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Rogério Medeiros

TIROLESES E SUÍÇOS

- Até agora falamos muito sobre a sua viagem e sua busca de benefícios para os tiroleses capixabas; queremos agora saber sua reação ao pisar na casa de onde saíram seus antepassados, e ainda reencontrar parentes que nela vivem?

- A televisão acompanhou essa minha visita à casa e aos parentes de lá. Mais de uma hora. Gravaram toda a nossa conversa. Foi uma emoção (mas ele não conseguia, tocado novamente pela emoção, relatar o que realmente se passou dentro da casa de onde saiu seu bisavô). Você se coloca no meu lugar, e imagina o que eu passei ao entrar na casa de onde saiu meu bisavô e encontrar dentro dela meus parentes, que estavam distantes do seu tronco que veio para o Brasil por mais de um século. Eles queriam saber toda a nossa história do passado. O que aconteceu com a família aqui no Brasil.

- Esse foi o último ato da televisão com o senhor?

- Não, depois da visita à casa de meu bisavô, eles perguntaram se eu já havia visto gelo. Disse que não. Então os repórteres disseram que ainda tinham um trabalho para fazer comigo. Me colocaram num carro de reportagem da TV e saíram. Quando chegou num determinado lugar, disseram que queriam gravar comigo na neve. Me botaram num trenzinho que foi subindo e subindo. E eu sem chapéu para me proteger. Embaixo era sol. Em cima, neve. Chegando lá no alto, ele parou na estação, me botaram numa cadeira e subi mais ainda. Então pediram para eu sair que iam me filmar na neve. Entrei nela e afundei até o joelho. O repórter então pediu para eu pegar na neve, dizer o que sentia. Disse que aparentava gelo, mas não era. Depois disso tudo, disseram que as minhas imagens eram para um filme a ser exibido em 1996, no milênio da Áustria. Ele será mostrado no mundo todo. E que os recursos obtidos por ele serão, também, destinados ao Tirol do Espírito Santo.

- Como o senhor aprendeu o dialeto tirolês e como ainda tornou-se professor de alemão na escola do Tirol em Santa Leopoldina?

- Eu aprendi dos pais, na convivência com o povo da região, no trabalho de catequese que iniciei na igreja aos 16 anos de idade. Eu dou aula de alemão a 43 alunos, todos eles filhos de tiroleses aqui da nossa região.

- E a igreja do Tirol, que está em más condições de conservação, há algum projeto de recuperação para ela?

- Só que essa recuperação vai começar ainda, espero que em breve. Parte do dinheiro para as obras virá do Tirol austríaco, mas o resto terá de ser conseguido por aqui mesmo. Aliás, em 1995 comemora-se o centenário da Congregação do Verbo Divino no Brasil e suas atividades iniciaram-se aqui no Tirol de Santa Leopoldina. Vão vir para os festejos de seu centenário duas bandas de música do Tirol da Áustria. Virão 300 padres para uma celebração. Mas somente em 1996 é que serão completadas as festas pelo centenário da igreja.

- Como encontrou sua família no Tirol austríaco?

- Encontrei todos bem, com trabalhos assegurados, mas modestos. Havia muitos aposentados, mas hoje são um número reduzido. Eles não chegam a 30 pessoas. A casa de meu bisavô é a mesma de onde ele saiu. Mas a família a reformou e a mantém como era originalmente. Eu quero dizer que há 20 anos sonho com essa viagem ao Tirol e, de repente, recebo uma carta da Varig para pegar uma passagem para ir ao Tirol. Conhecer a terra de meus bisavós era tudo o que sempre desejei.

- Camilo, fale um pouco de sua vida aqui no Tirol capixaba.

- Eu não nasci no Tirol propriamente. Nasci aqui ao lado, em Meia Légua. Mas já menino, eu tive sempre que ajudar o meu pai, limpar pasto, roçar cafezais. Quando fiquei maior, meu pai me botou no colégio. Era muito longe. Eu tinha que andar três horas a pé para ir e mais três para voltar. A escola que eu freqüentava era em Pau Amarelo, no município de Cariacica. Eu só podia ir à escola segunda, quarta e sexta, porque a caminhada não permitia ir todos os dias. Essa dificuldade levou meu pai a me tirar dela, para eu trabalhar com ele na roça.

- Quando vocês foram para dentro do Tirol?

- Foi quando o papai comprou o terreno onde hoje eu moro. Deixou o de Mei Légua porque era muito pequeno. Aqui era bem maior. Como o meu pai ficou com uma dívida, precisou mais ainda de meus serviços na lavoura. Quando cheguei aos 16 anos de idade, fui convidado pelos mais velhos para coordenar a igreja, o que significa também coordenar a comunidade. Comecei com catequese, batismos, crismas e casamentos. Além de cultos. Aos 22 anos me casei. Tenho três filhos, dois estão no Tirol austríaco e um está trabalhando comigo aqui na propriedade. Fui juiz de paz, agora sou juiz de menores, depois entrei na chapa do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santa Leopoldina. Me tornei seu secretário e depois presidente. Hoje sou professor da escola de alemão e dirijo a Associação dos Agricultores do Tirol e Califórnia.

- O senhor teve conhecimento das cartas que os imigrantes enviaram para o Tirol austríaco. O que elas diziam sobre o que encontraram aqui?

- Eles enviaram cartas otimistas, apesar das dificuldades enfrentadas. Falavam da floresta, da sua conquista, e tentavam encorajar os parentes a tomarem o mesmo caminho. Quem escreveu mais para parentes foi o padre Francisco Tollinger. Suas cartas são a própria história da época. Ele falava tudo, desde a construção da igreja até falecimento de pessoas conhecidas dos de lá.

- Falando de padres, o que houve com as sepulturas dos pioneiros no cemitério juto à igreja do Tirol?

- Ali havia catacumbas dos pioneiros, todas em mármore, bem-feitas. Mas chegou um padre novo para a congregação e resolveu derrubar tudo isso para dar lugar a novas sepulturas. Eu, por exemplo, não sei mais onde fica a catacumba do meu bisavô. E os tiroleses quando vêm da Áustria, a primeira coisa que eles procuram são sepulturas dos seus antepassados. Não acham porque esse padre destruiu.

- A igreja do Tirol existiu até que época?

- Em 1936 foi embora o último padre. Houve uma mudança de Diocese. Até pouco tempo antes de sair o último padre, a igreja no Espírito Santo pertencia à Diocese do Rio de Janeiro. Com a criação da Diocese do Espírito Santo, ocorreram mudanças em todo o seu território. Assim, foi para a sede de Santa Leopoldina a paróquia do município, que esteve durante muito tempo no Tirol. É por isso que nós não temos mais padre aqui. Antes da chegada do bispo para o Espírito Santo, o padre saía daqui para atender às demais comunidades católicas da região.


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