
De suíços mesmo, pouco restou na chamada Suíça capixaba, uma área de pequenas propriedades agrícolas localizada no município de Santa Leopoldina. Não fossem as presenças das famílias Schulthais e Prassers, não haveria certamente qualquer vestígio desses imigrantes que chegaram por volta de 1856 ou 1857 (há dúvidas quanto à data), para, junto com os tiroleses austríacos, darem início à vida da Colônia Imperial Leopoldina. Pode-se hoje calcular a atual população de origem suíça comparando fotografias de uma mesma situação: sua romaria anual ao morro do Cruzeiro, obrigatória desde a chegada desses imigrantes à região de Santa Leopoldina. Com o correr dos anos, as fotografias mostram que a população de romeiros foi ficando cada vez mais escassa.
Dos que ficaram na região, o velho Francisco Ricardo Schulthais representa o que há de mais expressivo sobre a colonização suíça. Ele descende de uma das primeiras famílias que chegaram ao lugar. Francisco foi criado na agricultura e depois no comércio, junto com 13 irmãos. O pai chamava-se Cristiano e nasceu no navio que trouxe seus avós para o Brasil. Francisco vive ainda no antigo e imponente casarão que serviu à sua família, onde criou também a dele. Ficou viúvo duas vezes.
Permanecer sozinho no casarão com sua avançada idade não significa risco para si e, muito menos, que esteja entregue a qualquer tipo de abandono. Mesmo aos 92 anos de idade, Francisco sente-se forte e disposto para curtir sua solidão, cheia de belas recordações dos frenéticos dias em que Santa Leopoldina era o centro da riqueza do Espírito Santo. Por essa razão, recusa os insistentes convites dos filhos (são sete) para ir morar com eles fora da região.
Lembranças da mocidade
A sua relação com a casa é muito gostosa - e isso se percebe imediatamente ao ouvi-lo falar de lá: "Ir para onde, se tudo que sou está aqui dentro?" Realmente não se deve retirar de seu habitat quem acostumou-se a ele por muitos anos. Pelo menos essa realidade salta aos olhos de quem manteve o mínimo contato com Francisco no seu velho sobrado. Lembrar do seu tempo de moço, do trabalho na roça, da mata onde derrubou árvores e caçou animais, é hoje um elixir de vida para ele. É ainda prazeroso para ele recordar os bailes nos quais dançou, da igreja em que assistia ao culto, da escola de alemão que freqüentou, e ainda de seus namoros, noivados, casamentos e filhos, de um ciclo de vida que também fez parte, naturalmente, de outros oriundos europeus bem-sucedidos como ele e que podem, ao final da vida, desfrutar, através da lembrança, do agitado mundo de que participaram.
O casarão, por força da mudança do trajeto entre Santa Maria e a sede do distrito de Santa Leopoldina, deixou, há pelo menos uns 30 anos, de ser a passagem de quem vinha do alto do município para o seu principal centro comercial. "Por aqui", lembra ele, "passavam todas as tropas de mulas que iam para Santa Leopoldina. Aqui se comprava também café dos colonos e se vendia mercadoria para eles".
Só solidão onde havia luxo e riqueza
Francisco se refere à época em que a produção agrícola de Santa Leopoldina era toda ela transportada por animais. Seu casario, a quatro léguas da sede do município, funcionava como a última parada das tropas que vinham com café de Santa Maria do Jetibá e lugares vizinhos. Havia também um rancho em que os animais descançavam e se alimentavam, antes de fazer a marcha final rumo à sede do município.
Hoje não se vive em solidão o velho Francisco como também seu outrora movimentadíssimo lugar. Tristeza mesmo ele só sente quando começa a falar das famílias de suíços que deixaram a região, numa verdadeira diáspora. Ele não sabe dizer com precisão para onde foram, tal o ritmo em que se dispersaram num determinado momento. Mas pesquisadores e historiadores, como Francisco Schwarz, asseguram que a maior parte tomou o caminho do Norte do Estado, outros seguiram para Vitória e alguns foram para bem mais longe, para o sul do País.