
Em meados do século XIX, as discricionárias legislações existentes na Áustria foram diretamente responsáveis pela colônia de tiroleses que, há 144 anos, instalou-se numa área agrícola, no município de Santa Leopoldina. Formaram essa colônia imigrantes que deixaram o Tirol austríaco em 1857, em busca não só de terras mas também da oportunidade de constituir família. Pelo menos 70 casais desejavam contrair matrimônio, o que não lhes era permitido no país de origem. A legislação da época só autorizava casamentos àqueles que fossem donos de terras ou artesãos. Para agravar mais ainda a situação do camponês do Tirol, só um filho, de livre escolha do pai, tinha direito a herança. Como geralmente tratava-se de propriedades agrícolas, os demais filhos, ao chegarem à idade do trabalho, eram obrigados a abandonar a terra ou então virar empregados do próprio irmão. Mas acabavam, inevitavelmente, engrossando a legião de desempregados da região.
Todavia, segundo relatos dos mais antigos, a questão maior estava realmente na proibição do casamento. Namoros e noivados que se desenrolavam normalmente durante a juventude eram obrigados a se desfazer por ocasião da partilha da herança, quando a maior parte dos homens perdia o direito à propriedade e, conseqüentemente, ao casamento. A mulher, como era hábito generalizado na Europa da época, não tinha também direito a herança.
Esse aspecto da cultura tirolesa teve realmente tanta importância para a migração rumo ao Brasil que na hora da partida do navio um padre foi a bordo, no porto de Hamburgo, Alemanha, para realizar o casamento de todos os imigrantes. Em decorrência dessa profusão de casamentos realizados na hora da viagem, pode-se dizer então que o tirolês veio por causa do amor, diferente dos outros imigrantes europeus que chagaram ao Espírito Santo atraídos tão-somente pela posse da terra e pelo sonho da prosperidade, vindo sempre acompanhados da mulher e de numerosos filhos.
Entraram no país como suíços ou alemães
A imigração tirolesa é também diferente sob outros aspectos. Os colonos vieram em número de 181 pessoas, das quais 70 formavam casais sem filhos. O resto eram jovens solteiros, que haviam perdido o direito à terra em seu país de origem. Expulsos da Europa por uma situação evidentemente atípica, esses tiroleses entraram no Brasil como suíços e alemães.
Mudaram de nacionalidade propositadamente para evitar problemas por causa dos casamentos realizados na clandestinidade ao saírem do seu país. Ou foram vítimas das habituais confusões que faziam as autoridades brasileiras com a procedência dos imigrantes europeus. Isso ocorreu principalmente no início dessas migrações, quando ainda eram pouco conhecidas na América as novas fronteiras dos países europeus.
É possível que a segunda hipótese seja a mais correta, porque os tiroleses vieram da terra da Imperatriz do Brasil, Leopoldina, para dar início a uma colônia de imigrantes que levava o seu nome. Quanto à Colônia Imperial Leopoldina, sobretudo no que se refere à data de chegada de seus imigrantes e sua situação no novo país, as informações doram devidamente corrigidas depois da viagem que fez à região do Tirol, na Áustria, o capixaba Camilo Sebastião Thomas, descendente dos colonos tiroleses. Ele pôde, com o acesso que teve aos documentos oficiais austríacos, restabelecer, entre outras coisas, o pioneirismo dos tiroleses de Santa Leopoldina.
Vida dos tiroleses foi muito dura
A vida dos tiroleses no Espírito Santo foi muito mais dura do que a dos demais imigrantes europeus. Primeiro, porque eles tinham poucos braços na família. Segundo, porque, ressabiados com a questão da partilha da terra familiar na Áustria, e no intuito de proteger os futuros filhos do abandono e da insegurança material, eles optaram por ocupar áreas maiores, de modo que não houvessem problemas posteriores de herança, criando assim grandes distâncias entre as famílias de imigrantes, na região que ocupam em Santa Leopoldina.