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São Pedro/Pirão
O eixo da moqueca
Marilza Bigio
Meio século de simpatia e competência,
atraindo e encantando com as delícias da nossa culinária
| Tom Boechat |
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Já lá se vão 48 anos. "Seu" Hercílio Alves da
Silva, que já havia trabalhado nas lojas Pernambucanas e era dono de um pequeno armazém
de secos e molhados, e sua mulher Almerinda, filha de italianos (Guido Ananza e Giulia
Castiglioni, que era costureira em Itapira e veio para Vitória confeccionar roupa
masculina), decidiram mudar totalmente de vida e abrir um barzinho na Enseada do Suá,
junto à praia que logo haveria de desaparecer. Corria o ano de 1952, era a época do
aterro de Bento Ferreira. Engenheiros e operários se habituaram ao prato feito do
restaurante São Pedro, duas portinhas na avenida Ferreira Coelho. Que em sua longa
história - parte dela documentada em um livro de assinaturas - recebeu honrado e satisfez
plenamente gente como JK, Carlos Lacerda, Adhemar de Barros e praticamente todos os
governadores e políticos de projeção deste estado.
Ricardo Medeiros |
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Um dos filhos, que tinha o nome do pai, acabou conhecido
como Pirão, primeiro para facilitar a identificação, depois como gozação e
logo como homenagem a quem realmente entende como ninguém de culinária capixaba - que
tem, claro, entre suas principais características, o auxílio luxuoso do pirão. Depois
de uns 14 anos de trabalho duro, ainda bem jovem (trabalhava com o pai desde os 9), com a
morte da mãe, o filho do seu Hercílio decidiu ir à luta, trabalhando em várias
atividades até aparecer com boas idéias, um sócio, disposição e competência para
abrir o Pirão, talvez hoje o restaurante mais conhecido de Vitória, com 13 anos de
presença fixa no Guia Quatro Rodas.
| Tom Boechat |
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Unem-se os dois restaurantes pela origem, é a mesma
família. Janete, que ajuda a irmã Ruth, esta responsável por tocar o restaurante São
Pedro (enquanto a terceira sócia, também irmã, Ivone, se encontra nos Estados Unidos),
conta a história do lugar. Nos diversos momentos em que alguma coisa lhe escapa à
memória, Janete logo indica: "Fala com o Pirão, que ele lembra mais do que
eu".
Família é família. E empresas familiares, que são
tradição no Brasil, cada vez mais estão se reciclando, se atualizando, para se fixar na
preferência dos clientes. O Pirão é mais ligado nessa tendência, faz marketing, é
citado todos os anos, com receitas e detalhes da cultura capixaba, no Guia Quatro Rodas.
Na revista Gula é figurinha fácil, na Vida Vitória tem presença habitual.
Por toda a casa - espaço amplo e claro na Praia do Canto -
vêm-se fotografias de muita gente sangue-bom que por lá passou e deixou testemunho
sempre - em bilhetes, autógrafos ou, de volta a seus locais de origem, falando a toda a
gente, na tv e na imprensa, sobre as excelências do Pirão. Como Armando Nogueira, que
vindo a Vitória com seu ultra-leve faz sempre questão de passar por lá (está em
várias fotos). E já deixou em suas mesas vários bilhetes, como este: "Pirão, comi
o seu pirão e pirei!"
Já no São Pedro, o marketing é a História. Na entrada,
sempre exibiu fotos dos mais ilustres freqüentadores. Mas hoje, em dias de reforma
rápida, para dar mais espaço ao hall de entrada, mantendo o lindíssimo piso original em
preto e branco, as fotografias estão bem guardadas. Janete mostra um pouco do verdadeiro
acervo histórico do São Pedro. Tem o prefeito Adelfo Poli Monjardim, tem o presidente da
Assembléia Legislativa Elcio Cordeiro ("que assumiu quando o popular Chiquinho de
Aguiar 'foi saído' do governo pelo golpe de 64", esclarece Pirão), mais o
"seu" Hercílio, o fundador, e o bispo Luís Scartegagna, na foto de
reinauguração depois da única reforma, em 62. Em outras fotos, vê-se o ex-prefeito
Crisógono Cruz, até hoje um freqüentador, na época em que comandava as obras do aterro
de Bento Ferreira. Tem o ex-chanceler Santiago Dantas, tem Carlos Lacerda, tem Juscelino
Kubitschek... fora as mais conhecidas figuras da elite intelectual e política da Ilha.
Cada um a seu modo, os dois pólos do Eixo da Moqueca
demonstram que competência e amor à culinária, à cidade e ao Espírito Santo não
apenas "dão Ibope" - trazem sucesso de crítica, público e bilheteria - como
enriquecem a vida pessoal de cada um com amigos, lembranças e sonhos.
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