Vitória - ES- ANO III - Nº 27 - Maio - 2002
Principal
Arquivo
Expediente
Download
Fale Conosco
Seções
Fatos e Lendas do Sertão
De história e folclore
Livre Pensar
Crônica


Maio/2002 - Nº27

Século Diário
O Jornal do Espírito Santo
na Internet.

Clique Aqui e faça o download da revista completa em PDF.

Veja as edições anteriores

Ladeira que leva a Deus

Baticum no Convento

Adilson Vilaça
Fotos:Apoena

O 8 de abril ensolarece. Bem de manhãzinha, as mães dos anjinhos ajeitam-lhes a última demão de retoque na alvura das penas. É dia de anjo subir o Convento da Penha! Melhor para os anjos, que a subida é íngreme e nem todos sabemos o angelical milagre de voar. Mais difícil, talvez, para quem sobe de joelhos, porque a graça foi imensurável, e seu sinal de retribuição exige desgaste físico, flagelação genuflexa e mais rosários de tantas penitências. Mas assim é a tradição religiosa que, anualmente, vai se encarapitar na Penha.


Em Alguma poesia, livro de estréia de Drummond de Andrade, na procissão dos anos, aquele anunciado em 1930, os versos de Romaria perfilam expiação, festejo, súplica.

Os romeiros sobem a
ladeira cheia de
espinhos, cheia de
pedras, sobem a
ladeira que leva a
Deus e vão deixando
culpas no caminho.

O poeta fala de uma ladeira longe, mineira, lá de Congonhas do Campo, onde Aleijadinho semeou Os Doze Profetas, em pedra-sabão, no adro da Igreja de Bom Jesus do Matosinhos. Bem no início do século XIX, coisa-vai entre 1800 e 1805. No acesso ladeirado do adro, Aleijadinho ajudou a plantar as seis capelas que abrigam Os Passos da Paixão de Cristo, dando movimento a algumas das imagens nelas preservadas. Por ali, na suavidade daquele cai-de-costas, é que subiam os passos apaixonados dos devotos. As gentes do povo, em romaria.

Verseja também o poema sobre a gritamulta da turba, que se espalha nos aconchegos de cafés, nos pingados, sob “um sol imenso que lambuza de ouro / o pó das feridas e o pó das muletas”. Havia mesmo uma albergaria para agasalhar o povaréu romeiro. Depois uma autoridade não gostou mais daquilo, não; e aquela confusão de gente é que virou pó, como se empurrada pela demolição dos abrigos. Chegava daquilo, de tanta gente pedinchona, bastava. A autoridade terrena achou que os pedidos incomodavam os Céus. Ou fez que achou, achando-se, ela, na terra, incomodada.

Os romeiros pedem
com os olhos, pedem
com a boca, pedem
com as mãos.


Pois a subida do Convento da Penha é réplica. É mais de agradecimento, celebração de alegria. Os pedidos são patrimônio antigo, graças alcançadas, laçados em fitas de rosa e de azul da padroeira do Espírito Santo. Assim e assinado a ribombo é que o congo empoleira na ladeira — para agradecer. Porque houve um tempo em que o congo não subia não. Pedia, pedia, pedia — e nada. A autoridade terrena, enconventada no capuz das ordens religiosas, achava profana a romaria. Que batessem só lá no pé. Só lá no sopé. Só-lá-no-so-pé. Só lá no pé. Na sola do pé.

Batuque dos anjos

Havia uns anjos velhos, misturados aos jovens. Os mestres Djalma, Tarzan e Bagaceira chegaram anteriores. Rodeavam-se de tambores, caixas, chocalhos e casacas, que foliavam entre os tocadores, no muque e na mão. O estandarte posava para as fotos, desde instantâneos de lambe-lambes modernos ao olhar fotojornalístico, antropológico. E as câmeras ruidavam aberturas, e o povo tele-se-via por dentro do fato, naqueles bastidores da concentração.
Era no portal de acesso ao Convento. Lá no pé da ladeira, no portão estavam. As meninas, os meninos, as gentes da Banda de Congo da Glória: vilavelharam-se em arredor do chamado toc-totoc animado nas baquetas de Júlio, no centro, em vaivém. Sentou-se o Brás, agoniando o tambor. Ao primeiro embalo, as almas que vinham de todos os recantos da fé capixaba entusiasmaram-se por um ligeiro tranco, de parar e de ver, de ouvir, consagrando no pulso do coração o ritmo da auto-estima.

Brancos, negros, mestiços conflagrados na folia humana — em êxtase de não se pertencerem a nenhuma raça, senão ao chamado da diversidade capixaba. Parando e espreitando, e bendizendo com o olhar extasiado. A comunhão é pelo agora, em quando o congo já pode subir para louvar Nossa Senhora da Penha. Agora, já pode. Porque de tanto pedir, de tanto furar o tímpano dos tambores com rogos e regougos de musicaria benta, tem coisa de pouco mais de década que o congo já pode subir. Subir a Penha.

A Banda da Glória, fundada em 1952, sossega. Fica à espera do Tambor de Jacaranema, que vem lá da Barra do Jucu. A Banda da Glória não tem ânsias de let us, let’s go. Nem tem apreço a esses gringoleios — é mestrada em espera, em raiz fincada na identidade capixaba. Ficou dependurada em alças do calendário, no bolso das casacas ajeitando o letrado de raiz, em dias e anos e anos em que não tocava mais não. Mas driblou a morte, feito vai-e-volta, que deixa o que passou na cova do destempo e retorna para o ritmo-fênix do eterno-retorno: a folia da vida!

Quem disse que a Banda da Glória esteve desativada? Qual! Apenas esperava. Pelo Tambor de Jacaranema e pela Banda de Congo de Santo Expedito, que se endereça na Serra. Da parte da Barra, quem chegou foi o Beto. Noticiou os preparativos que vinham desde lá, no embarque do Tambor de Jacaranema. Então, era mesmo só esperar, e esticar um pouco mais a espera, porque a Serra é longe — mas para baixo, em dia de Nossa Senhora da Penha, outro santo não carece de ajudar.

Encontro das bandas

Quem já foi atrás de trio elétrico? Para quem não morreu, é coisa boa de ir — lá na Bahia. Porque na terra do congo, é sacudir o esqueleto atrás da casaca. Mas tem coisa de lembrar os trios: o encontro deles. Pois aqui é encontro de bandas de congo. No sopé da Penha. Só pé no chão, na marcha expedita em que chegou a banda da Serra, Santo Expedito, aos comandos de Expedito Andrade, num viveréu alarmoso a São Benedito. Era o dia de São Benedito dançar com Nossa Senhora da Penha.

Só faltava o Tambor de Jacaranema. Para o encontro. Ela que tem a tradição de subir a ladeira, logo ela e sua goela de repertórios, que não podia faltar. Agora, era o encontro de esperas — esperavam Júlio, Tarzan, Djalma, Bagaceira, Brás, Sagrilo, Pig, Expedito e o Beto aflito, naquela perguntaragem de: “Mas será o Benedito?” Contudo, ninguém ligou o let us, let’s go. Não tinha gringo no congo, ninguém gringolou. Foram aos cafés, aos pingados, aos Deus-não-veja e Nossa Senhora da Penha proteja!

Enfim, quando veio, eis que chegou o Tambor de Jacaranema. Em tempo de salvar os estandartes de São Benedito, que se já se queimavam ao flaflá dos flashes, compulsivos, gotejando à-toa no mar aberto do sol. Um calor, que só quem tinha muita fé em Nossa Senhora da Penha esperançava um chuvisco. “Todo dia da Penha é chuvoento”, repetiam-se os íntimos da Santa. Todazul, todavia, o céu não estava nem para chuva nem para vento. Talvez só propício a espavento! Que veio.

Num susto, que arredaria as sombras de sossego abrigadas em toldos de espera, o Tambor de Jacaranema encabeçou a retumbaria, em romaria. Puxou o Ajuda eu, e a cantoria pedia um ajudei eu tambor, ao tambor pedia um ajuda eu cantar, e subia, subiu, arrastando o frufru verdoengo das folhagens e os olhares e as palmas ritmadas das pessoas que sobe-desciam em louvor. Ali cantava, em ascensão, a alma capixaba. Na voz seguida em ribombo da Banda da Glória, naquele encalço de Tindo-lelê em que voava no vácuo multitudinário do rastro do Tambor.

Ô tindo-lelê, ô tindo-lalá
deixa a caixa bater
deixa o congo falar.

Menina que vai na frente
carrega sua bandeira é pra
santa milagrosa é a nossa
padroeira.


Refrando na retaguarda, até em choros de cuíca e tlintlins de triangulinhos que eles tinham, vinham os serranos da Santo Expedito. Numerosos, vozeirosos, suplicosos.

Iaiá você vai a Penha
me leva oi, me leva.
Eu vou criar capricho,
eu vou trabalhar,
eu tenho uma
promessa pagar...


Iam-se as vozes ladeirando ingrimidades no ritmo dos passos. Do congo. Talvez tudo muito diferente do que a primeira Festa da Penha, realizada ainda em vida de Frei Pedro Palácios, que a promoveu, do modo que conta o Mestre Guilherme Santos Neves (História popular do Convento da Penha, reedição de 1999). Certamente, porém, mais ao gosto do Mestre, que escarafunchou em lavras que viveu a riqueza do patrimônio cultural capixaba, especialmente no nicho da cultura popular, do folclore. É dele o que vai dito: “O povo, que cria a História, também cria o Folclore”. Então, a seu ensinamento, não custa o acréscimo: no Espírito Santo, em seu traçado histórico, frutificado no ventre colonial-católico, festa religiosa que não convida tambores de São Benedito profana a fé capixaba.

Uma santa conguista

Que não se acuse de herético o intertítulo. Senão, vejamos: quando chegou ao Espírito Santo, em 1558, o frei espanhol Pedro Palácios, franciscano, deixou pistas para que assim o biografasse Nara Saletto: “Fixou-se em Vila Velha, mais precisamente num monte encimado por um penhasco, próximo à entrada da baía, no qual passou a morar – numa cabana ou numa gruta – enquanto construía, com a colaboração dos moradores, uma pequena capela na encosta.” (Donatários, colonos, índios e jesuítas, v.4, p.35).

Pedro Palácios dedicou a capela a São Francisco de Assis, nela colocando uma imagem do santo e um painel de Nossa Senhora das Alegrias, que trouxera da Europa. Inquieta, sabedora que a alegria não mitiga sossego, a Santa carregou seu painel, por três vezes, para o alto do rochedo, da penha, sem medo de se despenhar. Era um pedido ao frei, para que escalasse o cimo, e lá construísse uma ermida. A ermida da Penha.

Por isso seus devotos têm direito à alegria, ao baticum alpinista-conguista até o Convento. Bem-aventurados os padres que lá estavam, porque já aprenderam o milagre: o congo é festa de Nossa Senhora das Alegrias, que se tornou da Penha, que subiu aos píncaros de sua inquietude, e quer que o povo assim conduza sua fé. Alegremente, para cima. Para assistir a missa das comunidades, com direito a bandas de congo no altar.



Porque ladeira abaixo nem precisa de santo ajudar. Nem de asas é preciso! É só deixar quebrar, requebrar, gabirobar atrás do estirão de retirada da Banda de Santo Expedito. Arrastão que foi refresco, depois da missa de 40º, em que não choveu. De chuva, neca de catibiribas para os gabirobas. Mas o milagre foi a comunhão do baticum.

Quebra, quebra gabiroba.
Quero ver quebrar!
Quebra lá, que
eu quebro cá.
Quero ver quebrar!







Voltar Home