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Texto Rogério Medeiros
Fotos Rogério Medeiros

A matéria especial de Rogério Medeiros desta semana mostra todo o drama em que se transformou a busca da "Terra sem Males" pelos guaranis, há 36 anos. Esta terra estaria localizada em território capixaba. O texto foi redigido e publicado na década de 70, quando os guaranis chegaram ao território capixaba.


A "Terra sem Males" está no Litoral Capixaba
Depois de 36 anos de incessante busca à "Terra sem Males" - utopia que faz parte das tradições de alguns grupos guaranis - Tatanti-Roa Retée viúva do pajé Miguel Venites, está convencida de que finalmente chegou ao lugar prometido. Seu clã, composto de 48 índios, ligou-se a remanescentes tupiniquins, apossou-se de uma densa mata de 40 alqueires, na enseada de Santa Cruz, no município de Aracruz, e ali se instalou "para sempre" (ou pelo menos até que proteste a Aracruz Celulose, multinacional que tem a propriedade das terras indígenas).


O local que esses índios guaranis passaram a ocupar tem todas as características da terra "da abundância e da fertilidade", segundo a guia do grupo. Longe da civilização, permite que seus novos habitantes vivam isolados e independentes, plantando, caçando e orando.
A região realmente se assemelha à idéia que os índios têm de sua "Terra sem Males". Para começar, fica no litoral, só se chegando a ela através de bote ou de balsa. Tudo indica que a mata, que se desbruça por cima das águas, nunca foi explorada pelo homem branco. A Aracruz Celulose, logo que se apossou daquele território indígena, reservou-o para refúgio dos animais desalojados da imensa floresta natural onde plantou seus eucaliptos. Quanto aos índios, foram simplesmente expulsos dali.

A primeira providência que Tatanti-Roa -Retée tomou, ao se apossar do seu quinhão da mata (a outra parte fica com os tupiniquins), foi mandar erguer a casa coletiva(Opu) e a casa das festas. Nesta, os índios farão suas orações para consolidar a crença na "Terra sem Males". A vida tribal foi imediatamente restabelecida em todo o grupo. Seu novo pajé passa a ser Kuaraí, segundo marido de Tatanti-Roa-Reté. A esta caberá, no entanto, a missão de dirigir a comunidade no plano religioso.

Ela já mandou buscar em Peruibe( reserva indígena próxima ao Vale da Limeira), em São Paulo, um índio carajá, Piaju Aduru, para exercer a missão de médico de aldeia. E dentro do interesse de resguardar ao máximo o isolamento do grupo, fez um pacto com os seus companheiros de invasão, os tupiniquins: esses ficarão ao Norte, cabendo-lhes a maior parte do território ocupado, enquanto os guaranis se fixarão ao Sul, protegendo-se por um cordão florestal e beneficiando-se, o que é fundamental, da topografia desse terreno, que favorece a imagem da terra prometida.

Todavia, a perseguição obstinada desse território, por motivos ligados à "Terra sem Males", explica inclusive a destemida posição que eles assumiram de não abandoná-la e buscá-lo até a morte, como deram demonstrações certa ocasião, quando se depararam com um forte contingente policial, disposto a expulsá-los. O cacique Kuaraí reagiu, dizendo:
- Os senhores fizeram muito mal em chegar aqui. Essa terra de índio não é para branco pisar.
A uma ordem severa para deixar a floresta, o cacique ainda respondeu:
- Nós só sairemos daqui mortos, como prometemos a Tatanti-Roa-Retée. Da próxima vez, branco só pode chegar convidado por índio.

Embora especialistas sobre a cultura guarani, como Egon Schagen e Helène Clastres, interpretem a "Terra Sem Males" como uma visão do paraíso, onde o milho cresce sozinho e as flechas vão também sozinhas à caça, não é essa a idéia que dela tem Tatanti-Roa-Retée. A guia religiosa, na verdade, acredita, numa terra livre sem prescrições onde eles vão viver na fertilidade, em comum com tupã, porque acham que tupã está dentro daquela mata.

Essa imagem da "Terra Sem Males", foi transmitida por Tatanti-Roa-Retée, embora tenha usado a sua filha, Kerutu-Mirim, para traduzir para o repórter, já que ela, como ex-viúva do pajé e posteriormente guia religiosa do grupo, está impedida de falar a língua do branco. Tatanti-Roa-Reté conta como foi essa caminhada que se iniciou no Rio Grande do Sul, há 36 anos, quando ela, ao lado do seu primeiro marido, saiu em busca da "Terra Sem Males".

Deixaram o posto indígena de Guarita, ainda na década de 40, com mais dois clãs que seguiam a orientação religiosa de Miguel Venites. A primeira localidade litorânea que procuraram foi Pelotas, ainda no Rio Grande do Sul. Desse ponto, observando sempre o mar, iniciaram a longa e penosa marcha, rumo ao Norte do País.

A forma que encontraram para sobreviver foi o artesanato, confeccionando e vendendo peças de imitação de suas armas guerreiras, adornos e objetos de danças religiosas. No Estado de São Paulo, a marcha foi interrompida. Elementos do SPI (Serviço de Proteção ao Índio) recolheram os três clãs à localidade de Tariri, onde ficaram por mais de 10 anos. Entretanto, inconformado com a violenta interrupção de sua marcha religiosa, o pajé Miguel Venites resolveu retomar o litoral. Mas, desta vez, só foi acompanhado pelo seu clã, que na época era constituído de apenas 20 índios. O resto do grupo resolveu ficar definitivamente em Tariri. Haviam abandonado os hábitos religiosos da nação guarani.

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