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12/2/2010

Créditos finais


Carolina Ruas


Foto: Ricardo Medeiros


Olhando de fora, a Show Vídeo parece não pertencer à Rua João da Cruz, na Praia do Canto, repleta de restaurantes, bares e ares de modernidade por todos os cantos. Mas entrar na locadora, também é entrar em um mundo à parte. As estantes recheadas de filmes marcados por setores têm o amarelado do tempo, o que dá ao lugar um clima de loja antiga, em especial pelo sininho na porta que anuncia a entrada dos clientes. Mas quem vai lá, sabe aonde está indo. O estudante Rafael Moura, 22 anos, morador da Praia do Canto, comenta que era mesmo uma locadora bem peculiar. “Eles tinham um belo acervo. Era bem diferente de outras locadoras que só mostram aquilo que é novo... lá tinha todo tipo de filme: desde os mais velhos até os cults”, conta ele.

Para todos aqueles que vivenciaram as décadas de 80 e 90, o cinema há muito não é mais sinônimo de sala escura: foi nessa época que surgiram as primeiras videolocadoras, que logo se tornaram um fenômeno para todo o mundo, em especial para aqueles que não queriam/podiam ver os filmes serem lançados na tela grande. Com o tempo e a tecnologia, tudo fica obsoleto e vai sendo superado por algum artigo mais novo, exatamente como o VHS foi substituído pelo DVD, seguido pelo emergente Blue-Ray, cinema digital, et cetera, et cetera.

A todas essas transformações assistiu a Show Vídeo, que há mais de duas décadas funcionava no “coração” do entretenimento do bairro, o Triângulo das Bermudas. Porém, daqui a exatamente uma semana, dia 18 de fevereiro, a tradicional videolocadora pretende fechar as portas de vez, depois de ter sucumbido a concorrência dos downloads gratuitos e pirataria.

Foi para um público apaixonado por cinema “cult” e clássicos que o proprietário Valter Antônio Abreu ergueu a sua loja que, segundo ele “é um orgulho para o Espírito Santo”. Como um amante do cinema, Valter já trabalhou com isso de diversas maneiras, primeiro na faculdade de Comunicação, depois em um curso de extensão da universidade e mais tarde escrevendo críticas de cinema. “Ou seja, a minha vida toda eu assisti muitos filmes e conhecia bem a área. Quando pensei em montar um comércio, pensei logo em filmes”, conta ele.

Devagar ele foi se preparando para abrir uma videolocadora em Guarapari, reunindo filmes na casa do pai, que os amigos logo pediam emprestados. “Quando fui ver, já tinha 300 pessoas cadastradas antes de abrir as portas. Aí resolvi ficar por aqui mesmo”, explica Valter. Em todos esses anos, a locadora de Valter foi construindo uma fiel rede de clientes que se interessavam por filmes de todos os tipos, em especial os mais difíceis de se encontrar, aqueles que estão fora do circuito comercial.

O escritor Francisco Grijó é um desses clientes que, após o fechamento da Show Vídeo, devem ficar “desamparados”. “Loquei todo tipo de filme, desde os blockbusters até os chamados filmes de arte - que, aliás, era uma particularidade da locadora. Não conheci nenhum estabelecimento do tipo que possuísse tantos títulos de cinema europeu, asiático, clássicos norte-americanos das décadas de 40, 50 e 60, como a Show Vídeo”, explica. Cliente desde a década de 90, Grijó concorda que o acervo da locadora é algo incomparável em Vitória e lamenta a falta desse tipo de filme disponível na cidade.

Como é basicamente o mercado norte-americano quem dita o que chega ou não às locadoras do Brasil, as produções de outros países são raríssimas no Espírito Santo. E para quem se dedica a estudar cinema isso é um fator extremamente complicado.  A estudante Cristiana Euclydes, 22, foi praticamente educada cinematograficamente com a Show Vídeo. “Era perto da minha casa, então eu sempre ia lá. Na verdade, eu só percebi que era diferente depois que eu entrei nas outras”, explica.

Depois de um tempo, ela passou a freqüentar o Grupo de Estudos Audiovisuais - o Grav, um cineclube e grupo de estudo da Ufes que prioriza conhecer filmes de vários lugares do mundo. “Em 2006, o Grav fez uma parceria com a locadora, porque a gente sempre pegava filme lá, porque só lá que tinha. A gente divulgava a locadora em nossos cartazes, pela Internet, com outros cineclubes e eles davam o filme que a gente ia exibir na semana”, explica Cristiana. E completa “agora vou ter que pedir pras pessoas baixarem pela Internet”.

Cineclubes, professores, jornalistas e cinéfilos em geral são a grande parte dos que vão ficar “órfãos” da Show Vídeo que, aos poucos, foi diminuindo o rendimento, conforme a pirataria e o download foram ficando mais comuns. “A renda é decrescente e não compensa manter a estrutura com tanta pirataria por aí”, explica Valter. Ele, sem nenhuma sombra de dúvida, considera que até então tem feito um trabalho cultural. “Minha preocupação nunca foi só entretenimento, mas sim cultura. É uma espécie de protesto, inclusive”, diz. Valter protesta contra a pirataria e a falta de consideração dos órgãos públicos e anuncia: “Não sou só eu que tô desistindo. Tem mais gente querendo sair do ramo”.

A Show Vídeo depois de todos esses anos virou símbolo de resistência ao mercado das videolocadoras de blockbusters. Mas ela não é a única. Ao cruzar a ponte até Vila Velha, é possível encontrar a Canal Doce Vídeo, a mais antiga videolocadora em funcionamento de Vila Velha, no mercado há 22 anos. Localizada na Prainha, nas cercanias do Convento da Penha, o que no início era apenas uma loja de doces, com o tempo acabou se tornando uma das únicas locadoras do estado que mantém um acervo de filmes clássicos e preza pela sétima arte.

Assim como a “irmã” que está fechando as portas, a Canal Doce Vídeo tem boa parte de seu acervo em VHS, ainda que seja uma mídia difícil de se veicular. Ainda assim, é freqüentada por cinéfilos, seus filhos e até os netos de antigos clientes, que são fiéis à locadora. Há cerca de dois anos, a loja passou a disponibilizar acesso a Internet, numa tentativa de “se reinventar” e agora tenta conciliar as duas atividades sem perder a paixão pelo cinema.

Voltando à Show Vídeo: no futuro, Abreu pensa que nem vão existir mais locadoras, só as pequenas e fortuitas. Para a publicitária Amanda Magalhães, 25 anos, que também aprendeu cinema indo a Show Vídeo, acredita mesmo que a locadora não tenha conseguido se reinventar, mas que não acredita no fim da era das locadoras, não. “Já existem algumas locadoras virtuais, inclusive uma em Vitória, você faz tudo pela Internet, o DVD chega na sua casa e depois alguém vem buscar”, conta.

Por enquanto, os amantes de cinema e os clientes da locadora podem comprar os títulos do vasto acervo que estarão à venda loja, incluindo títulos em VHS, mas muito em breve, vão precisar mesmo é recorrer à Internet para conseguirem achar os filmes raros. A Show Vídeo fecha as portas em breve e Valter afirma que o local deve virar um outro tipo de comércio que ele não divulga por ora. Não será, como a Show Vídeo, um desses trabalhos que se faz por amor.



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