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| de história e folclore - Renato Pacheco |
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Jandira e Breno,
poetas populares
Foi o sempre lembrado Miguel Depes
Tallon o primeiro, entre nós, que se interessou em divulgar nossos poetas populares.
Divulgou, em caderno de etnografia e folclore, um estudo sobre Lauro Santos, um contador
de história, reportando-se ao servente do Colégio Estadual Ceciliano Abel de Almeida, em
São Mateus, que com seu violão encantava as classes populares locais.
Recentemente o poeta Humberto Del Maestro me
enviou um folheto intitulado Prosas de Jandira Ferreira dos Santos, que na verdade
contém a poesia popular da autoria.. Jandira nasceu no município de Vila Velha, na
localidade de Cobi, em l0 de janeiro de l9l4. Casou-se em l927, aos 13 anos, com Joaquim
Antunes de Bicalho, com o qual teve três filhos. Tanto o marido quanto os filhos morreram
antes dela, e assim, face a sua idade, os vizinhos a levaram para o Asilo dos Velhos, onde
se encontra desde1996. As tais prosas poéticas que ela inventou vêm de sua mocidade,
quando muitos assistentes se sentavam em torno dela para ouvir sua criação. Mesmo agora
ela ainda continua a produzir seus poemas em prosa.. Alguns exemplos: "Se eu tivesse
a minha mãe, como todos têm a sua, não andava tão esquecida, como os ciscos na rua.
Outra: "Lá em cima daquele morro corre água sem chover. São as lágrimas dos meus
olhos, que não podem mais te ver". Ou ainda: "Oh, que caminho tão longo, pé
descalço areia quente. Onde está aquele ingrato, fazendo saudade à gente". Neste
ingênuo lirismo popular temos uma autêntica poetisa que merece o estudo dos doutos.
Já Breno Vieira , natural de Cachoeiro De Itapemirim, era
operário da Prefeitura Municipal de Vitória, no setor de podas de árvores.
Aproximadamente em l973, segundo me informa Miguel Tallon, ele estava podando árvores em
frente à Churrascaria Guasca, caiu e veio a falecer. Um exemplo de poema de Breno Vieira:
"O sonho. Na hora em que as cortinas se fecham lentamente, a noite vem descendo,
silenciosamente. E sonho. Por mil mundos passeio satisfeito. E ainda ontem tive um sonho
em que entrei numa cidade. E que cidade linda, pena não ser verdade. As ruas eram todas
de pão-de-ló calçadas. De rapadura as casas, os muros de queijadas. A Catedral enorme
era de goiabada, com sino e duas torres, todos de marmelada. A biblioteca tinha só livros
de beiju, borgonha e malvazia, champanhe e sagu. Um chafariz inglês na Praça vertia mel.
(...) E eu comendo sempre, comendo sem parar. Quando a mamãe veio de súbito me acordar.
Vocês façam idéia como fiquei zangado, tinha um pudim de creme apenas
principiado".
Esta a criatividade que, como a do catador de papel Wilson,
cujo livrinho foi apoiado pelo desembargador Hélio Gualberto, que devemos incentivar,
pois é maneira de o povo se expressar, esquecendo suas mágoas. |