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Texto Fernanda Couzemenco / Fotos Ricardo Medeiros - (reportagem publicada na edição n° 9 da Revista Século / novembro de 2000)

Projeto nasceu no G-7

Reserva de Sooretama
Além do Espírito Santo e da Bahia, o projeto dos Corredores Ecológicos vai atingir também a região amazônica. Mas lá não está prevista a reconstituição da floresta, sendo necessário somente a definição de grandes áreas contínuas nas quais o desmatamento será terminantemente proibido, e formas de fiscalização mais eficientes. Nesse caso, o objetivo é evitar o que aconteceu na Mata Atlântica, onde apenas as unidades de conservação oficiais são preservadas e as áreas de floresta entre elas são exterminadas, aumentando o isolamento e a vulnerabilidade das mesmas. A idéia de criar os corredores ecológicos para proteger essas duas florestas brasileiras nasceu dentro do Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais do Brasil, mantido pelo grupo dos sete países mais ricos do mundo, o G-7.

Depois de três anos em banho-maria, começou a ser colocado em prática este ano, com a assinatura dos convênios de financiamento.


As artérias ecológicas

Yvon, estudioso da Mata Atlântica
O programa Corredores Ecológicos não é a primeira tentativa ambiciosa voltada para a conservação ambiental em larga escala. Quem não se lembra da criação das Reservas da Biosfera, a partir de 1972, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco)? Mais recentemente há o exemplo da organização não governamental Conservation International, que saiu à cata de contribuições para comprar, por US$ 5 bilhões, uma área correspondente a 1,4% da superfície da Terra, onde se localizam os ecossistemas mais ricos e ameaçados do planeta e declará-las reservas naturais.

Até agora já conseguiu US$ 25 milhões do Banco Mundial, US$ 200 milhões de uma instituição privada americana e US$ 35 milhões do milionário Gordon Moore, fundador da empresa Intel. Mas entre esses e tantos outros megaprojetos, talvez o mais revolucionário seja o do ecólogo e consultor agrícola alagoano Yvon de Araújo Yung-Tay. Morando no Espírito Santo desde 1949, Yung-Tay já desempenhou vários cargos de gerência em órgãos públicos e privados, principalmente voltados à agricultura. Mas já foi também secretário de educação e diretor do Departamento de Cultura de Vitória. Hoje, aposentado e com 74 anos de idade, dedica-se a consultorias, estudos e projetos pessoais que lhe despertem paixão. Entre eles, está um em especial, o das "artérias ecológicas".

A idéia começou a surgir na década de 50, quando Yung-Tay foi diretor da Estação Experimental de Goytacases, do Ministério da Agricultura. Entusiasmado com a cultura do cacau, estabeleceu uma meta de expandi-la por todo o Estado. "É uma cultura que dá dinheiro e está em perfeita harmonia com a conservação da biodiversidade", justifica. A partir daí, passou a estudar técnicas para a conservação da água e do solo e a delinear o projeto das artérias ecológicas. O objetivo é o mesmo do Corredores Ecológicos: estabelecer áreas contínuas de floresta para garantir a perpetuação da biodiversidade. A diferença está no critério que guia a escolha dos locais a se criar as faixas de floresta. Enquanto nos corredores a orientação é a existência de reservas, nas artérias a base é a demarcação das "isoietas". São linhas imaginárias que ligam pontos onde a pluviosidade é semelhante. Yung-Tay estabeleceu seis isoietas no Espírito Santo, com pluviosidades entre 750 mm/ano e 2000 mm/ano. O projeto, afirma, já recebeu a aceitação de alguns prefeitos da Grande Vitória.

Sérgio Lucena, estudioso da Mata Atlântica
Para colocá-lo em prática, será preciso ir aos locais por onde passam as isoietas e marcá-los fisicamente, "com foices, mesmo", explica. A partir dessas linhas seria reservada uma faixa de 1 km de largura para receber o replantio de espécies da Mata Atlântica. "Essas áreas ficariam intocadas, para permitir a circulação expontânea da biodiversidade", destaca. A etapa de reflorestamento seria precedida por uma de preparação do solo e reserva de água, feita basicamente a partir da construção de embaciamentos (pequenos buracos destinados a reservar água da chuva) e carreadores (caminhos feitos em curva de nível que ligam o pé ao alto dos morros) nos altos e laterais de morros de cada propriedade rural. As seis artérias capixabas teriam continuidade pelo Estado de Minas Gerais, Goiás, até o Oceano Pacífico. "É um projeto para a humanidade", conta. Os Corredores Ecológicos, assegura, deveriam funcionar como complementos de suas artérias, ligando uma às outras.

"Sozinhos, os corredores não irão se manter, serão consumidos em fogo, pois não levam em consideração a quantidade de água de cada região. Não se pode ligar áreas com pluviosidade distintas, pois as espécies não conseguirão se movimentar entre elas", alerta. O princípio das artérias ecológicas está sendo utilizado em um projeto de Yung-Tay para a Amazônia, que será publicado na edição de dezembro do Instituto Histórico e Geográfico do Estado. "Esse artigo vai provocar uma discussão muito grande entre a comunidade científica", acredita.


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