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Rogério Medeiros

TIROLESES E SUÍÇOS

Tirol austríaco promove intercâmbio

A sorte deles foi o Tirol austríaco descobri-los no Espírito Santo. Os europeus do Tirol resolveram ajudar o Tirol capixaba. Várias visitas já foram feitas à região por autoridades austríacas, inclusive o governador do Estado do Tirol na Áustria. Estabeleceram um intercâmbio entre eles. Recentemente, levaram ao Tirol austríaco (com uma população estimada em 400 mil habitantes) o presidente da Associação dos Agricultores do Tirol e Califórnia, Camilo Sebastião Thomas.

Camilo foi transformado pelos seus compatriotas austríacos em celebridade nacional. Passou três meses no Tirol austríaco exposto à curiosidade nacional, que desejava saber dele a vida de seus antepassados no Brasil. Era raro o dia em que não estivesse em frente a uma câmera de televisão ou de um microfone para relatar a saga dos antepassados. Sua presença nas escolas e nas entidades culturais tornou-se também uma rotina diária. Mas o que chamou a atenção foi o fato de Camilo falar, com absoluta perfeição, o dialeto tirolês usado correntemente na Áustria, apesar de terem-se passado 144 anos desde a primeira viagem dos imigrantes para o Espírito Santo.

Apoio material exige participação do estado

Depois que Camilo regressou, começou a chegar ao Tirol capixaba a ajuda dos tiroleses austríacos: primeiro, veio um caminhão de pequeno porte, adequado às estradas da região, uma caminhonete, um trator e uma Kombi. Junto aos prédios onde funcionam uma biblioteca e uma escola de língua alemã está sendo construída uma pousada para receber os tiroleses europeus que querem conhecer os descendentes daqueles que se aventuraram há mais de um século numa terra completamente desconhecida para constituir suas famílias. Camilo retornou também com uma proposta para o governo capixaba: o Tirol da Áustria contribui com 40% das despesas para se fazer uma estrada asfaltada ligando a região ao centro econômico mais prósimo dela, com o objetivo de faciliatr a circulação de sua produção.


Principal líder político da colônia teve destino trágico devido a desavenças religiosas
Na história da imigração tirolesa, sempre cheia de aventuras, há um personagem com destino trágico: Maximiliano Salloker foi um imigrante que se destacou no início deste século como bom administrador em Domingos Martins, mas acabou assassinado por causa das desavenças entre católicos e luteranos da região. Essa discórdia marcou por muito tempo a vida dos imigrantes europeus que fundaram Domingos Martins e Santa Isabel.

Salloker veio da Áustria, tendo nascido no município de Laibach. Era filho de um médico e pertencia à elite austríaca, enquanto a maioria dos que imigraram para a região era de agricultores. Ele veio para o Brasil com a idade de 29 anos. Por causa de suas melhores condições intelectuais, acabou destacando-se na comunidade, exercendo o poder político local por 13 anos seguidos.

Salloker começou sua carreira política como fiscal do distrito de Sapucaia, que corresponde hoje a vereador. Em seguida, foi guindado à condição de presidente municipal da Câmara, que era como se designavam antigamente os prefeitos. Exerceu esse cargo de 1904 a 1917, quando veio a ser assassinado.

No decorrer de seus seguidos mandatos, foi responsável por uma série de realizações e iniciativas para melhorar a condição econômica e social do seu município. Deu início à escola pública trazendo professores de fora do país. Abriu ruas e estradas, sendo a mais importante delas a que ligou Domingos Martins a Santa Isabel. Tomou medidas até no campo ecológico, como a obrigação de se manterem limpos seus córregos.

Como principal dirigente político da região, situou-se no centro das desavenças entre católicos e luteranos, causadas por uma disputa para sediar o município. Os católicos moravam em Santa Isabel e os luteranos em Domingos Martins. Como austríaco, ele era católico. Havia ainda no seu período administrativo ocorrido a mudança da sede de Domingos Martins para Santa Isabel. Era também um homem que gozava de grande prestígio junto ao poder estadual a ponto de ter sido designado para a comissão de limites entre Domingos Martins e Castelo. Foi agraciado com as patentes de marechal e depois coronel da Guarda Nacional. Mas ele acabou sendo a grande vítima da desavença entre católicos e luteranos. Antes de vir a ser assassinado, sucumbiu o seu genro Dorsch. Sua morte ocorreu quando, na companhia do sogro, visitava a casa de um colono em Domingos Martins e acabou tomando o café envenenado reservado para o outro.

O assassinato de Maximiliano veio a ocorrer logo depois, por ocasião da abertura da estrada que ligaria Santa Isabel a Alfredo Chaves. Como a estrada não passaria por Domingos Martins, os luteranos ficaram revoltados, convencidos de que sem ela a cidade estaria sem condições de voltar a ser no futuro a sede do município. Salloker morreu a tiros, aos 55 anos, 15 dias depois de iniciar a construção da estrada.

Tirol austríaco ajuda a preservar cultura

Embora o intercâmbio iniciado com o Tirol austríaco tenha um apelo econômico muito forte, em face das carências dos tiroleses capixabas, ele volta-se muito para o lado cultural. A sobrevivência de sua cultura, através da preservação do dialeto, demonstra o quanto são ainda resistentes as culturas regionais da Europa. Isso é mais evidente no caso dos tiroleses, que não se germanizaram, como ocorreu em outra parte da Áustria. A comunidade tirolesa mantém estruturas de uma sociedade que existe há mais de cinco mil anos, nos padrões descritos pelo antropólogo Emílio Willems em "A culturação dos alemães no Brasil".


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