidão.
As partes, no entanto, foram à audiência de conciliação e ela recebeu a carta de libertação condicional com a condição de acompanhar a outra durante toda a sua vida, prestando serviços que fossem compatíveis com seu sexo e sua idade. Em compensação, Ana Luiza não podia infrigir-lhe castigos. Esse caso teve mais tarde vários desdobramentos em juízo.
Nessa época, eram freqüentes as fugas de escravos e ainda florescente o negócio baseado na venda deles, especialmente os africanos contra-bandeados pelo porto de Itapemirim. Segundo o noticiário de "O Cachoeirano", em 2 de janeiro de 1881, fugiu da Fazenda União, do capitão Bento José da Rocha, Afonso, um crioulo de 21 anos, estatura regular, magro, cara descarnada, olhos muito vivos, dentes perfeitos. Recapturado, fugiu novamente, dois anos depois. O novo anúncio de fuga dizia que sua fisionomia era ameaçadora, que costumava mudar de nome e dizia-se livre. Levava na sua companhia a escrava Eugênia, cor fula, ou quase cobre, baixa, 15 anos, um ou dois dentes partidos na frente, filha da preta liberta Tomazia Capixaba, moradora em São Pedro de Cachoeiro de Itapemirim.
Orgulho da raça causava fugas freqüentes
Neste mesmo ano, da Fazenda Barra Alegre, de Camilo Homem de Azevedo, escapou Firmício, fula de 43 anos, pintado, cabelo e barba, chapéu preto ordinário e uma foice de roçar. Da Fazenda Recreio fugiu um escravo fula, de 16 anos, pouco mais ou menos magro, olhos pequenos, quando olha para as pessoas baixa o olhar, e com os dedos grandes dos pés tortos para dentro. Da Fazenda Serra fugiu também o escravo Paulo, cor preta, pernas finas, começando a barbear, idade 25 anos, o dono gratificava com 250 mil réis.
Em 21 de setembro, noticia o jornal que um escravo espancou brutalmente o feitor da fazenda e fugiu. Insere também o anúncio da fuga de João, cor parda, cabelo bom, barba no queixo e bigode, alguns cabelos brancos na barba, falta de dentes, andar vagaroso, sinal de ferida em umas das pernas.
Em 4 de novembro noticia-se a fuga de Inácio, mulato, desdentado, pouca barba, sinal de golpe de enxada por cima dos olhos e que fora preso no Veado (antigo nome de Guaçuí) com nome suposto de Antônio. No dia 11, relata a fuga de Constância, preta, com 20 anos, baixa e magra.
As vendas de escravos, anunciadas nos jornais da época, traziam grandes lucros aos comerciantes
Como se vê, os escravos figuravam em anúncios nos jornais da época como se fossem simples mercadorias extraviadas ou roubadas. É fácil avaliar, diante da aflição dos donos em recupera-los, o quanto foram vítimas do mercantilismo da época, que criou oportunidade de enriquecimento para muitos comerciantes de escravos, geralmente portugueses. As vendas também eram anunciadas nos jornais, principalmente do Sul do estado, onde havia a grande concentração de fazendas escravocratas.
Um leilão realizado pelo dr. Manoel Leite de Novaes e Melo, juiz de órfãos, ocorreu no dia 26 de janeiro de 1881, colocando à venda os escravos Rufo, de 65 anos, solteiro, avaliado em 900 mil réis; Virgínia, de 30 anos, solteira, avaliada em 800 mil réis; Diniz, com 60 anos, casado com Delfina, com 42 anos, um conto e 400 mil réis, sua esposa, avaliada em 400 mil réis; Amália, solteira, 24 anos, com um filho ingênuo de nome Leopoldo, todos lavradores e africanos. No mesmo ano, foi anunciada a venda de uma escrava própria para serviços domésticos.
Em 1882, "O Cachoeirano" publicou o anúncio da venda de quatro escravos, sendo duas moças, sadias, diligentes e próprias para qualquer serviço, tanto de casa como de roça, e dois moleques, sendo um pardo de 13 para 14 anos, próprio para pajem, e outro de 16 para 17 anos. O vendedor esclarecia que uma das escravas tinha um filho de 10 anos, que já servia para serviços caseiros. Vendiam-se ambos, juntos ou separados.