
Camilo Sebastião Thomas é um tirolês nascido em Santa Leopoldina que em 1994 virou celebridade no país de origem dos seus antepassados: a Áustria. Esse momento de glória ocorreu dentro do Tirol austríaco, de onde saíram há mais de um século os seus parentes para fundar em terras capixabas um Tirol tropical. Durante três meses ele viveu no Tirol austríaco falando a respeito da saga dos seus antepassados nas florestas do Espírito Santo, como eles derrubaram as árvores e enfrentaram animais desconhecidos para formar suas propriedades. A notoriedade de Thomas na Áustria obrigou-o a enfrentar diariamente as emissoras de televisão e rádio, mas isso era pouco. Passou então a ser solicitado pelas escolas para falar do passado e do presente dos tiroleses em terras capixabas. De volta à sua modesta vida de agricultor no Espírito Santo, onde é presidente da Associação dos Agricultores do Tirol e Califórnia, Camilo Thomas trouxe também novas esperanças de vida melhor para a sua região: é que os tiroleses da Áustria prometeram fazer investimentos aqui.
- Antes de conversar sobra a colonização tirolesa no Espírito Santo, gostaríamos que o senhor falasse sobre a sua ida, recentemente, ao Tirol austríaco, Ao que tudo indica, foi a primeira vez que um tirolês, nascido no Tirol capixaba, foi à terra de seus antepassados. Não é verdade?
- Sim. Tudo começou com a vinda ao Brasil de uma equipe de televisão do Tirol austríaco. Ela veio fazer um programa com os tiroleses de Santa Catarina, na região de Treze Tílias, que estavam comemorando 60 anos de imigração. De lá, a equipe de TV foi ao Rio de Janeiro para fazer um documentário com a Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, nome que é uma homenagem à imperatriz brasileira que nasceu na Áustria. Foi quando souberam no consulado austríaco que havia um Tirol no Espírito Santo. Eles vieram aqui e fizeram um documentário. Ele foi apresentado no Estado do Tirol da Áustria, mostrando parte de nossa realidade. E nossa realidade começou a repercutiu por lá. Mostrava que enquanto o tirolês de Treze Tílias está bem, nós, que somos os pioneiros, estamos Mal. Os tiroleses de Santa Catarina se desenvolveram também porque receberam muito apoio da Áustria, o que, até então, não havia acontecido com o Tirol daqui.
- Foi a partir dessa descoberta que vocês começaram a manter contato com eles?
- A nossa associação havia feito um pedido de um caminhão usado. Meses depois, chegou uma carta deles mandando ir a uma concessionária em Vitória pegar um caminhão novinho. Estava lá, pago por eles. Foi uma surpresa muito boa para nós. Em seguida a nossa associação recebeu um novo comunicado. Desta vez era ir ao Rio de Janeiro, numa outra concessionária, buscar um Saveiro novinho.Daí então veio o convite para eu ir à Áustria. Queriam me conhecer lá.
- Como você foi recebido lá?
- Fui recebido por muitos prefeitos, pelo novo governador do Tirol e pelo antigo também, pois foi este que esteve conosco aqui. Eu ia à televisão quase todos os dias. A primeira vez foi uma grande surpresa. Eu tinha acabado de chegar quando me fizeram o convite para ir à TV. Eu não sabia exatamente o que ia fazer lá. Chegando lá, me levaram para uma sala separada, arrumaram meu cabelo, me fizeram maquiagem, eu estranhei muito. Havia sido anunciado antes, mas eu não sabia "que o Camilo, do Tirol do Espírito Santo, vai falar em cadeia de televisão". Eu tomei um susto quando entrei no estúdio, e disse para mim mesmo: se estou no fogo é para me queimar. Aí tinha uma televisão na minha frente, outra do lado e mais uma em cima, onde eu via a minha cara.
- O que eles queriam de você, para trata-lo como se fosse uma celebridade?
- Era um programa de dez minutos. Mas fui falando da imigração do tirolês no Espírito Santo e eles foram estendendo o tempo. No final eu agradeci a oportunidade que me deram de conhecer a terra natal de meus antepassados. Quando acabou o programa, fui orientado para permanecer no estúdio. Ia ter mais uma parte, Houve um comercial e a TV começou a passar o número de uma conta bancária para os telespectadores ajudarem os tiroleses do Espírito Santo. Depois desse intervalo, houve mais umas perguntinhas ao vivo e acabou.
- Qual a repercussão da sua aparição na TV?
- Muitos daqueles que assistiram pela televisão vieram me abraçar. Alguns que me ouviram dizer que era a primeira vez que ia a uma televisão, me disseram que eu falei muito melhor do que os que vão à televisão todos os dias. Mas antes de sair da televisão eu quis saber do repórter que me entrevistou por que estenderam tanto o programa. Ele me disse que, durante o tempo em que estive sendo entrevistado, choveram telefonemas cumprimentando a emissora pela minha presença e outros querendo saber uma conta para eles contribuírem com os tiroleses do Espírito Santo.
- Depois desse programa o senhor compareceu a outros?
- Dei várias entrevistas a emissoras de rádio e novamente às TVs. Depois, fui convidade a ir ao Palácio do Governo. Foi quando o governador perguntou o que o Tirol do Espírito Santo precisava. Disse que nos faltavam muitas coisas, principalmente um caminhão para transportar nossa produção, que as condições de nossas estradas eram péssimas, causando enormes prejuízos para todos. Eles vão doar um caminhão, uma caminhonete, uma Kombi e recursos para a construção de uma pousada (que estrá pronta em breve) para receber visitas de tiroleses austríacos e também visitantes de outros lugares.
- Eles perguntavam muito pelos seus antepassados, sobre a saga deles no Espírito Santo?
- Alguma coisa, mas mostravam-se mais interessados nas condições atuais de vida do nosso pessoal. A televisão chegou de casa em casa no Tirol austríaco revelando tanta dificuldade nossa, que eles passaram a indagar mais como estávamos vivendo. Achavam um absurdo o fato de aqui não haver sequer telefone. Imagine saber que temos dificuldade até de transportar nossa produção agrícola, por falta de estradas razoáveis. Está certo que moramos em lugar de difícil acesso, muito montanhoso, mas são tão poucos quilômetros (apenas 17 da sede do município) que já deveriam ter condições de tráfego. Eles ainda ofereceram 40% dos recursos para asfaltar a estrada do Tirol do Espírito Santo desde que o governo do estado estivesse disposto a entrar com os outros 60%.
- Você percorreu todos os estados tiroleses? Existe um Tirol austríaco e outro italiano?
- São nove estados tiroleses. Não, eu não fui a todos eles. Fui mais às prefeituras. Não havia tempo para atender a todos os convites, só fiquei três meses na região. Para poder disciplinar os convites que recebia, eles destacaram uma pessoa para fazer a minha agenda. Eram telefonemas todos os dias. E havia muitas escolas para eu atender.
- Interessante é o momento que o senhor viveu na Áustria. Encontrou um país em excelentes condições sociais, com a população estarrecida com as reais condições de vida de vocês. Como viveu esse contraste, já que os seus antepassados saíram de lá há 127 anos, em busca de melhor situação de vida?
- Eles retribuem hoje de uma forma qualquer para os seus descendentes do Tirol capixaba. Eles estão para enviar vários tipos de ajuda. Desejam comprar para nós até uma torrefação de café, para que o café saia industrializado do Tirol do Espírito Santo para o Tirol da Áustria.
- Mas hoje a maior produção de vocês não é mais o café...
- Realmente, eu disse para eles que a maior produção nossa hoje é a banana. E esclareci que para produto bom, mercado mais ou menos. Eles estão dispostos, se o governo brasileiro concordar, e enviar um maquinário para transformar as bananas de má qualidade em vinho e licores. Eles se responsabilizam ainda pela sua montagem e transporte. Mas pagam apenas 40% do seu custo, ficando os outros 60% por conta da prefeitura e do governo do Estado.
- Quer dizer que o senhor acabou encaminhando uma série de projetos para a sua região no Tirol austríaco...
- Acabei fazendo também um cursinho de associativismo e corporativismo. Um curso de duas semanas. Depois fui levado a Viena, onde um professor todos os dias me levava para conhecer associações e cooperativas. Só nos estados próximos a Viena, rodamos de carro por 1.600 quilômetros. Todo dia era um lugar diferente. Depois eu passei os últimos dias na casa dos filhos.