
Morreu muito cedo, vitimado pela febre amarela. A sua morte deixou o Tirol capixaba por 20 anos sem assistência religiosa. Ela só veio a ser restabelecida em 1985, no dia 18 de março, quando desembarcaram na região dois padres da Congregação do Verbo Divino. Chegaram aí utilizando-se dos meios de transporte da época: canoa pelo rio Santa Maria, no trecho entre Vitória e Porto das Canoas, e depois lombo de animal até o Tirol capixaba. Eram eles Francisco Tollinger e Francisco Dold.
A história deles é muito interessante. Estavam passando por Vitória num navio que os levaria à Argentina, mas no porto tomaram conhecimento dos tiroleses de Santa Leopoldina, que há anos viviam sem padres em sua comunidade, apesar de reiterados pedidos ao Vaticano. Acrescia a esta circunstância o fato de estarem praticamente juntos com os suíços, os únicos que professavam a religião católica na Colônia Imperial Leopoldina. Os outros grupos de imigrantes eram todos luteranos. Sensibilizados, os dois foram visitar os tiroleses e não voltaram ao navio sequer para buscar suas bagagens.
Os padres foram surpreendidos na chegada por uma multidão de tiroleses, que foram ao encontro deles com cruzes e bandeiras, uns a pé, outros a cavalo. O povo ia atrás deles rezando e cantando. Com a decisão deles de ficar em definitivo na região, acabou surgindo a primeira paróquia da Congregação do Verbo Divino no Brasil.
Convivência amigável com luteranos
Com o crescimento da população do Tirol capixaba, a capela, construída ao tempo do frei Hadriano, ficou muito pequena. Acabaram erguendo uma nova igreja, de porte e beleza bastante singular, lembrando a arquitetura austríaca. Embora fosse vizinha da primeira igreja luterana na região, em Luxemburgo, nunca houve problemas entre as duas igrejas. Viveram pacificamente, considerando que as religiões, separadas por uma divisa de distritos, acumulavam, de forma distinta, de cada lado, católicos e luteranos. Hoje, segundo ainda Camilo Sebastião Thomas, que é o presidente de uma Associação de Agricultores no Tirol, eles vivem como irmãos. "Na festa religiosa deles nós vamos lá e na nossa eles vêm cá", diz Thomas.
A verdade é que a Igreja representou um passo importante na vida dessa comunidade tirolesa. Surgiu um colégio junto com ela para educação de seus filhos, mas a melhoria das condições de cada um crescia à medida que iam incorporando os filhos ao trabalho. E a produção do café ia aparecendo também. As demais lavouras, principalmente o milho e o feijão, eram plantadas só para consumo próprio. Ernest Wagemann, estudioso da colonização européia no Espírito Santo no início do século passado, constatou que "era notável a natalidade nas regiões em que viviam os imigrantes do Velho Mundo, notadamente os tiroleses. Entre mil habitantes, 48,5% nasceram e apenas 7,9% morreram".
Porém, entre os tiroleses havia um certo atraso no desenvolvimento da família, devido ao fato de a maioria ter-se transportado para o Brasil ainda sem filhos. Mas eles não foram depois diferentes dos imigrantes de outras origens. Tiveram muitos filhos também. Com o tempo, esses filhos foram fundamentais para o desenvolvimento da propriedade do pai. O melhor momento do imigrante tirolês veio exatamente quando pôde contar com a plena força dessa mão-de-obra. Entretanto, esse foi, de certa forma, um período relativamente curto, porque quando o filho chegava à idade adulta recebia do pai uma propriedade variando entre 20 e 30 hectares para construir sozinho sua independência.
Em Santa Leopoldina, formaram uma comunidade isolada, onde só se falava o dialeto tirolês
Diferentemente do que ocorreu com o imigrante em seu país de origem, onde apenas um filho era escolhido pelo pai para herdar a propriedade, aqui os tiroleses, para evitar a dispersão da família, criaram novas normas e leis. Presenteavam todos os filhos com uma propriedade. Essa maneira de tratar o futuro dos filhos trouxe algumas conseqüências. O reflexo ocorria imediatamente na propriedade do pai, com a diminuição da força de trabalho na sua lavoura. Mas havia uma regra muito interessante: o filho só saía de casa aos 23 anos, depois de trabalhar um ano de graça para o pai. Essa norma fazia com que o filho começasse a constituir sua família relativamente tarde. Passava por apertos, por falta de braços no trabalho, no mesmo grau de dificuldade do seu pai.
Vivendo em terrenos altos de Santa Leopoldina, acabaram formando uma sociedade isolada, mantendo-se, em função dessa característica, até os dias atuais, um grupo étnico que só se comunica pelo dialeto tirolês, trazido pelos antepassados. No entanto, fora da colônia, eles falam também o português e a língua alta, o alemão oficial. Quanto aos costumes, poucos foram mantidos.
Uma antiga banda de música desapareceu com o tempo. E um coral (que os mais antigos mantinham para suas cerimônias religiosas) foi recentemente ressuscitado, em decorrência do movimento cultural que abrange hoje as atividades da Associação dos Agricultores do Tirol e Califórnia.