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Século Diário
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| Texto Fernanda Couzemenco / Fotos Ricardo Medeiros - (reportagem publicada na edição n° 9 da Revista Século / novembro de 2000) |
Replantando a vida
| Projeto do Governo federal pretende replantar 14 mil ha
de mata Atlântica no Estado em cinco anos.
É a única saída para evitar sua extinção
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O lançamento de projetos com o porte e a pretensão do Corredores Ecológicos deixa claro a que ponto chegou a vulnerabilidade de nossos ecossistemas naturais e, por conseqüência, da perpetuação da própria espécie humana. A palavra de ordem agora _ encampada por instituições governamentais e não governamentais _ e uma das metas dos projetos dos Corredores é a reconstituição de ecossistemas dizimados. Ou seja, não basta mais preservar o que ainda existe, investindo em fiscalização e cumprimento da lei _ rigorosa e muito eficiente, diga-se de passagem. É preciso partir para o replantio de árvores _ com o objetivo de interligar as pequenas áreas de florestas naturais dispersas entre si.
O resultado dessa reconstituição artificial, é claro, não chegará nem perto do ambiente original, mas é tida como a única maneira de se garantir que esses ecossistemas não desapareçam definitivamente, por si só, em poucas décadas. "A situação já está alarmante há muitos anos, e agora estamos próximos do momento em que não pode mais haver solução", admite o professor de Zoologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e membro do comitê que vai coordenar o projeto no Estado, Sérgio Lucena Mendes.
O professor se baseia em estudos que indicam que as reservas de florestas tropicais devem ter uma área mínima de 100 mil hectares para garantir a conservação de sua biodiversidade. As reservas menores, explica o professor, sofrem mais com o chamado "efeito de borda". Devido ao pequeno tamanho, elas não conseguem se proteger da ação do vento, da luminosidade do sol, da presença do homem e de outros agentes externos. "Teoricamente, nenhuma das atuais unidades de conservação da Mata Atlântica garante a manutenção da biodiversidade desse ecossistema. A única exceção está na região da Serra do Mar, entre São Paulo e Paraná, onde existe uma reserva de 300 mil ha", informa Lucena. No Espírito Santo, os números envergonham.
A maior área contínua de Mata Atlântica no Estado está localizada no Norte, entre os municípios de Linhares e Sooretama, e tem apenas 44 mil ha. Somando-se todas as unidades oficiais de conservação e as áreas privadas, o total de floresta é de 402.392 ha, ou 10% dos 4 milhões de hectares originais. E, desse total, o índice de mata primária fica entre 2% e 5%.
No restante do país a situação não é muito diferente. Além de insuficientes e dispersas, as reservas de Mata Atlântica do Brasil continuam sendo devastadas a uma velocidade inacreditável: o equivalente a um campo de futebol a cada quatro minutos, 16 por hora e 390 por dia, segundo cálculos das organizações não governamentais S.O.S. Mata Atlântica e Conservation International, no ano passado. Apesar da situação emergencial, o replantio de árvores previsto pelos Corredores Ecológicos só deve acontecer em uma fase avançada do projeto. A primeira, de planejamento de ações, será iniciada este mês de novembro, com a assinatura do convênio entre o Ministério do Meio Ambiente e o banco alemão KFW, financiador do projeto. O orçamento total é de US$ 13 milhões, a serem aplicados na Bahia (US$ 7,5 milhões) e no Espírito Santo (US$ 7,5 milhões) durante um período de cinco anos. Desse total, cada Governo estadual vai entrar com uma contrapartida de 15%, ou US$ 1,95 milhão cada um.
A equipe que vai coordenar o projeto no Espírito Santo será a mesma que forma o Comitê Estadual da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica do Estado, constituído por representantes de sete organismos governamentais e sete não governamentais. A coordenação geral é da Secretaria Estadual para Assuntos do Meio Ambiente (Seama), representada pelo gerente de Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável do órgão, Marcelo Mores.
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A pedra azul é um dos pontos turísticos do Estado
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O comitê também vai ser responsável pela seleção de projetos particulares que podem auxiliar a definir a metodologia de execução dos Corredores. Para dar início ao projeto, foram escolhidas quatro unidades de conser vação piloto: Parque Estadual Pedra Azul (1.240 ha), Parque Estadual Itaúnas (3.150 ha), Parque Estadual Forno Grande (621,2 ha) e Reserva Biológica de Sooretama (22 mil ha). A primeira medida é fazer a implantação efetiva dessas unidades, o que significa dotá-las de Plano de Manejo e estrutura física necessária para seu perfeito funcionamento. A partir daí, a meta é começar a dar forma aos corredores no entorno de cada uma delas. O gerente de Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável da Seama afirma que não serão feitas desapropriações de terra.
Novas reservas, só se forem particulares, as chamadas RPPNs (Reserva Particular do Patrimônio Natural). Nelas o proprietário se compromete oficialmente a preservar a área de mata de sua propriedade, recebendo em troca alguns incentivos fiscais. Essa será a principal estratégia do Comitê para estabelecer os corredores de floresta, mas é também o principal complicador do projeto. "O mais difícil será convencer os proprietários e os produtores agrícolas a não desmatarem mais suas terras, fazê-los entender que essa atitude é a única saída para evitar prejuízos futuros com a escassez de recursos hídricos e a exaustão do solo. Uma das táticas será oferecer lhes alternativas de utilização econômica da floresta, com o cultivo de algumas espécies, como palmito", reconhece Mores.
O professor Sérgio Lucena acredita que o trabalho de convencimento e educação ambiental dessas pessoas tem que ser multidisciplinar, envolvendo profissionais de Biologia, Ecologia, Saúde, Educação, Assistência Social, Agricultura, entre outros. "Em muitas comunidades rurais, há deficiência de serviços de saúde e educação, de técnicas agrícolas modernas. A universidade e o Governo podem oferecer-lhes ajuda nesse sentido, em troca da preservação da floresta", sugere. Lucena trabalha atualmente na elaboração de um projeto nesses moldes a ser implantado na região de Santa Teresa, onde existem três unidades de conservação: Estação Biológica Santa Lúcia, Reserva Augusto Ruschi e Estação Biológica São Lourenço. "Se der certo, podemos levar a idéia para outras reservas", conta Lucena.
Depois de criados os corredores a partir das áreas de mata já existentes, será dado início à fase de reconstituição, através do plantio de árvores, principalmente em altos de morros, ao redor de nascentes, ao longo dos rios e em área degradadas. "Sendo muito ousados, podemos prever o plantio de quatro mil hectares por ano, o que daria, dentro de uma previsão otimista, 14 mil hectares ao final do programa", admite Mores. Para atingir os 20% de Reserva Legal, definidos pelo Código Florestal, seriam necessários 12 anos de trabalho. Um sonho? "Não deixa de ser, mas não é impossível de ser realizado. O programa tem que ter continuidade depois", afirma. O professor Sérgio Lucena concorda. "Mesmo porque, chegamos a um ponto em que não há muita saída".
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