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Século Diário
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| Rogério Medeiros
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Índios, negros e Portugueses
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Os festejos do Dia da Abolição
O dançarino do ticumbi de Conceição da Barra, uma das mais fortes
tradições do folclore capixaba, apresenta-se anualmente, ao som de
rústicos pandeiros, com uma coreografia que é puro encantamento,
além de vigorosa demonstração da resistência cultural dos negros
Essa forma tão perversa de mercantilizar o ser humano não podia prosseguir mais no País. Tanto que no Espírito Santo passou a funcionar, em 1881, em Cachoeiro de Itapemirim, um Fundo de Libertação. Seus resultados se fizeram sentir imediatamente. Em janeiro desse mesmo ano, 17 escravos, comprados por 13 contos e 600 mil réis, ganharam liberdade com recursos do Fundo. Ele acabou incentivando também atitudes isoladas de libertação de escravos. Cristiana Teodora Moreira, por ocasião de seu casamento, libertou sua mucama Maria dos Passos. O capitão Henrique Deslandes assinou carta de liberdade, sem ônus algum, para seu único escravo, Pedro.
Para o escritor e historiador Newton Braga, o grande líder abolicionista do Sul do Estado foi João Ferreira Rios, editor do jornal "Itabira", orador e advogado. Por último, "O Cachoeirano" relata os festejos do Dia da Abolição na região, saudado com fogos, Hino Nacional, numerosos discursos, acordes da Banda Estrela do Norte, vivas. A festa foi próxima à casa Marques Guardiã e Cia. Dias depois, os libertos de Cachoeiro de Itapemirim fundaram o Clube dos Agradecidos.
Tristes lembranças de uma ex-escrava
Nos anos 60, cinco estudantes do Colégio Anísio Teixeira, de Guaçuí, Maribel Francisca Marques Castro, Kleide Márcia Barbosa Alves, Dulcinéia Maria Cápua, Maria Vargas e Délio Lopes Ribeiro, colheram um importante depoimento de uma escrava que se chamava Clara Antônia de Lima, nascida em 13 de maio de 1886. Seu pai foi o escravo Geonário Joaquim Dias. Os estudantes estavam interessados em resgatar a história da escravidão vivida por ela. A velha Clara não se fez de rogada. Iniciou logo seu depoimento lembrando as atividades de seu pai, que foi feitor da fazenda. Por conseguinte, tomava conta dos demais escravos. E ela, durante o tempo que ficou nessa propriedade, trabalhou como pajem dos filhos dos fazendeiros.
Contou que os seus patrões, Olímpio Ribeiro e Idê Ribeiro, tratavam bem os escravos, com exceção daqueles que fugiram. Estes eram caçados pelo feitor, que, sempre nessas horas, se fazia acompanhar por enormes cachorros. Na volta os escravos aprisionados eram levados para o tronco e castigados com o "bacalhau", nome que se dava na época a uma correia de couro. Alguns ficavam no tronco cerca de três dias, com braços e pernas amarrados. Mas ela disse que esses castigos eram relativamente brandos, levando em consideração o que sofriam os escravos das fazendas vizinhas. Por exemplo, na de Manuel de Castro, os escravos passavam por imensos sofrimentos e os mais rebeldes eram jogados no açude onde morriam afogados.
Clara tinha uma lembrança muito viva dos festejos que presenciou por ocasião da visita a Santa Leopoldina da princesa Isabel, em 1889. Ocorreu que, segundo ela, a princesa foi recebida por grande número de escravos, que foram lhe prestar homenagem. Choravam com as mãos para o céu, pediam a bênção e beijavam-lhe os pés. Ela, em troca de tanto carinho, entregava a cada um a sua carta de alforria.
Negros "atentavam contra a moral pública"
O mau tratamento variava de fazenda para fazenda. O jornal "O Cachoeirano", em 1886, dá notícia de um escravo que foi enterrado sem olhos, e de outro, no distrito do Espírito Santo (hoje Muniz Freire), sepultado sem nádegas, consumidas pelas surras que levava, além de três ferimentos no peito e outros tantos nas costas. O subdelegado fez o inquérito, ouviram-se testemunhas, mas o processo não teve andamento. Em 5 de fevereiro de 1888, pouco antes da abolição, o mesmo jornal relata o suicídio de escravo que se atirou no rio para fugir aos maus-tratos de seu proprietário.
Nas vilas, o comportamento dos escravos era considerado atentatório ao pudor público. Francisco Teixeira Júnior, delegado de polícia de Vila do São Pedro de Cachoeiro do Itapemirim, em 25 de março de 1883, fazia saber que "não era permitido andarem cagando depois das dez horas da noite escravos e escravas sem bilhete de seus senhores, a fim de evitar abuso ofensivo à moralidade pública, sob pena de serem recolhidos ao xadrez da polícia, os quais serão punidos pela lei". No mesmo dia esse delegado anunciava a prisão do escravo Pedro José, em casa de Júlio Ursucino, onde se apresentara como curador de feitiços. O delegado apreendeu com o escravo um Santo Antônio pequenino, uma toalha, uma garrafa de aguardente, algumas raízes do mato e giz em pedras.
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