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Século Diário
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Texto Rogério Medeiros
Fotos Rogério Medeiros
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A matéria especial de Rogério Medeiros desta semana mostra todo o drama em que se transformou a busca da "Terra sem Males" pelos guaranis, há 36 anos. Esta terra estaria localizada em território capixaba.
O texto foi redigido e publicado na década de 70, quando os guaranis chegaram ao território capixaba.
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A "Terra sem Males" está no Litoral Capixaba (Continuação) |
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O pajé, já velho e doente, não resistiu sequer ao reinicio da jornada: morreu quando o grupo mais se aproximava do litoral, na localidade de Silveira.
Antes de pressentir seu fim, pediu à mulher que buscasse a "Terra Sem Males". Tatanti-Roa-Retée tomou logo a liderança do grupo e prosseguiu a marcha até a região de Parati, Rio de Janeiro, onde os guaranis permaneceram cerca de seis anos. A justificativa apresentada por ela para essa segunda parada mais prolongada é a de que seu segundo marido, também um índio guarani (atual cacique do grupo), resistia à idéia de abandonar Parati, por achar que ali viviam relativamente felizes. Ele julgava que mais na frente, invariavelmente, cairiam em outra reserva indígena, julgando todas elas iguais à de Peruibe, onde os índios viviam muito mal, entregues aos vícios da civilização. Mas os seus argumentos não foram suficientes para deter a mulher. Ela reiniciou a marcha sem ele, embora essa decisão viesse a custar o sacrifício de seu segundo casamento, porque Kuaraí preferiu ficar sozinho em Parati.
O grupo levaria mais alguns anos para alcançar Caieiras Velhas, no litoral Norte do Espírito Santo. Tiveram, então, a primeira idéia de que se encontravam próximos à "Terra Sem Males", em razões de particularidades da topografia da enseada de Santa Cruz, percebidas quando de sua travessia para Caieiras Velhas. Reforçava, mais tarde, essa impressão, o fato de viverem os seus melhores dias mais adiante, quando encontraram os donos do lugar, índios tupiniquins, que viviam felizes em suas terras, pescando, caçando, embora dois terços do seu extenso território já tivessem sido tomado por posseiros.
Mas esse período de rara alegria, na companhia dos tupiniquins, durou somente de 1962 a 1966, quando a Aracruz celulose passou a ocupar todo esse território indígena.
Renitentes, e ainda ficaram por lá até por volta de 1970, quando foram finalmente expulsos. Andaram, depois, mais de dois anos perambulando pelo litoral capixaba, sobrevivendo penosamente à custa de seu artesanato, até o dia em que a Funai veio buscá-los para confiná-los na Fazenda Guarani, reserva indígena que ela mantém em Carmézia, Minas Gerais. Do grupo, apenas Tatanti Roa-René protestou contra a mudança.
Esse confinamento imobilizava, sobretudo, os ágeis movimentos da persistente guia religiosa, que entre outras coisas conseguiu, como uma perfeita guardiã de sua gente, preservar a pureza racial do grupo. Esse zelo chegava ao cúmulo de impor algumas paralisações na marcha, sempre que havia um guarani ou uma guarani em condições de casar.
Tatanti-Roa-Retée levava o rapaz ou à moça a qualquer reserva indígena da Funai para desposar outro guarani. Desse instinto de conservação não escapou, sequer, o seu filho predileto, Veramim (João). Este, quando ficou viúvo, desejou casar com uma índia tupiniquim, por quem estava apaixonado.
Mas, para sua surpresa, a mãe apareceu com uma índia guarani para ser sua noiva. Apesar de tê-la rejeitado de início, foi obrigado a casar com ela. Dessa maneira, os guaranis foram sempre casando entre si, além de só falarem o tupi-guarani, porque o português é proibido pela líder religiosa.
Embora tudo tenha sido adverso na Fazenda Guarani, o grupo se manteve coeso até 1976, quando retornou a Caieiras Velhas, escapando da vigilância da Funai.
Como da vez passada, o lugar voltava a oferecer uma nova surpresa agradável, a despeito de não existirem mais terras indígenas.
Encontraram perdido e solitário, entre os remanescentes tupiniquins e centenas de peões da Aracruz Celulose, o antigo cacique Kuaraí.
Sem perspectiva de sobrevivência, ele tentava aprender a pescar com os tupiniquins, pois era essa a única ocupação econômica que havia restado aos índios da região. Mesmo assim, eles resolveram ficar em Caieiras Velhas. Conseguiram uma casa velha com o amigo Josenil Gonçalves, o "alagoano", barqueiro que sempre os defendeu. Valendo-se, mais uma vez do artesanato, sobreviveram parcamente, até que Tatanti-Roa-Reté chegou à conclusão que a "Terra Sem Males" estava a poucos passos de Caieiras Velhas, nessa insólita e solitária floresta, cercada pelo mar e pelos eucaliptais da Aracruz Celulose. Os índios mais velhos do grupo, obedecendo à sua ordem, fizeram, então, no início do mês, a invasão da mata, celebrando no último fim de semana o seu primeiro culto religioso.
Foi então que, finalmente, Tatanti-Wua-Reté conversou com Deus e deu por encerrada a sua missão de conduzir seus índios à terra prometida.
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