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Vitória - ES- ANO III - Nº 27 - Maio - 2002 |
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Duas sílabas
e muita história
Flávia Fernandes
Muqui é uma mistura de curiosidades. Até o nome atiça a imaginação. A explicação sobre a origem parte da muquiense roxa Ney Costa Rambalducci, que em sua paixão pela cidade escreveu o livro Muqui - passado de glória, futuro de esperança. “Há duas versões: uma de origem indígena e outra que se apóia na palavra mucuim, nome de um mosquito”. A figura mais lendária da política capixaba, o ex-deputado e ex-senador Dirceu Cardoso, também faz parte da história de Muqui. Beirando seus 90 anos, ele escolheu a cidade onde iniciou a vida política com o simples desejo de morrer nas terras onde já se encontra enterrada sua esposa. É comum vê-lo passeando pelo quarteirão de sua casa ao cair da tarde ou, aos domingos, quando, munido de um buquê de flores, visita o túmulo da mulher, religiosamente às 5h30 da manhã.
Saindo da casa da escritora e tomando a rua, chamam a atenção a intensidade do calor e o volume da rádio, de onde os moradores recebem notícias sobre os óbitos da cidade e também escutam músicas variadas. Estando debaixo de uma das caixas de som, é preciso gritar para que se escute a conversa. O fato, que não deixa de ser engraçado, irrita alguns moradores e passa despercebido por outros, já acostumados com a poluição sonora. Uma obra de arte foi deixada na abóbada da igreja de São João Batista pelo pintor italiano Giuseppe Irlandi, durante a década de 1940. Não há como não olhar para cima e apreciar as cores e o significado das cenas bíblicas que retratam a dor de Jesus Cristo. Quem olhar para a igreja não irá perder a hora. O relógio, cujo maquinário pesa 300 quilos, é de 1917. Mármores importados de Carrara, Itália, constituem o lugar sagrado onde se festeja, em 24 de junho, o padroeiro São João.Seguindo a linha do trem em direção ao Centro Cultural, que funciona na desativada estação da estrada de ferro Leopoldina, está a casa mais representativa do sítio histórico de Muqui. Martha Maria Rodrigues dos Santos e sua mãe, Ana Cândida Ribeiro Rodrigues, de 87 anos, assumem o gosto por coisas antigas nos mais de 30 anos de moradia. A casa possui as cores azul, branco e cinza, com azulejos pintados em alto relevo mostrando a Urca e o Pão de Açúcar. Na parte interna, o colorido e os detalhes da pintura, portas e assoalhos, todos originais. Em cada cômodo, um tema diferente e, por isso, anjos de um lado e pinheiros de outro. O ladrilho da varanda é proveniente da Bélgica e, numa sala com aproximadamente 9 metros quadrados, cinco portas deixam trancadas as passagens por aquelas bandas. A diversidade e a riqueza arquitetônica são características do sítio histórico de Muqui, que conta com 186 casas tombadas pelo Conselho Municipal de Cultura e outras 561 inventariadas para serem tombadas. Na zona rural, as casas de fazenda trazem o estilo colonial português, como também a arquitetura eclética do início do século XX e o rural italiano. Na sede, o ecletismo é intenso, passeando do movimento moderno a elementos da arquitetura kitsch. As sacadas e avarandados estão presentes em quase todas as edificações, com seus parapeitos bem ornamentados. No piso das escadarias, o mármore ou o cimento queimado e, normalmente, os cômodos são organizados por um corredor que parte da ala social da casa e vai até a área de serviços. Martha Maria Rodrigues dos Santos sente saudades de sua mocidade. “A gente podia confiar em todo mundo. Hoje tem muita gente de fora, principalmente do Rio de Janeiro, que se aloja nos morros. Antes a cidade era formada por famílias enraizadas e tradicionais”. A distribuição dos 13 mil habitantes mostra com precisão o êxodo rural: apenas cinco mil fixam moradia no campo. Conflitos, simpatias e afeições se misturam numa química de reminiscências e idiossincrasias. Além dos bailes que animavam a noite da pequena Muqui, a bala de chupeta, com açúcar e bambu na ponta, guarda o doce passado da muquiense Martha dos Santos. O menino e o boi No meio da rua, uma cena rouba a atenção de quem não está acostumado com as surpresas de Muqui. Uma multidão participa do velório, carregando um caixão. De cabeças baixas e expondo um pesar nos rostos, eles seguiam em frente, cruzando a linha do trem para chegar ao cemitério. Logo na rua, à esquerda do lugar dos mortos, um menino de 11 anos e caçula de duas irmãs mostra a intensidade da vida. Ele quer provar a todo custo a graciosidade de seu boi-bumbá mirim. Com uma força de vontade de impressionar, Renato Vítor de Oliveira simplifica seu nome para Tim e encanta os amantes do folclore. Espadeiro do boi-bumbá, ele reúne 35 pessoas e não se importa de encarar a pé as duas horas de caminhada até o Sumidouro para recolher as duas cabeças de boi responsáveis pela alegria de muitos durante o Carnaval.
Depois de acordar às seis da manhã, Tim se levanta, escova os dentes, toma café, põe a roupa do colégio e vai ligeirinho para a escola agrícola, de onde só volta às três da tarde. Depois, o menino brinca, visita amigos, vai à casa da tia pegar mexericas, não deixando de cumprir alguns favores para a mãe. Rotina bem distante dos centros urbanos, o dia-a-dia de Tim também consiste em catar sucatas e pedaços de madeira encontrados pelo meio do caminho para a confecção dos instrumentos de seu boi. No bate-papo sobre folclore, ele admite que ainda não conhece uma banda de congo. “Só conheço a casaca porque, quando fui a Vitória, meus amigos ficaram caçoando de mim. Eles falaram que o instrumento era o meu clone devido ao rosto que vem esculpido nela”. Quando perguntado sobre o que mais gostava na cidade, Tim respondeu depois de uma pausa e muito pensar: “da cidade”. Resposta mais precisa só se for da boca de outra criança.
As camisas, como tesouro, estão guardadas até hoje para simbolizar o que foi o primeiro uniforme oficial da folia Estrela do Oriente do Desengano. A atual vestimenta consta de uma camisa amarela e uma calça azul. Todo ano uma nova música é composta junto com o contramestre para animar o percurso da folia que visita casas, pedindo ofertas, quitutes e bebida. Seu Prúcoli, que está organizando um encontro de folias, lamenta sua solitária participação no folclore dentro de sua família. “Meus irmãos gostam mas não acompanham. Eles recebem a folia em suas casas e ajudam. No dia em que a morte chegar ao grupo, levará um de cada vez. Geralmente somos da terceira idade e os mais jovens não estão se interessando muito em manter a tradição”.
Durante um semestre de 1999, concretizou seu primeiro trabalho artesanal de destaque. O bailado dos Reis Magos tem funcionamento elétrico, e como é delicioso notar que eles fazem reverência ao passar em frente à manjedoura do Jesus Menino. Como a criação pediu improviso, todas as engrenagens foram feitas de peças de bicicleta e de máquina de lavar, correia de motor de carro e linha de máquina de cortar grama. A fonte de alimentação do áudio – no presépio há musiquinha – é computadorizada e um toca-fitas reproduz o som ambiente.
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