Rebolado
- Remelexo - Requebrado
É com a gente mesmo
Do congo ao forró, um roteiro dos embalos que aquecem o verão
capixaba
Marilza Bigio
Fotos: Tom Boechat
Esse canto é da senzala, irmão.
Chegou aqui com a escravidão.
E cresceu no trabalho
dos canaviais.
É mais que um canto,
é uma oração.
(Traço de União - João Bosco/ Martinho da Vila)
Esse canto vindo da senzala hoje é um canto universal.
Faz o mundo cantar e rebolar. É quando se vê gente como Simon e Garfunkel (Mrs.
Robson) viajando à Bahia para apreender o ritmo do Olodum e com ele enriquecer sua
música. É quando se vê gente como Ray Charles (Georgia on my mind) se
balançando ao piano enquanto esta autêntica máquina de rebolar que é Daniela Mercury
arrebenta num comercial de cerveja. Diz Ray Charles: "Lets go, Daniela". E
a baiana deixa cair. Sensacional! Emocionante!
Esse canto é muito forte, irmão,
É um forte traço de união.
É linda a sua história,
A história desse canto
É a mesma história desta nação.
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Foi com a bossa-nova, primeiro, e com seus legítimos sucessores Caetano, Gil,
Milton, Djavan, Chico que o Brasil finalmente se libertou das confusões em torno
de sua história e seus ritmos: Buenos Aires nunca mais foi citada como capital
brasileira; a rumba passou a ser cubana, como sempre foi, deixando de ser atribuída ao
nosso acervo musical; e o tango se fixou com a identidade argentina.
A confusão tinha razão de ser, entre outros motivos
porque a baiana de Carmem Miranda se parecia mesmo com uma rumbeira e a Aquarela do
Brasil de Ary Barroso era tocada em ritmos caribenhos não se conhecia
devidamente a batida do samba. Bastou Tom Jobim dizer que o Corcovado abria os braços
sobre a Guanabara e a confusão se acabou. Tom e Vinícius fizeram Sinatra cantar a Garota
de Ipanema e um monte de gente nos Estados Unidos e alhures
internacionalizou Águas de março.
Hoje, o som internacional que toca nas boates e nos
bailes da vida traz a influência brasileira. É tudo som universal, estamos
inseridos no contexto musical do mundo. Acabou-se o purismo. E ninguém rebola como nós
brasileiros.
E como é bom
pra se dançar.
Descontrair nos carnavais.
Pular nos blocos e salões.
E nos pagodes tão legais.
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Praticamente tudo o que ouvimos e dançamos por aqui vem da senzala, como dizem Martinho e
João Bosco neste samba. É a cultura negra a grande responsável por nossa
musicalidade... e se não fossem os negros talvez até hoje estivéssemos a dançar o
vira.
No Espírito Santo, a influência negra se misturou, como
de resto em todo o país, mas até hoje se mantêm as raízes do congo e do ticumbi, duas
facetas particulares da influência negra. Em diversas regiões do litoral, em dezembro,
podem-se ver grupos dançando e celebrando o ticumbi. E, em janeiro, o congo, ancestral do
samba de roda aquele que as baianas dançam nos desfiles de escolas de samba, e que
é bem diferente do samba no pé dos passistas. "O congo é que é o legítimo
rebolado capixaba, no qual as pessoas dançam mexendo apenas as cadeiras e as
pernas", conta Rogério Medeiros, que fotografou e registrou praticamente tudo que
existe do folclore deste estado.
Me faz sorrir, me faz chorar.
Me faz sofrer, me faz vibrar.
Sem ele, eu sei, não viverei:
É como o amor, é como o ar.
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