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Mente Sentada

O COTIDIANO DA VIDA MONÁSTICA

Existe alguém que, embora não tenha
comido arroz por muito tempo,
mesmo assim, não sente fome. Existe
outro que, apesar de comer arroz
todo dia, não se sente satisfeito.
Mestre Hui-Hai

Todas as manhãs, monges e praticantes acordam antes do sol para simplesmente ficar em silêncio. Sentados em posição de lótus diante de uma parede branca, coluna ereta, respiração abdominal, os dedos da mão esquerda pousados dentro da mão direita, polegares unidos, formando um mudra num ponto um pouco abaixo do umbigo, pacientemente observam o funcionamento da própria mente. Durante 40 minutos, imóveis e silenciosos, praticam o zazen (a "meditação sentada"), um dos pilares centrais da vida cotidiana do Mosteiro Zen Morro da Vargem, como de todos os outros da linha Soto Zen espalhados pelo planeta.

Requintada postura corporal, transmitida de mestre para discípulo através de mais de dois milênios e meio, o zazen nada tem a ver com reverências ou pedidos de graças ao Buda. Ao sentar-se na esteira de palha de arroz do Sodô (o Templo da Meditação), o que se faz é um atento estudo de si mesmo. Nesse período de tempo, monges e praticantes silenciosamente observam a realidade como ela é, sem anteparos teóricos.

Mas tão importante quanto os minutos de concentração durante o zazen, é levar essa "mente sentada" para todas as atividades diárias. Por isso, tudo no alto do morro é organizado para manter a mente concentradamente distraída ou distraidamente concentrada. Desde o canto dos sutras, as posturas cerimoniais, o toque dos sinos, até o banho, as refeições, o trabalho ou a troca de sandálias na entrada dos templos, são tratados com a devida atenção e fazem parte efetiva do treinamento de monges e leigos. Não existe nada no mosteiro que não seja uma prática de meditação, que não seja zazen. Se o Sodô é essencial para a vida monástica, a cozinha está no mesmo nível de importância, tanto que é considerada também um templo, assim como a sala de banho (cujo guardião, Baddabara Bosatsu, iluminou-se enquanto se banhava), os sanitários e o Hattô (o Templo do Buda). No Templo da Meditação alimenta-se a mente, no Templo da Cozinha alimenta-se o corpo. Para os budistas não existe mente sem corpo nem corpo sem mente. Nada está separado.

As refeições são realizadas em silêncio. O trato com o Oryoki (conjunto de tigelas) segue um código sofisticado, que, mais uma vez, chama a atenção do praticante para aquilo que está fazendo naquele momento. O respeito com o alimento fornecido pela natureza é expresso pelos sutras de agradecimento antes (Quando comemos e bebemos/ Rezamos juntos com todos os seres/ Comer é a alegria do zen/ E ficamos cheios da felicidade do Dharma) e depois da refeição (Comida pura já comemos/ E rezamos juntos com todos os seres/ Para ficarmos cheios de virtudes/ E realizarmos os dez tipos de forças). Ao final, nem um grão de comida deve sobrar nas tigelas. O zen abomina o desperdício.

Mente e corpo alimentados, o trabalho surge como o terceiro elemento fundamental na vida monástica. Tão essencial que pode ser compreendido pelo clássico provérbio do mestre Hyakujyo: "Um dia sem trabalho, um dia sem comida". No Mosteiro Morro da Vargem as jornadas incluem a limpeza dos templos, o preparo das refeições, o cultivo da terra para subsistência, a extração de mel e a conservação das matas. Mais uma vez o budismo reafirma a necessidade da prática do treinamento zen, sem hierarquias, sem ordens de importância.

Permeando toda essa rigorosa disciplina - voltada para a leveza das posturas e a liberdade da mente, e não para a estagnação -, o bom humor é a marca registrada no cotidiano do mosteiro. Não são raras as brincadeiras, as respostas inesperadas e a vivacidade nos mínimos gestos. Trata-se de uma tradição no budismo. Diante da mitificação, da idéia de pecado ou do temor a deuses poderosos e severos, o zen trata o próprio Buda sem dogmatismo. Em vez de escrituras sagradas, prefere transmitir a lâmpada do ensinamento através de histórias engraçadas, aparentemente sem sentido, mas sempre com um toque sutil. Como esta: um monge atravessou toda a China a pé para encontrar-se com um dos grandes mestres de sua época. Quando finalmente foi recebido, insistiu para que ele lhe ensinasse a limpar a mente: "Simples, é só não pensar em macacos", disse-lhe o mestre. Um tanto confuso com o conselho, dias depois o monge voltou, implorando: "Mestre, não quero mais limpar a mente, mas, por favor, me ajude a me livrar dos macacos ."

Com humor, disciplina e concentração, os monges e praticantes levam uma vida simples, porém com requinte milenar. Os minutos de meditação são marcados com varinhas de incenso. Sinos soam avisando o horário de despertar, de comer, de trabalhar, de descansar. O tempo tem cheiro e voz. E, sobretudo, nos lembra que o zen, assim como a vida, está fluindo ininterruptamente em todos os lugares. Basta que cada pequena ou grande atitude seja feita com a mente e o corpo unos. Isso é o que o budismo chama de estar presente no aqui e agora.



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