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Rogério Medeiros

TIROLESES E SUÍÇOS

A primeira noite de um casal em lua-de-mel dentro da assustadora Mata Atlântica

Camilo recuperou na Áustria as cartas que seu bisavô enviou aos familiares que deixou no Tirol. A maioria descreve a odisséia dos tiroleses na região, mas a primeira que enviou fala de um episódio de arrepiar os cabelos, que se passa com ele e sua mulher, por ocasião da primeira noite no terreno que lhes foi destinado pela Colônia Imperial Leopoldina.

Para dormir no local, havia seu bisavô aberto um pequeno espaço na mata, na medida exata para erguer uma cabana de madeira com paredes de palha de coqueiro. Quando desfrutava da primeira noite sozinho com sua mulher (o que, por motivos ábvios, não havia sido possível desde seu casamento no navio), eis que surge no negrume da noite uma enorme onça. Com suas longas unhas, o animal tentou, traiçoeiramente, abrir caminho entre as folhas de palmeira para atacar o casal.

Felizmente, segundo contou nessa carta, a onça partiu apavorada aos primeiros gritos de medo da mulher e o casal pôde, finalmente, desfrutar da sua tão desejada noite de núpcias, apesar de o local ser absolutamente inadequado para uma lua-de-mel. Franz Schft e Walpurgel Kapferer formavam o casal ameaçado pela onça.

O interior do Estado vivia completamente isolado, não havia qualquer sistema de comunicação. A instalação dos tiroleses na região montanhosa de Santa Leopoldina, tal como ocorreria com outras correntes migratórias européias, era uma tentativa de estabelecer novos pólos agrícolas, só que agora no modelo familiar da pequena propriedade européia, ou seja, uma propriedade baseada na mão-de-obra familiar.

Era um sistema que favorecia a diversificação agrícola, como ocorria nos países de origem dos imigrantes. Ocorre que a precariedade dos meios de comunicação, bem como a falta de mercado consumidor local, obrigou os imigrantes a se dedicarem somente ao plantio de café, à semelhança do que já havia nas fazendas escravocratas, colocando, portanto, o novo modelo de propriedade a serviço da exportação.

O resultado foi que a demora entre o plantio e a colheita dessa lavoura ocasionou um estado de permanente precariedade entre os tiroleses de Santa Leopoldina, que só receberam ajuda nos seis primeiros meses da Colônia Imperial Leopoldina, e assim mesmo uma ajuda limitada penas a ferramentas de trabalho e a uma cesta de alimentos.

Católicos, a Igreja foi sua aliada

Assim como ocorreu com os hunsbucklers e depois com os demais grupos de imigrantes europeus, os tiroleses recorreram à igreja como poder alternativo e agregador da colônia. Aliás, no seu caso, a terra escolhida alternativo e agregador da colônia. Aliás, no seu caso, a terra escolhida já contou com a ajuda de um religioso, o frei capuchinho Hadriano Landshner, que coincidentemente, mesmo tendo chegado antes deles ao Espírito Santo, era originário da região de Innsbruck, Áustria, de onde partiu a maior parte dos tiroleses que aqui se instalaram. Frei Hadriano havia vindo para o Espírito Santo trabalhar na catequese dos índios e, subindo o rio Santa Maria, conheceu a região que mais tarde seria colonizada pelos tiroleses. Frei Hadriano foi também o fundador da paróquia de São José do Queimado, da qual desvinculou-se temporariamente para assistir os tiroleses na nova terra. Construiu uma igreja com o apoio dos imigrantes e celebrou, por alguns anos, missas, casamentos e batizados.

Vencer a densa floresta foi o primeiro desafio

Aventuras à parte, os primeiros anos dos tiroleses no Espírito Santo foram marcados por um quadro de enormes dificuldades e privações. A formação da propriedade em terras completamente estranhas exigia, de saída, vencer a densa floresta, derrubando árvores e procurando livrar-se de suas ciladas. Não foram poucos os que se acidentaram na queda de uma árvore ou durante a fuga de algum animal feroz. Também era difícil conseguir alimentação para a sobrevivência. Houve caso de imigrante que, na falta do que comer, devorou o próprio cachorro. Muitos desses padecimentos são atribuídos à má gestão dos administradores da Colônia. O historiador Francisco Schwarz revela, por exemplo, que, em cinco anos de existência, ela teve dez administradores.

A economia do Estado nessa época era modesta, devido ao fato de sua produção agrícola estar toda ela ainda situada no litoral. Limitava-se, ainda, a alguns poucos produtos, segundo a historiadora Gilda Rocha, no seu trabalho "Imigração Estrangeira no Espírito Santo". Produzia-se muito pouco nas lavouras de algodão, açúcar e milho. Mas sua população se valia para sobreviver, do peixe, que era farto na costa capixaba. A farinha de mandioca era produzida em São Mateus, aliás era o único produto de exportação, já que os demais eram para consumo próprio.


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