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Século Diário
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| Rogério Medeiros
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Índios, Negros e Portugueses
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Libaneses figiram da ocupação otomana em seu país durante a Primeira Guerra Mundial
Apesar de serem em número reduzido, os libaneses ocuparam um lugar
de destaque na história política do estado, com a eleição para
governador de um de seus descendentes,
Vitor Buaiz (aos 4 anos, ao lado do pai, mãe e tias)
A colônia libanesa que se estabeleceu no Espírito Santo entre os anos 10 e 40 deste século foi mais expressiva em Vitória e nos municípios de Cachoeiro de Itapemirim e Alegre. Esses imigrantes deixaram o Líbano pressionado pela Primeira Guerra Mundial, que acirrou a denominação otomana no seu país. Segundo a historiadora Mintaha Alcuri Campos, os libaneses que vieram para o Brasil não buscavam as propriedades agrícolas, como ocorreu com os imigrantes europeus. Eles dedicaram-se ao comércio e às pequenas indústrias. Tornaram-se, na verdade, os mascates que, por muitos anos, abasteceram de mercadorias os colonos europeus e os fazendeiros remanescentes das propriedades escravocratas.
De um modo geral todos eles chegaram ao Estado sem recursos e tiveram de enfrentar a atividade de vendedor ambulante. Atividade essa que, com o tempo, além de assegurar a sua sobrevivência, permitiu que se estabelecessem no comércio por conta própria. Inicialmente, enfrentaram alguns problemas, notadamente no campo da discriminação, por causa do passaporte usado para entrar no Brasil. O passaporte era da Turquia, em conseqüência da ocupação do Líbano pelos Otomanos.
No seu livro "Turco Pobre, Sírio Remediado, Libanês Rico", Mintaha faz referência à formação do povo árabe, dizendo que antes dos árabes o território libanês foi povoado por tribos semitas desde 3000 antes de Cristo, depois por egípcios, assírios, persas, gregos, romanos e bizantinos. A invasão árabe provocou um amplo movimento migratório e a divisão da população em facções religiosas, cujos adeptos não tardaram em repartir-se em comunidades distintas.
Aliados dos alemães, turcos impunham terror
Ainda sobre a origem, Montaha escreve sobre o período seguinte à conquista dos árabes, assegurando que ela provocou um retrocesso no país. Os cristãos, por exemplo, foram obrigados a refugiarem-se nas montanhas. Durante essa época, quando instalaram-se no alto do Monte Líbano, foi que receberam a denominação de libaneses. Em 1914, a repressão turca sobre os árabes chegou aos extremos. Ocorreram centenas de enforcamentos. Aliados dos alemães, os turcos impunham até a convocação dos dominados para servir no seu exército. Foi quando a migração árabe ganhou maiores proporções, principalmente para a América Latina, provocando despovoamento em seu país, o que abalou toda a vida social e econômica.
Para o Espírito Santo vieram os da região de Ghazir, estabelecendo-se em Vitória. Fixaram-se em Cachoeiro de Itapemirim os vindos de Trípoli, cidade marítima situada ao Norte do Líbano, enquanto os que tomaram o rumo de Alegre foram maronistas da vila de Bekassine, situada nas montanhas. Apesar de se espalharem por três municípios capixabas, eles não eram numerosos, talvez pouco mais de mil imigrantes.
A preferência por esses municípios relaciona-se com a possibilidade do seu desenvolvimento comercial. Eles se localizaram no Sul do estado, onde surgiram vilas e cidades em decorrência da lavoura cafeeira. Não estiveram os libaneses, entretanto, a ela diretamente vinculados, mas executando atividades paralelas, ligando-se aos compradores de café e mesmo a alguns agricultores. Instalaram-se no comércio quando as vilas começaram a contar já com um mercado consumidor. Mercado esse que permitia a proliferação do pequeno comércio, como armazéns de secos e molhados, as vendas de tecidos, os armarinhos e os bares.
Vínculo mais forte foi o parentesco
Outro aspecto da preferência dos libaneses por esses três municípios capixabas, abordados pela historiadora Mintaha Alcuri Campos, está ligado ao vínculo familiar. Os imigrantes libaneses, antes de tudo, estavam dispostos a agrupar-se junto a familiares, em busca de apoio para superar as dificuldades iniciais de adaptação, através de um melhor ajuste às condições de vida e de trabalho. O parentesco sempre representou um forte vínculo entre os libaneses. Sobre os pioneiros, diz a mesma historiadora que eles eram jovens e solteiros em sua maioria. Não tinham dinheiro e tornaram-se mascates, pois essa ocupação não requeria capital, sendo a mercadoria obtida com crédito. Além disso, seu escoamento era rápido e lucrativo. Juntando, em pouco tempo, capital suficiente para trabalhar por conta própria, iam abrindo, no interior, lojas e armazéns em pontos estratégicos. Na capital, lojinhas e armarinhos.
Com seu baú, que era uma verdadeira feira ambulante, o mascate percorria vilas, cidades e fazendas, o que facilitou a circulação de riqueza, aproximando o produtor industrial do consumidor de baixa renda. A falta de transportes e as enormes distâncias entre os grandes centros e as pequenas vilas favoreceram o mascate e a sua permanência no interior.
A origem de uma família que deu ao Espírito Santo um governador
A inserção e o desenvolvimento do libanês no Espírito Santo podem ser descritos em rápidas palavras através da história do imigrante Alexandre Buaiz: ele estabeleceu-se em Vitória com um tio, desligando-se dele tempos depois, para abrir seu próprio negócio com a firma Buaiz e Cia., no ramo de secos e molhados. Implantou as primeiras indústrias em São Torquato, Vila Velha, quando ali ainda era um mangue. Começou com uma máquina de fazer sacos de papel, depois uma de pregos e finalmente evolui para um moinho de trigo. Constituiu a firma Buaiz S/A Indústria e Comércio, uma sociedade anônima fechada e familiar.
Mais modesto, José Buaiz, parente de Alexandre, se instalou com um pequeno comércio de armarinho, mas acabou oferecendo à colônia libanesa o seu primeiro descendente a galgar o mais alto posto político do Estado, o de governador, através do seu filho Vitor, médico e ex-prefeito de Vitória. Outra família de destaque, entre os imigrantes libaneses, é a Saadi, cujo patriarca, Antonio Abdo Saadi, casado com Kaffa Mattar Saadi, é o exemplo do mascate típico, que criou sua numerosa família na região de João Neiva. Com dificuldades para falar o português, Antonio Abdo, na hora de registrar os filhos em cartório, não conseguiu pronunciar o sobrenome Saadi. Disso resultaram sobrenomes diferentes: Saadi com i no final, com d mudo e também com e. Ele teve cinco filhos, três homens (Elias Abdo, Jorge Antonio e Francisco) e duas mulheres (Marina e Amélia).
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