
Quem chega hoje à pacata sede do município de Santa Leopoldina não percebe, pela sua quietude, que se encontra dentro do cenário do maior entreposto comercial do Espírito Santo no início do Século XX, talvez também um dos maiores do Brasil, naquela época. São poucas as marcas que ainda registram essa fase de opulência: um ou outro casarão; um antigo e amplo estabelecimento comercial servindo agora de modesto bar; um lampião pendurado na sacada da velha casa. Mas as lembranças mais fortes talvez estejam ainda nas faces rosadas dos seus atuais moradores, onde se revelam os traços dos antigos imigrantes que fizeram a história da breve riqueza dessa pretensiosa cidade. Aliás, essa história começa realmente pelo nome da cidade.
Para homenagear a imperatriz Leopoldina, puxa-sacos do Império deram seu nome a uma colônia de imigrantes na região central do Espírito Santo, criada com o objetivo de gerar riquezas, pois para ela foram destinados somente colonos europeus recrutados para concretizar o sonho de uma economia forte e eficiente.
Até então havia algo semelhante somente no Sul do Estado, com a Colônia de Rio Novo (uma iniciativa de particulares emcampada depois pelo Império) e também os Hunsbucklers, uma etnia alemã em Santa Isabel. O resto do Espírito Santo, por volta de 1857, só existia mesmo no litoral, onde o povo tinha mais preferência por alimentar-se de peixe. No que se refere à agricultura, essa escassa população praiana só plantava para consumir. A lavoura que existia para colonização era de mandioca e localizava-se em São Mateus.
Cachoeiro, o maior porto do estado
Assim, concentrava-se na Colônia Imperial Leopoldina toda a esperança de ocupar e desenvolver o Estado em termos de agricultura. Um plano que até certo ponto deu certo. Tanto que o Porto do Cachoeiro, que mais tarde virou a sede do município de Santa Leopoldina, alcançou uma importância comercial sem igual no Estado e até no País. Tudo isso graças à ocupação de suas matas por várias correntes de imigrantes europeus, que, entre 1857 e 1878, formaram um município com sete mil habitantes. Era a mais populosa sede de imigração do Brasil, depois de Blumenau e Dona Francisca, ambas em Santa Catarina. E como na época não havia mercado interno para consumo de cereais, seus agricultores voltaram-se, basicamente, para o plantio de café. Foi exatamente esse café que fez Santa Leopoldina virar potência comercial. Suas principais empresas comerciais eram J. Reisen Ewald e Cia., Vervloet Irmão Cia. Ltda e C. Muller e Cia. Era uma época em que toda mercadoria vinha do interior do município em tropas de mulas. Não havia estradas por causa do relevo montanhoso do município.
Tropeiros e barqueiros, agentes do progresso econômico
Se a tropa foi importante para transportar do inteior para Santa Leopoldina a produção de café do município, os barqueiros do Rio Santa Maria foram vitais para leva-la a Vitória. Eles desciam com canoas que transportavam, em média, 120 sacas de café e voltavam de Vitória com mercadorias para os comerciantes da região. Geralmente essas canoas pertenciam às grandes firmas comerciais de Santa Leopoldina. O percurso até Vitória era de 50 quilômetros.
O poderio dos comerciantes de Santa Leopoldina era tão grande que apenas dois deles foram suficientes para bancar a construção da estrada ligando a cidade a Santa Teresa. A sua inauguração contou com um memorável banquete realizado no palacete dos Vervloet. Porém, com o tempo essa estrada tão pomposamente festejada (junto com outra que também foi exigência deles, ligando Santa Leopoldina a Vitória) acabou levando a cidade à decadência econômica. As estradas abriram perspectivas para que toda a produção de café descesse diretamente para ser negociada no comércio exportador de Vitória.