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Século Diário
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Montanha da Nuvem Branca
BREVE HISTORICO DO MOSTEIRO
MORRO DA VARGEM
A flor de lótus é uma flor branca,
Linda, imaculada. E ela nasce na lama.
Não nasce dentro da água limpa.
Provérbio Zen.
Na língua dos índios tupiniquins, Ibiraçu significa " Árvore Grande " . Mas no início da década de 70 quase não existiam mais árvores nativas de grande porte no alto do Morro da Vargem, situado entre montanhas na região de Ibiraçu, ao norte do Espírito Santo. Embora ainda resistissem pequenas manchas de cobertura florestal, a exploração econômica das terras causara grande devastação. A densa vegetação original de Mata Atlântica cedera lugar às pastagens e plantações de café. O topo do morro era de difícil acesso, com trilhas íngremes, esburacadas e extremamente escorregadias nas temporadas de chuvas. Atingir o cume exigia um bom tempo montado em lombo de cavalo ou inúmeros solavancos no assento de um jeep.
Nesse local isolado, porém ainda de intensa beleza, com enormes vales e montanhas nas vizinhanças, o mestre japonês Ryohan Shingu fundou o primeiro mosteiro budista de toda a América Latina. Eram os últimos dias do inverno de 1974 quando surgiu o Mosteiro Zen Morro da Vargem, ou, em japonês, Hakuun Zan Zenkoji (Monte da Nuvem Branca / Templo da Luz do Zen). Até então, no Brasil, além de poucos imigrantes japoneses mais velhos,
quase ninguém sabia exatamente o significado da palavra zen. O rigor, a sutileza e o refinamento dessa mistura de religiosidade com caminho de vida começavam a exercer crescente atração em pequenos grupos de brasileiros, especialmente mais jovens. Raros, porém, sabiam como praticá-la.
Foi essa necessidade de conjugar vontade e prática que fez a roda do Dharma girar mais uma vez, colocando o Brasil na rota milenar do zen budismo. Se no ano passado longínquo os ensinamentos do Buda migraram da Índia para a China, de lá para o Japão, atingindo séculos depois a Europa e a América, chegara o momento de criar-se no país um centro de treinamento e formação para monges, bem como de prática para leigos. A semente do lótus estava plantada.
No início, muitas dificuldades tiveram que ser vencidas. Os templos funcionavam em rústicos casebres de madeira com telhados de lascas de árvores, cobertos com palha de palmeira, e janelas amarradas com tiras de cipó de embira. Uma das casas servia para o repouso e a alimentação dos monges. Em outra improvisou-se um zazendô (sala de meditação), indispensável para o dia-a-dia de um mosteiro zen. Sinos, tigelas, almofadas, esteiras de palha de arroz, incensos, eram transportados em lombo de burro. Tudo era feito à luz de lamparina: onze anos se passaram sem que houvesse energia elétrica.
Mesmo enfrentando difíceis desafios naturais, pouco a pouco a prática budista foi se estabelecendo, seguindo a linhagem secular da escola Soto Zen, introduzida no Japão no século XIII pelo mestre Dogen Zenji (1200 - 1253), fundador do Mosteiro Eihei-ji, em 1244. Por quase uma década a chama dhármica manteve-se acesa, mas somente nove anos depois a vida monástica começa a se solidificar, sem interrupções, no alto do Morro da Vargem. Em 1983 são dados passos decisivos na direção de um diálogo mais intenso com as comunidades vizinhas, inicia-se um grande projeto ambiental de recuperação e conservação das matas, e redige-se as primeiras páginas do Tenken-nishi, tradicional diário onde são registradas as atividades cotidianas de todo mosteiro.
O grande marco para a consolidação do treinamento monástico e, principalmente, da prática para leigos aconteceu em 1989 - quinze anos depois da fundação do mosteiro - , com a pavimentação da estrada de acesso. Com isso, venceu-se o isolamento físico. Chegar ao topo do morro tornou-se mais fácil e as luzes do Dharma passaram a atingir um número maior de pessoas. Conta-se que, no passado ancestral do budismo, Bodhidharma, o introdutor do zen na China, manteve-se por nove anos virado para a parede.
De alguma forma, o mosteiro Morro da Vargem permaneceu 15 anos voltado para dentro de si mesmo. Com a nova estrada, virou-se para o mundo e abriu definitivamente suas portas.
Outro fato, ainda no mesmo ano, veio solidificar ainda mais o alicerce monástico: a visita missionária do tutor espiritual Narazaki Iko Roshi, um dos grandes mestres contemporâneos, então abade do tradicional mosteiro Zuiou-ji, fundado há mais de 700 anos na ilha de Shikoku (Japão).
Desde essa época, além de atrair leigos de todo o Brasil nos períodos de sesshin (treinamentos intensivos, de três a sete dias), o mosteiro ampliou sua estrutura, já com um Sodô (Templo da Meditação) e Hattô (Templo do Buda) - segundo a arquitetura tradicional e as recomendações milenares -, cozinha e alojamentos para dezenas de monges e praticantes. O trabalho de recuperação ambiental ganha também um grande impulso: milhares de árvores nativas são plantadas, convênios são firmados com universidades e organizações públicas e privadas para proteção das matas, e milhares de estudantes visitam as trilhas do morro, num programa de educação ecológica.
Com a prática monástica cotidiana e ininterrupta, seguindo a tradição dos ancestrais mosteiros japoneses, mas , ao mesmo tempo, com o frescor de uma nova floração, dentro de outra realidade, outro continente, outro país, o Mosteiro Zen Morro da Vargem finca suas raízes definitivamente no solo brasileiro. Anos após o plantio da semente, o lótus búdico finalmente floresce com firmeza no alto da montanha da nuvem branca.
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