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20/05/2011

Secretário tenta explicar cancelamento de
palestra, mas emenda sai pior que o soneto


Jos‚ Rabelo


Incomodado com a repercussão da matéria publicada na última quarta-feira (18) em Século Diário, que denunciou o cancelamento repentino de uma palestra organizada pela Associação dos Servidores do Iema (Assiema), o secretário estadual de Meio Ambiente, Paulo Ruy Carnelli, enviou nota aos servidores do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema) esclarecendo os motivos do cancelamento da palestra. Entretanto, como ensina o ditado popular, a emenda saiu pior que o soneto.

Conta a história que um jovem escritor pediu ao poeta português Bocage (1765-1805), considerado o papa na arte de escrever sonetos, que apontasse todos os erros do seu humilde soneto. Bocage, estarrecido com o que leu, disse ao jovem aprendiz de poeta que não poria nenhum reparo àquelas mal traçadas linhas. Ele explicou que, se fizesse as correções necessárias, elas seriam tantas que a “emenda ficaria ainda pior que o soneto”, que já era, imagina-se, de lascar. Daí se tira a moral da história: às vezes é melhor “deixar” pra lá do que tentar remendar o que não tem mais conserto.

Carnelli, porém, não seguiu os ensinamentos de Bocage e preferiu tentar corrigir seu ato despropositado de censurar a palestra com outro ainda pior. Um trecho na nota do secretário explica: “(...) o cancelamento da palestra sobre ética não tem nenhuma relação com o tema ou palestrante, mas com a forma como o evento foi organizado (...)”. Em seguida ele avisa que “os eventos programados para serem realizados durante o expediente deverão ser submetidos à apreciação da direção dos órgãos, para evitar prejuízos ao bom andamento das nossas atividades”.

No final, na tentativa de dar um verniz democrático à mensagem autoritária, ele compensa: “(...) Consideramos relevante a discussão de temas como a ética no serviço público, que contribuem para um ambiente de trabalho saudável, a melhoria do relacionamento interpessoal e a melhoria dos serviços prestados à população. Iniciativas nesse sentido terão todo o apoio nesta gestão”, fecha a nota.

Entretanto, a emenda, definitivamente, não “consertou” o tom de censura que imperou dentro da autarquia na última quarta-feira (18), data marcada para a palestra, gratuita, do professor de direito da Ufes Júlio Cesar Pompeu. De acordo com os servidores do Iema, o diretor financeiro da autarquia procurou os funcionários tão em cima da hora para comunicar a proibição do evento, que o próprio palestrante, uma hora antes do horário da palestra, ainda desconhecia o cancelamento.

“Não entendemos o motivo da proibição, a palestra havia sido divulgada e, inclusive, o auditório estava reservado. Estava tudo certo”, disse um servidor. Outro servidor acrescentou: “Achamos estranho. Na semana retrasada o Sindipúblicos fez uma palestra no mesmo local sobre funcionalismo e ninguém se opôs”.

Se os funcionários que organizaram a palestra não entenderam o motivo do cancelamento, que dirá o professor.

Surpreendido com a notícia, Pompeu, que era um dos membros do Conselho Estadual de Ética, suspeita que o título da palestra usado pelos servidores para divulgar o evento possa ter incomodado o secretário. O material de divulgação informava que a palestra abordaria “A Ética no Governo Casagrande”, tema bastante indigesto para ser debatido dentro de uma autarquia que durante oito anos carimbou, sob o aval do ex-governador Paulo Hartung, um “punhado” de licenças ambientais para favorecer os interesses de pessoas e grupos econômicos que sempre riscaram a palavra ética das suas preferidas.

Carnelli, ex-Cesan, mais uma cria de Hartung, confirma que, também no Iema, como ocorria no governo anterior, por pior que seja a qualidade das emendas, elas ainda vão continuar desbancando os sonetos, para desespero de Bocage e da população capixaba.



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