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Rogério Medeiros

Índios, Negros e Portugueses

A visita da princesa Isabel a Leopoldina



Negros vivem história de discriminação e falta de oportunidades

No dia seguinte à visita, quando a princesa Isabel foi tomar café, o pai de Clara aproximou-se dela e falou que sua filha estava aniversariando. A princesa levou a menina Clara à loja mais próxima e presenteou-a com um belo vestido colorido. A respeito de seu pai, disse que ele foi vendido na frente do seu avô. Mas o pai, que seguiu junto com outros escravos também adquiridos na região, fugiu quando eles passaram por dentro de uma mata. Refugiou-se no sítio Olímpio Ribeiro, onde conheceu a mãe de Clara, de nome Ana, e tornou-se feitor.

Ela disse que os escravos da região em que viveu não mantinham relações uns com os outros. "Eles trabalhavam na roça e, quando voltavam do serviço o cansaço era tão grande que não havia força para se movimentar. Além disso, eles não tinham a liberdade de um ficar conversando com o outro", contou Clara. Quanto à vida na senzala, informou que os espaços eram divididos entre homens e mulheres, com uma parte destinada às crianças. Na hora da refeição reuniam-se todos em uma varanda e cada um tirava sua comida de um panelão (isso na fazenda onde ela vivia, pois nas outras a comida era medida). A alimentação básica era canjica, feijão e inhame. Eles não tinham direito a credo religioso, mas havia a figura do ensinador de reza, que os fazia aprender orações e cânticos católicos. Mesmo com a introdução da Igreja Católica junto aos escravos, eles não podiam se casar, apenas se juntavam. Casamentos ocorriam quando o patrão desvirginava a escrava e depois arranjava um escravo para casar com ela. Nesses casos, havia casamento para livrar o fazendeiro de problemas futuros. Isso ocorreu também com seu patrão. Trouxe padre de fora para o casamento da escrava e presenteou o casal com uma gleba de terra para criar o seu filho.

A contribuição dos negros para a cultura popular

Apesar de todo o sofrimento que lhes foi imposto pela sociedade escravista, os negros deram uma contribuição decisiva para a cultura popular do Espírito Santo. Nas áreas onde houve uma presença muito forte do africano, situadas especialmente no Norte, estão hoje as mais expressivas manifestações do folclore capixaba como o Ticumbí, a Marujada, os Reis de Boi e o Jongo de São Benedito. A mais conhecida delas, o Ticumbí, tem origem no quilombo do "Negro Rugero", localizado no Sapé do Norte, Conceição da Barra, por iniciativa de Silvestre Nagô. Esse auto sobrevive até hoje graças a uma elite de negros, constituída de pequenos produtores rurais, que anualmente, no dia 1º de janeiro, faz uma única apresentação diante da capela de São Benedito. Dentro do folclore brasileiro, o Ticumbí tem características únicas, não sendo encontrado nada idêntico a ele em qualquer região do país.

Silvestre Nagô era o responsável pelas manifestações culturais do quilombo e costumava comparecer às festas de fraque e cartola, porém descalço. O quilombo existiu durante o ciclo da farinha de mandioca na economia do Espírito Santo, e ele era o grande produtor dela. A farinha era exportada para a Europa através de São Mateus, na época um porto importante. O fato de a burguesia local, em suas festas, usar trajes pomposos como fraque e cartola levou Silvestre Nagô a traja-los também no quilombo. E quando o questionavam por estar descalço, ele dizia que só iria calçar os pés no dia da libertação do seu povo.

A Marujada é uma manifestação encontrada também no Nordeste e no Rio de Janeiro, que por muitos anos prevaleceu na região de São Mateus. No entanto, as profundas transformações sofridas pela economia na década de 70, sob o impacto do reflorestamento com eucalipto para atender as necessidades do projeto industrial da Aracruz Celulose, contribuíram para o desaparecimento da Marujada. Com a expulsão dos negros do interior do município, que ao perderem suas terras acabaram por engrossar o contingente de populações pobres das cidades, houve uma dispersão dos grupos que cultivaram a tradição da Marujada. Ao contrário dela, o Reis de Boi continua cada vez mais presente nas tradições populares. O jongo de São Benedito é uma manifestação de cunho tribal, realizada em torno de toscos tambores, e continua também forte em São Mateus.

Cena degradante acaba em linchamento de feitor

A pior cena que presenciou foi o assassinato do feitor da roça. Clara conta que a gravidez das mulheres escravas era inteiramente desconhecida pelos patrões. Elas eram obrigadas a trabalhar até o dia do parto. Uma escrava sua conhecida estava trabalhando na roça já com dores de parto, mas o feitor exigia que ela não abandonasse a lavoura. Chicoteava a moça para que ela fosse mais ligeira. A criança acabou nascendo ali mesmo, porém morta, e a mãe morreu em seguida. Os demais escravos, que pararam para assistir à cena, acabaram trucidando o feitor.



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